Do mesmo dia

Lisboa: Igreja combate a crise com ajuda alimentar, médica e financeira

O Jornal “Voz da Verdade”, do Patriarcado de Lisboa, apresenta na sua edição online um conjunto de de paróquias que apostaram na ajuda alimentar, médica e financeira para fazer face à crise.

“Eram cada vez mais as pessoas a bater-nos à porta. Tínhamos de fazer algo”. Isabel Dias Pinheiro, de 62 anos, é a responsável pelo recém-inaugurado “Refeitório de Nossa Senhora do Amparo”, da paróquia de Benfica.

Esta nova valência de auxílio aos mais carenciados foi criada há cerca de um mês e meio em resposta à crise económico-financeira. “Esta ideia nasceu porque começaram a bater-nos à porta do centro social pessoas que, devido à situação de crise económica do país, se viram confrontadas com o despedimento e que por isso vivem situações muito complicadas”.

O pároco de Nossa Senhora do Amparo, cónego José Traquina, fez o apelo aos leigos e reuniu desde logo uma equipa. Utilizando os meios que o centro social paroquial dispõe, e com o apoio de voluntários, a paróquia tem conseguido garantir refeições a 15 pessoas em declarada necessidade. “É servido um almoço, tanto quanto é possível, farto, que inclui uma sopa, um prato, uma peça de fruta, um cafezinho e até um bolinho – enfim, um miminho – porque muitas vezes são até pessoas que têm vergonha da sua nova condição”, alerta Isabel Dias Pinheiro.

Aberto de Segunda a Sexta-feira, à hora do almoço, o refeitório vive do voluntariado e do trabalho dos leigos. “Neste momento, estamos cerca de quatro, cinco voluntários por dia. Eu, porque sou reformada, estou em permanência, e depois as outras pessoas vêm uma ou duas vezes por semana”. Não se pense, contudo, que este é um serviço prestado apenas por pessoas reformadas. Isabel conta que os jovens universitários também dão a sua colaboração: “Conseguimos mobilizar alguns jovens universitários que dão um apoio absolutamente excepcional, que têm um carinho com as pessoas e uma alegria de viver contagiantes”.

A criação do “Refeitório de Nossa Senhora do Amparo”concretiza-se no ano em que a igreja paroquial faz 200 anos e é, nas palavras do cónego José Traquina, “mais uma ousadia da Caridade na longa tradição da paróquia de Benfica no apoio aos mais pobres”.

Consultas médicas gratuitas em São João de Deus

A saúde é também uma preocupação da Igreja. Em São João de Deus, a paróquia criou há já cinco anos um serviço de consultas médicas grátis aos necessitados, que são prestadas por médicos voluntários. Maria Aurora Preza, do Núcleo Paroquial da Pastoral da Saúde, recorda que este projecto nasceu numa conversa sua com um amigo. “Eu tenho um psicólogo muito amigo – que é também da paróquia e pertence ao nosso grupo de oração – e em 2004 desafiei-o a dar algu

m do seu tempo à paróquia com consultas de psicologia gratuitas”. Este médico aceita o desafio e leva consigo mais duas psicólogas e um assistente social para o ajudarem neste serviço. Dias depois, no final da Eucaristia, um outro médico dirige-se a Maria Aurora dizendo que queria ser visitador de doentes. “Foi uma alegria imensa, porque temos muitas pessoas que com a idade já não conseguem ir ao posto de saúde”, refere esta responsável.

O objectivo da paróquia é apenas um: fornecer serviços médicos gratuitos aos mais necessitados. Estas consultas funcionam nos espaços da paróquia. Nos claustros da igreja está afixado um quadro com o nome dos médicos, a especialidade e a disponibilidade de horários. “Este é um serviço dirigido a pessoas que manifestamente não tenham possibilidades financeiras de usufruir por outro meio de assistência médica”, refere a responsável pelo Núcleo Paroquial da Pastoral da Saúde da paróquia de São João de Deus.

Com o passar do tempo, outros clínicos foram oferecendo um pouco do seu tempo às pessoas que não conseguem pagar as consultas médicas. É o caso de uma psiquiatra, do Hospital de Santa Maria, um outro psiquiatra, do Hospital D. Estefânia, um pneumologista, do Hospital Curry Cabral, e de um radiologista, do British Hospital. Com a crise a fazer-se sentir cada vez mais, esta equipa de médicos foi recentemente reforçada com mais três voluntários: duas psicólogas clínicas e uma nutricionista.

A enfermagem é também uma preocupação. Maria Aurora Preza revela que a paróquia está a criar um gabinete da especialidade. “Estamos a tentar montar um gabinete de enfermagem e para isso contamos com a ajuda de uma enfermeira que recentemente veio também colaborar connosco”, revela esta responsável, sublinhando a dedicação desta voluntária que tem ido a casa das pessoas mais necessitadas dar injecções.

Ainda no âmbito da saúde, a paróquia de São João de Deus tem um armário com medicamentos que distribui gratuitamente. Há também casos de pessoas que não têm possibilidades de comprar os medicamentos e, nesse caso, a paróquia paga os remédios. “As pessoas levam da paróquia um papel e a farmácia fornece os medicamentos e no fim do mês apresenta as contas à paróquia”, explica Maria Aurora.

Campo Grande aposta em fundos financeiros

O auxílio financeiro para ajudar no pagamento das despesas diárias é outras das prioridades das paróquias de Lisboa no combate à crise que Portugal atravessa. Criado há cerca de um mês, o “Fundo de Solidariedade” da paróquia do Campo Grande é um projecto que “procura responder às situações mais difíceis que batem à porta da Igreja”.

E são muitos os casos, segundo relata o pároco do Campo Grande, monsenhor Vítor Feytor Pinto. “Este projecto nasceu porque nós aqui na paróquia sentimos que muitas pessoas nos procuravam para encontrarmos solução para situações emergentes”. Pensado pelos sacerdotes da paróquia – “que são que mais acolhe esta situação de novos pobres” –, o “Fundo de Solidariedade” nasceu da crise e em colaboração com os quatro assistentes sociais que trabalham com a paróquia. “Só assim tem sido possível atender a muitos casos de verdadeira emergência social”, garante monsenhor Feytor Pinto.

Situações de apoio ao crédito de habitação, problemas de pais que estão a educar os filhos numa creche e não têm possibilidade de pagar a mensalidade são apenas alguns dos casos que têm chegado ao conhecimento da paróquia.

A paróquia do Campo Grande abriu uma conta bancária, “onde existem já alguns milhares de euros”, que tem recebido muitos donativos. “Todas as dádivas são completamente anónimas. Essa foi uma das condições que nós pusemos. Não se vem proclamar, nem descontar para o IRS… são dádivas num sentido de generosidade que seja generosidade mais pura”, salienta monsenhor Feytor Pinto.

O centro social da paróquia do Campo Grande tem também sinalizadas diversas famílias que estão a passar por momentos de dificuldades e que serão acompanhadas enquanto não puderem dar um novo rumo às suas vidas. “O nosso centro social tem um “Fundo de Emergência”, em que os próprios funcionários da paróquia dão um pouco do seu vencimento para esse fundo”, revela monsenhor Feytor Pinto, orgulhoso por a sua paróquia ter “duas fontes de resposta para os problemas humanos mais graves que aparecem”.

“Igreja Solidária”

O projecto “Igreja Solidária”, desenvolvido pela Pastoral Sócio-Caritativa do Patriarcado de Lisboa, tem como objectivo imediato responder a necessidades básicas dos que cada vez mais procuram as instituições cristãs, fornecendo alimentação e medicação, sobretudo no caso de idosos, e prestando apoio no pagamento da renda de casa ou das mensalidades nos estabelecimentos escolares ligados à Igreja.

Numa primeira fase, o projecto vai procurar aumentar as respostas a dar em termos de alimentação e roupa, através da ajuda e recolha de fundos pelos centros sociais, Banco Alimentar e Cáritas. No âmbito deste plano solidário, o Patriarcado de Lisboa espera vir a negociar com o Ministério do Trabalho e da Segurança Social eventuais soluções que permitam também criar postos de trabalho ou ocupações em instituições ligadas à Igreja, de modo a promover o emprego e a potenciar melhores condições económicas às famílias.

O projecto “Igreja Solidária”, refira-se, envolve cerca de 300 instituições ligadas à Igreja Católica, entre Centros Sociais Paroquiais, Centros de Dia, Misericórdias, Movimentos, Conferências Vicentinas e Instituições Particulares de Solidariedade Social.

O plano do Patriarcado de Lisboa pretende pôr a funcionar em rede todas as paróquias da capital para responder à crise. Foi aberta uma conta bancária (NIB: 000700000073818455123) para receber donativos. Um fundo de 175 mil euros vai ser mobilizado para ajudar os carenciados.

As paróquias vão ser incitadas a pagar rendas ou medicamentos e a criar postos de trabalho em instituições ligadas à Igreja através de protocolos com o Governo, que entretanto se mostrou disponível para dialogar.
Nacional | Voz da Verdade | 2009-04-30 | 11:14:00 | 8754 Caracteres | Diocese de Lisboa

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