Papa deixa mensagem de «ternura e esperança»

Francisco rejeita acusações de «marxismo» e aborda temas como criação de mulheres cardeais ou viagem à Terra Santa, em entrevista a jornal italiano

D.R.

Cidade do Vaticano, 15 dez 2013 (Ecclesia) – O Papa concedeu uma entrevista ao jornal italiano ‘La Stampa’, publicada hoje, em que fala do seu primeiro Natal no Vaticano e responde, entre outras questões, às acusações de “marxismo” de que foi alvo.

“O Natal fala de ternura e de esperança. Deus, ao encontrar-se connosco, diz-nos duas coisas. A primeira é: tenham esperança. Deus abre sempre as portas, nunca as fecha, é o pai que nos abre as portas. A segunda: não tenham medo da ternura”, afirma.

Segundo Francisco, quando a Igreja se esquece da ternura e da esperança torna-se “fria” e enreda-se em “ideologias”.

O Papa lembra os cristãos que passam por “dificuldades” na terra onde Jesus nasceu e confirma que está a preparar uma viagem à Terra Santa para se encontrar com o seu “irmão Bartolomeu, patriarca de Constantinopla” (Igreja Ortodoxa), nos 50 anos de um encontro idêntico, entre Jerusalém, então entre o Papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras.

Jorge Mario Bergoglio, eleito como sucessor de Bento XVI a 13 de março, vai celebrar o seu primeiro Natal no Vaticano num mundo “afetado pelas guerras” e pela fome, preocupações presentes nas suas últimas intervenções, que lhe valeram acusações de “marxismo” por parte de setores conservadores dos Estados Unidos da América.

“A ideologia marxista está errada, mas conheci durante a minha vida muitos marxistas que eram boas pessoas e por isso não me sinto ofendido”, observa.

O Papa mostra-se “surpreendido” com as críticas recebidas após a publicação da exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’ (a alegria do Evangelho), a respeito da passagem em que se pronuncia contra uma “economia que mata”.

Francisco diz ter apresentado a “Doutrina Social da Igreja” numa “fotografia” sobre a situação atual, o que “não significa ser marxista”, e reafirma que não falou “desde o ponto de vista técnico.

“Prometia-se que quando o copo estivesse cheio, transbordaria e os pobres beneficiariam com isso. O que acontece, pelo contrário, é que quando está cheio, o copo cresce, por artes mágicas, e nunca sai nada para os pobres”, explicou.

O Papa renova os seus apelos à luta contra a fome e o desperdício de alimentos, pedindo que todos se unam para “dar de comer” a quem precisa.

“Que a esperança e a ternura do Natal do Senhor nos sacudam da indiferença”, apela.

Francisco admite, por outro lado, que não sabe de onde surgiu a notícia de que iria criar mulheres cardeais, algo que descarta.

“As mulheres na Igreja devem ser valorizadas, não clericalizadas. Os que pensam em mulheres cardeais sofrem um pouco de clericalismo”, afirma.

A entrevista alude aos esforços de renovação financeira na Santa Sé, frisando que “as comissões de supervisão estão a trabalhar bem”, mas deixa em aberto o futuro do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o chamado ‘banco’ do Vaticano.

Relativamente à reforma da Cúria Romana, que tem sido discutida com a nova Comissão de Cardeais, o Papa adianta que as primeiras “sugestões concretas” vão ser entregues em fevereiro e que, durante as reuniões, se limita a escutar.

“A reforma começa sempre por iniciativas espirituais e pastorais, mais do que com mudanças estruturais”, declarou.

Francisco diz que considera “prioritário” o diálogo ecuménico e destaca, a este respeito, o “ecumenismo de sangue”: “Nalguns países, matam cristãos por levarem consigo uma cruz ou por terem uma bíblia, e antes de os matarem ninguém lhes pergunta se são anglicanos, luteranos, católicos ou ortodoxos”.

A entrevista foi realizada no último dia 10, na Casa de Santa Marta, e durou uma hora e 35 minutos. 

O Papa já tinha concedido uma entrevista à estação televisiva Globo, durante a sua visita ao Brasil, e outra às revistas jesuítas, em agosto, conduzida pelo padre Antonio Spadaro.

OC

Fotos   
Internacional | Agência Ecclesia | 2013-12-15 | 12:21:32 | 3752 Caracteres | Papa Francisco

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