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Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na Missa de 13 de maio na peregrinação aniversária ao Santuário de Fátima

Agência Ecclesia
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Para tomarmos Maria como Mãe, como Ela nos toma como filhos

Caríssimos irmãos, a dupla entrega, da Mãe ao discípulo e do discípulo à sua Mãe, é parte relevante do “testamento” de Jesus, ao partir deste mundo visível, para ainda mais o preencher com a sua humanidade crucificada e ressuscitada. Irrecusável, pois, esta dupla entrega. Pelo momento definitivo em que foi feita, quando cada palavra de Jesus lhe resumiu a vida, a graça e o dom.

Se estamos aqui reunidos, provindos dos quatro cantos da terra e de todos os rincões de Portugal, é porque, antes de mais e por parte de Maria, a entrega foi inteiramente correspondida. Nos trinta e poucos anos da vida terrena de Jesus, Maria foi alargando espiritualmente a maternidade aos discípulos do seu Filho. Com eles se manteve depois da ressurreição, até ao Pentecostes que os enviou a todos os povos, para ainda a estes se alargar também.

Quando o Evangelho chegou ao que é hoje a nossa terra portuguesa, o envolvimento maternal de Maria, foi somando referências, que dela passaram para as nossas etapas coletivas, como que as garantindo muito mais. Se era sobretudo a sua “maternidade expectante” (18 de dezembro) quando estávamos para nascer como povo, foi a “assunção” (15 de agosto) quando crescemos e a “imaculada conceição” (8 de dezembro) quando nos restaurámos. Revemo-nos hoje, com a Mensagem de Fátima, no Imaculado Conceição de Maria. E aqui estamos no seu lugar de excelência, agradecendo com Maria os muitos dons que nos obteve do Céu, como Mãe e Padroeira: «O meu espírito alegra-se em Deus meu Salvador!»

Não pretendi nesta breve alusão demorar-vos com nada de secundário. Nem esqueço que, em muitas nações, o legado maternal de Maria tem outras referências, próprias e marcantes também. Mas, estando nós em tempo de grandes indefinições culturais, lembro tão-somente que Portugal nunca se entendeu sem Santa Maria, cuja “terra” é. E adianto ainda que só por grande distração ou preconceito não se notará o que aqui sucede há um século quase, neste chão bendito da Cova da Iria.

Sendo as famílias e o catolicismo realidades fundantes do que somos hoje, ainda que sejamos diversos, hão de ser tidos em conta por organizações posteriores, como o Estado ou as instâncias internacionais, quando legislam ou administram o que a todos respeita. As entidades políticas servem o bem comum, que é o bem de todos segundo as legítimas escolhas de cada um. Porque solidariedade sem subsidiariedade, não o é de facto. É neste ponto que culto, cultura e sociedade se devem harmonizar, mesmo e sobretudo em sociedades plurais e democráticas, como quer ser a nossa.

Gerações somamos de peregrinação, em tempos de guerra e em tempos de paz, em horas de dor e ainda de esperança, por si, pelos seus e por muitos outros. Porque em tantos lugares continua a vida, pessoal ou pública, como sempre acontece. Buscam-se soluções, tomam-se medidas, de acerto variável… Mas, aqui em Fátima, antes, durante e depois disso e muito mais, cumpre-se o legado do Senhor na Cruz: temos uma mãe, pulsa um coração. Uma mãe que, sendo de Jesus, o é de nós todos. Um coração em que cabem e se sublimam os de todas as mães. Será esse talvez o maior “segredo” de Fátima. E assim mesmo atrai, assim mesmo perdura.

 

- Mas, se a Mãe de Jesus cumpre assim totalmente o que lhe incumbiu, de ser também nossa, como cumprimos nós a parte correspondente de sermos seus filhos e a guardarmos connosco e nas nossas vidas?

Na verdade, é sobretudo com Ela que a maternidade ocupa na Igreja o seu lugar devido e completo. Sem Maria não houve Cristo no mundo e sem Maria não há Igreja de cristãos. O carisma mariano antecede e excede o petrino, porque antes de sermos ministério somos mistério – e precisamente um mistério de amor, que nisso mesmo encontra a expressão mais intensa.

Maternidade que tem no feminino a concretização específica, mas se alarga a Deus e à Igreja toda, como sentimento geral e necessário. Aliás, nem captaríamos algo de Deus, realidade absoluta, sem o feminino, em que também Se exprime, como lembra o Catecismo, quando ensina: «Deus não é, de modo algum, à imagem do homem. Não é homem nem mulher. […] Mas as “perfeições” do homem e da mulher refletem qualquer coisa da infinita perfeição de Deus: as de uma mãe e as dum pai e esposo» (Catecismo da Igreja Católica, 370).

Como quando Deus a si mesmo refere superlativamente o amor materno, para acalentar o seu povo (cf. Is 50, 15); ou quando o próprio Jesus queria guardar “maternalmente” os habitantes de Jerusalém, como a galinha aos pintainhos (cf. Lc 13, 34); ou quando Paulo diz de si próprio aos tessalonicenses, resumindo a alma do apostolado em geral: «Quando nos poderíamos impor como apóstolos de Cristo, fomos, antes, afetuosos no meio de vós, como uma mãe que acalenta os seus filhos quando os alimenta» (1 Ts 2, 7).

– Quantas consequências espirituais e práticas devemos tirar daqui! Atendamos ao Papa Francisco, quando escreve assim: «Ao pé da cruz, na hora suprema da nova criação, Cristo conduz-nos a Maria; conduz-nos a ela, porque não quer que caminhemos sem uma mãe […]. Não é do agrado do Senhor que falte à Igreja o seu ícone feminino. Ela, que o gerou com tanta fé, também acompanha “o resto da sua descendência, isto é, os observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus” (Ap 12, 17)» (Evangelii Gaudium, 285).

O ícone da adesão a Cristo como em Maria aconteceu, de sentimento profundo, decisão forte e prática consequente. E com Maria há de acontecer em nós – e por nós no mundo, o nosso mundo agora. Misericórdia, Igreja e Maria são expressões maternas do amor envolvente, em torno de Cristo e do seu Coração: ao Sagrado Coração de Jesus pelo Imaculado Coração de Maria, assim resumiremos a devoção cristã – e a própria mensagem de Fátima.

Neste lugar bendito, como nas nossas comunidades e famílias, a devoção mariana não distrai do mesmo Cristo, que afinal a autoriza. Mas tem de lhe obedecer estritamente: “Eis aí a tua mãe!” é uma indicação precisa, como Ele a dá ao discípulo, que nos representa a todos. A exegese, a teologia, o magistério e a vida do Povo de Deus ajudar-nos-ão a dar-lhe o valor devido, mas nunca dispensável.

 

E são os próprios Papas a insistirem neste “lugar” materno e mariano, como imprescindível para nos concentrarmos em Deus, como se revelou em Cristo. São João Paulo II, devoto e peregrino deste Santuário, nunca esqueceu no seu preenchido magistério o lugar e o papel de Maria na vida de Cristo e dos discípulos. Na esteira de grandes autores do ocidente e oriente cristãos e em grande correspondência à piedade mariana do Povo de Deus, sublinhou, com o Concílio, o lugar da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, no mistério de Cristo e da Igreja (cf. Lumen Gentium, cap. VIII). Deixou-nos, João Paulo II, quase como testamento espiritual, a carta apostólica Rosarium Virginis Mariae, que nos fará muito bem reler e retomar, para cumprirmos a nossa parte da herança de Jesus, no que a Maria se refere.

Aí lemos frases como esta: «Recitar o Rosário nada mais é senão contemplar com Maria o rosto de Cristo» (RVM, 3). Rosto de Cristo que nos indica tudo o que havemos de fazer no mundo, como Ela exemplarmente o cumpriu. E o Papa Wojtyla já nos indicava como urgências para a recitação do Rosário as duas causas maiores da atualidade eclesial e social: a paz e a família.

Porque, escrevia ele, «descobrir novamente o Rosário significa mergulhar na contemplação do mistério daquele que é a nossa paz» e «não se pode recitar o Rosário sem sentir-se chamado a um preciso compromisso de serviço à paz». Semelhantemente, «análoga urgência de empenho e de oração surge de outra realidade crítica da nossa época, a da família, célula da sociedade, cada vez mais ameaçada por forças desagregadoras a nível ideológico e prático, que fazem temer pelo futuro desta instituição fundamental e imprescindível e, consequentemente, pela sorte da sociedade inteira». E, juntando oração mariana e prática eclesial, prossegue: «O relançamento do Rosário nas famílias cristãs, no âmbito de uma pastoral mais ampla da família, propõe-se como ajuda eficaz para conter os efeitos devastadores desta crise da nossa época» (RVM, 6).

Mais uma vez, “para grandes males, grandes remédios”: asseguremos a família no próprio núcleo em que esta divinamente se revela, na Sagrada Família, da Anunciação à Páscoa. Com Jesus por Maria, em oração e prática.

O nosso querido Papa Francisco abriu-nos na exortação apostólica Evangelii Gaudium (24 de novembro de 2013) o percurso eclesial que agora percorremos (cf. EG, 1). E é ele mesmo a dizer-nos que não o faremos sozinhos, mas precisamente envoltos pela maternidade de Maria, como o próprio Jesus o quis e dispôs. Com palavras luminosas faz-nos seguir o percurso de Cristo em comunhão com a sua Mãe: «Maria é aquela que sabe transformar um estábulo de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. […] É a amiga sempre solícita para que não falte o “vinho” na nossa vida. É aquela que tem o coração trespassado pela espada, que compreende todas as penas. […] Como uma verdadeira mãe, caminha connosco, luta connosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus. Através dos diferentes títulos marianos, conclui o Papa, geralmente ligados aos santuários, partilha as vicissitudes de cada povo que recebeu o Evangelho e entra a formar parte da sua identidade histórica» (EG, 286). E como nós portugueses poderemos compreender e sentir isto mesmo.

Mistérios de Cristo, que Maria ensina, a favor de todos e das variadas situações da vida e dos povos - como aqui rezamos por sãos e enfermos, sós ou sem trabalho, vítimas e refugiados, neste Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima! Vai para um século, era apenas Ela, a ensinar três crianças a rezar assim. Hoje somos tantos e a aprender também. Mas é como crianças que entraremos num Reino que vai da terra ao céu. Com os Pastorinhos, comecemos já, prossigamos sempre.

Santuário de Fátima, 13 de maio de 2016

D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa