Entrevistas

«Adeus a Fátima» de Mons. Luciano Guerra

Luís Filipe Santos
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Na hora da despedida do Santuário de Fátima, Monsenhor Luciano Guerra revela à Agência ECCLESIA alguns traços da sua personalidade e sonhos a realizar Agência ECCLESIA (AE) – Na próxima Peregrinação Internacional Aniversária já não será o reitor deste santuário mariano. Depois de 35 anos a «comandar» estas peregrinações recorda-se de algum 13 de Outubro sem ser reitor do Santuário de Fátima? Luciano Guerra (LG) – Não creio e não me recordo de nenhum. E no próximo 13 de Outubro não estarei cá. AE – O que irá fazer nos próximos tempos? LC – Até à Páscoa estarei ausente do Santuário de Fátima. Nos primeiros meses irei para Londres – gosto muito de visitar museus e ir a concertos -, depois estarei o mês de Janeiro na Terra Santa, tenho também um convite para Gibraltar – onde estarei umas semanas a convite do bispo de Gibraltar -, posteriormente irei ao Quénia. AE – Como é muito meticuloso, estará fora, mas com o pensamento na celebração do 13 de Outubro? LG – Nunca tive saudades dos tempos onde estive. Embora fossem sempre bons. Se estivermos bem no presente, não teremos saudades do passado. O Pe. Virgílio Antunes tem dons suficientes para que as celebrações corram bem. AE – Passados 35 anos como reitor não merecia um ano sabático, um ano de descanso? LG – Isto é descanso. O grande peso desta responsabilidade passa pelo decidir. Dar a resposta do sim ou do não. É uma responsabilidade muito grande. Com o tempo fui-me dando conta desta realidade, mas Deus deu-me um dom grande: consultar. Os capelães foram o grande suporte da administração das finanças do Santuário. Assim, o trabalho torna-se mais fácil. As grandes questões foram decididas em colégio. AE – Então é um trabalhador de equipa. LG – Gosto muito. AE – Foi o tempo que lhe indicou as potencialidades do trabalho em equipa ou sempre foi assim? LG – Penso que sim porque gosto muito de conversar com as pessoas numa base da razão. É muito agradável conversar com pessoas desprovidas de preconceitos. Gosto pelo diálogo AE – Tinha facilidade em dialogar com os peregrinos? LG – Se conseguirmos conversar com as pessoas, na base do que há mais básico em nós, percebemos os contextos. É evidente que há um nível de abstracção que as pessoas não estão habituadas, mas quando escrevo e falo procuro relacionar a abstracção com o concreto. Gosto imenso de dialogar com os peregrinos. AE – No entanto há pessoas que o consideram distante? LG – Foi sempre assim e sei porque as pessoas têm essa ideia. Fui sempre uma pessoa programada e estou sempre a fazer qualquer coisa. Portanto, se não previ conversar com uma pessoa que encontro pelo caminho começo a ficar impaciente. Quando atravesso o recinto do Santuário é porque tenho alguma coisa para fazer no outro lado. Não sou uma pessoa que esteja vaga. Por isso, muito raramente, na minha vida me senti só. Tenho sempre algo para fazer e alguma dificuldade de mudar de atenção. AE – As pessoas que o conhecem realçam que Mons. Luciano Guerra pensa até dez antes de tomar uma decisão. LG – Gosto de fazer isso, mas o impulso imediato é para agir e responder. Estou convencido que as pessoas devem evitar, a todo o custo, a precipitação. Precipitar-se é a passagem à fase da acção ou da palavra antes de ter o pensamento bem apurado. AE – Uma tomada de consciência com a idade? LG – Foi com a idade. Aliás, sou um «bocadinho» impulsivo. AE – Inicialmente, o seu temperamento era primário, mas com o tempo passou a secundário? LG – Tornou-se cada vez mais secundário. Recordar a infância AE – Como era o Mons. Luciano Guerra nos tempos de criança? LG – O meu pai contava que eu, em criança, entretinha-me facilmente sozinho. AE – Uma criança solitária... LG – Não. Gostava era de brincar sozinho. AE – Recorda-se desta frase da sua mãe: «Ó Joaquim (Pai) será que o Luciano quererá ir para o Seminário»? LG – Sim. Estávamos numa primeira Sexta-feira e pedi aos meus pais para me confessar. Os meus pais eram padeiros e estavam a colocar o pão no forno. AE – Foi a primeira luz vocacional? LG – Antes, estava numa festa popular (Coração de Jesus ou Santa Marta) e a Filarmónica tocava no coreto. Quando o meu pároco começou a cantar a Oração Eucarística senti-me elevado naquele canto e desejei um dia poder cantar como ele. AE – Ganhou esses dotes musicais? LG – Gosto muito de cantar e fiz o possível para favorecer o canto no santuário de Fátima e, mesmo fora dele. AE – Fez o seu percurso vocacional no seminário de Leiria até à ordenação? LG – Fiz até ao oitavo ano. Como tive uma doença, perdi o ano e – no Verão de 1950 – o bispo da diocese mandou-me para o Santuário de Fátima para tomar ar fresco. Estive aqui alguns meses e foi a primeira experiência que fiz do Santuário. Neste local comecei a aprender o inglês com um padre australiano. No ano seguinte voltei ao seminário e fiz primeiro ano de Teologia. No segundo ano, o bispo mandou-me estudar para Roma. Nunca tive uma negativa num exame AE – Ao enviá-lo para a Universidade Gregoriana (Roma) é porque sobressaía nos estudos? LG – Tinha boas notas. Graças a Deus nunca tive uma negativa num exame. No entanto, não sei se foi positivo nunca ter tido uma negativa. AE – Gostaria de sentir esse «sabor amargo»... LG – Seria uma forma de comungar com os outros. Uma vez, na Universidade Gregoriana, tive receio disso... Na véspera desse exame tive receio de reprovar. Este acontecimento deu-me um esgotamento. Estive uns meses sem dormir... Para esse exame tive de decorar tudo – custava-me imenso decorar -, mas consegui tirar uma nota razoável. 13 de Outubro de 1917 AE – A sua avó e o pároco que o baptizou assistiram às aparições de Outubro de 1917? LG – O meu pároco contava, muita vez, o que viu neste santuário. Ele era natural do Reguengo do Fetal ( situa-se a 10Km de Fátima) e foi com alguns peregrinos que ficaram na casa dos seus pais naquela noite. Aparelhou a égua e meteu-se ao caminho com os peregrinos. Choveu toda a noite e toda a manhã. Num determinado momento, um indivíduo tira o relógio e diz para os outros que era meio-dia: hora da aparição. Nessa altura começou ver o Sol a desandar, a desandar, a desandar... Tira-se do céu e vem contra mim... Só tive tempo de me ajoelhar na lama e dizer: «Meu Deus, perdoai-me que eu morro aqui». E foi assim que se passou o Milagre do Sol para o meu pároco. AE – Esse relato vem combater as dúvidas da época? LG – Havia os críticos das aparições, mas os jornais da época nem tiveram a coragem de dizer que aquilo era forjado. AE – Sempre viveu num ambiente mariano? LG – Sim... Na minha terra rezava-se o Terço todos os dias. Em casa não se rezava o terço diariamente porque tínhamos muitos afazeres: padaria, loja de comércio e propriedades. Ao jantar rezávamos um bocadinho – dois a três minutos - e aos domingos íamos à missa. AE – São estes hábitos que faltam na sociedade contemporânea. LG – A sociedade está desintegrada porque o seu elemento fundamental – a família – está em desintegração. Com as movimentações das pessoas assiste-se à aquisição de outros amores e ligações que acabam por prejudicar a família. Esta sociedade não se vai aguentar porque não terá filhos suficientes. Não há outra leitura possível para o futuro. As crianças quando chegam a adultos não querem reproduzir no seu casamento o sofrimento que assistiram nas suas casas. Devido a isto não se casam... Este governo está a ir na «onda» da desintegração e facilita o divórcio. AE – Para além dos trabalhos neste santuário gosta de reflectir sobre pontos da sociologia? LG – O maior prazer que tenho na vida é pensar. Gosto imenso de estar sozinho, tanto no quarto como em viagens, para pensar. AE – Viajar sozinho? LG – É um prazer. Recentemente, fiz a viagem número 117 ao estrangeiro. Estive em Lourdes e em Saragoça. Vício turístico AE – Nestas viagens, para além de aproveitar para pensar, também gosta de se deleitar com a beleza... LG - Tenho um grande vício turístico. Quando tenho necessidade de conversar meto conversa com as pessoas. Aproveito para exercitar os idiomas. AE – É poliglota? LG – Não falo nenhuma língua correctamente. Quando fui estudar para Itália sabia o francês, latim e grego (este deixei). Quando estive seis anos em Roma dediquei três anos com aulas em inglês e outros três ao alemão. Faltava-me o espanhol, mas estive um ano em Salamanca. AE – Estas saídas de Portugal abriram-lhe horizontes novos? LG – Muito. Nós somos pequenos e estamos encostados de flanco à Espanha. Há um histórico muito duro entre nós e os castelhanos. AE – Também esteve quatro anos em Paris como capelão dos emigrantes e a estudar Filosofia? LG – Fiz o curriculum «ad laurea» para Filosofia, mas não cheguei a fazer a «laurea» porque sempre pensei que a escrever algo deveria ser de mim mesmo. É um preconceito. Os meus colegas que faziam as teses de doutoramento abordavam um autor, mas não me agradava isso. Ainda por cima, as teses deles ficam para ali e muitas delas nas prateleiras. AE – Que tema escolheria para a tese de doutoramento? LG – A «Liberdade de Pensamento». Carta aberta a Salazar AE – Esta inquietação levou-o a escrever uma «carta aberta» a António de Oliveira Salazar. Recorda-se dos motivos para escrever essa missiva? LG – Durante os meus tempos de Paris via as condições dos nossos emigrantes. Muitos deles não sabiam se tinham trabalho ou onde dormiriam. Perante estes factos, escrevi a Salazar a dizer-lhe da necessidade que havia de olhar para estes compatriotas. Enviei a carta para o Jornal da Marinha Grande, mas foi censurada. Não chegou a ser publicada. AE – Para além das condições deploráveis dos emigrantes não tinha referências à política interna? LG – Era sobretudo sobre a falta de assistência e a miséria dos emigrantes. Sou muito sensível aos problemas sociais. AE – Nunca teve problemas com a PIDE? LG – Sei que um presidente da Câmara da Marinha Grande ameaçou que me mandava vigiar em Paris. É capaz de ter mandado... AE – Antes de assumir a reitoria do santuário de Fátima também esteve a leccionar Filosofia num colégio da Marinha Grande. LG – Ainda tenho alunos amigos desse tempo, apesar de ter sido um professor exigente. Aparentemente, os alunos não gostam dos professores exigentes, mas são estes professores que os fazem progredir e fazem crescer. AE – Nessa localidade de vidreiros onde o sindicalismo estava implantado, Monsenhor Luciano Guerra saiu dos parâmetros daqueles que acusavam a Igreja de estar colada à ditadura? LG – Não saí... Até admirava Salazar porque o meu pai também o admirava e com razão. O meu velho pároco também o admirava devido aos melhoramentos das estradas e outras coisas. AE – E a questão da liberdade... LG – A liberdade é para os intelectuais e para aqueles que tinham aspirações de governar. O povo só sentiu a miséria antes de Salazar e o progresso depois de Salazar. No entanto demorou tempo demais. Ele levantou Portugal de uma miséria muito grande e as pessoas tinham medo de voltar a essa miséria. O 25 de Abril veio, mas por muito heróis que tenham sido os nossos militares eles revoltaram-se por razões salariais e não por razões políticas. Simplesmente, o fruto estava maduro. AE – No entanto, a hierarquia da Igreja teve membros que não pactuavam com esta forma de governar? LG – Esses vieram mais cedo porque, talvez, não tivessem comungado com o povo. Não compreenderam a situação. Não é uma questão de liberdade porque o Salazar veio libertar muita gente. AE – E a guerra colonial? LG – Salazar concebeu a possibilidade de uma unidade entre nós e as províncias ultramarinas. Errou... O seu isolamento não o deixou perceber a realidade exterior. Faltou-lhe viajar. No entanto, também achamos que Mouzinho de Albuquerque foi um herói e ele defendia o colonialismo. Nomeado Reitor AE – Um ano antes do 25 de Abril de 1974 é nomeado reitor do santuário de Fátima. É possível falar de uma «Fátima» antes de ser reitor e outra «Fátima» após a sua saída? LG – É muito difícil fazer esse exercício de memória porque não costumo demorar nada no passado. Só gosto da história para captar dela o que acontece no presente. Quando cheguei estávamos no Pós-Concílio... AE – Este acontecimento eclesial deixou-lhe sobressaltos? LG – Tive algum abalo com o Concílio. Como tenho uma grande tendência para reflectir também tenho dificuldade em concordar com os meus mestres. Não foi fácil concordar com tudo aquilo que me ensinavam. Sobretudo, com o dogma porque não temos tempo. É necessário muito tempo para assimilar uma doutrina tão complexa, rica e elaborada como é a doutrina da igreja. Em 2000 anos, a Igreja conseguiu uma estrutura óssea dogmática tremenda. Tive necessidade de me retirar para rever novamente a minha vida e os compromissos. Cheguei a França e encontrei um ambiente muito diferente. Pessoas livres que continuavam católicas. AE – Apesar da multiculturalidade? LG – Vamos a Paris ou a Londres e encontramos no mesmo espaço geográfico uma infinidade de religiões. Se as religiões não se entenderem como se entenderão os sem religião? A solução passa pelo diálogo inter-religioso. AE – Voltando ao início do seu trabalho no Santuário de Fátima... LG – Ao nível de funcionários temos mais do dobro. Quando cheguei tínhamos dois milhões de peregrinos e, hoje, calculamos entre quatro a cinco milhões. Por outro lado, purificámos o ambiente a apurámos mais a palavra. Passados alguns anos (menos de dez) criámos o Centro Pastoral Paulo VI. As duas casas de retiros (Dores e Carmo) foram renovadas. As peregrinações estrangeiras começaram a ser convenientemente acolhidas. Começou-se a publicar a Documentação Crítica de Fátima. Foi feita a cobertura da Capelinha das Aparições. Temos a Igreja da Santíssima Trindade. Além disso, os Valinhos e Aljustrel foram acarinhados: as casas dos videntes foram restauradas com fidelidade. Comprámos terrenos junto à Casa da irmã Lúcia com a intenção de fazer lá um Centro Pastoral sobre a Família. Espero que o meu sucessor se dedique a isso se achar conveniente. AE – Um novo centro pastoral? LG – Sim. Para acolher grupos e, em simultâneo, reflictam sobre os problemas da família. AE – E o monte dos Valinhos? LG – Começámos a comprá-lo pouco a pouco e, actualmente, temos cerca de 40 hectares. Aeroporto e Cidade da Paz AE – Afinal, em 35 anos, muito trabalho foi realizado. Desejou que Fátima tivesse o cognome da «cidade da Paz» ou «cidade do silêncio». Já o é? LG - Ainda não o é completamente. O urbanismo de Fátima está muito atribulado porque houve muita falta de disciplina. As pessoas não se movem tranquilamente. Em relação aos Valinhos, as pessoas elogiam o trabalho feito. AE – Com um aeroporto próximo o silêncio desaparecia? LG – Seria um elemento muito negativo se estivesse a menos de dez quilómetros do Santuário. AE – Todavia aumentava o número de peregrinos. LG - Não creio. Se o aeroporto ficasse a 4 quilómetros as pessoas necessitam de autocarro. Tal como precisam se estivessem a 10 quilómetros. Têm de deslocar-se até ao santuário e não podem vir a pé. Papas em Fátima AE – O santuário recebeu dois Papas: Paulo VI e João II. Recorda-se destes momentos históricos? LG – Tenho uma certa presunção de pensar que também contribuímos para que o Papa João Paulo II viesse logo no primeiro aniversário do atentado. Um cardeal que estava no Vaticano veio ao Santuário – suponho que em Novembro de 1981 – e, através dele, enviámos as memórias da Irmã Lúcia a João Paulo II com um abaixo assinado de todos os trabalhadores do santuário para que viesse cá celebrar o primeiro aniversário. O Papa adensou o mistério de Fátima. AE – Se Fátima é um «altar do mundo» deve-se também a João Paulo II? LG – Deve. Sem esquecer o atentado... Tenho para mim que foi um meio que Deus usou para colocar em relevo o segredo que prometia a conversão da Rússia. A partir deste momento, João Paulo II abriu os olhos ao segredo de Fátima e abriu o segredo de Fátima. Um homem como ele pôde ter inspirações interiores na sua oração, reflexão e nas pessoas que o acompanham. Ele entendeu que Deus o queria como homem da passagem do milénio e, também, da libertação dos países comunistas. AE – Neste santuário também houve uma tentativa de atentado. Fátima sempre esteve atenta à segurança? LG – Isso só aconteceu porque não tínhamos baias suficientes. Começamos a preocuparmo-nos com esse assunto. Colocamos mais baias de segurança. AE – Passados nove anos, João Paulo II volta novamente? LG – Esperava que fosse dez anos após a primeira peregrinação. Ele resolveu vir dez anos após o atentado em Roma. AE – A última visita, em 2000, foi para beatificar Jacinta e Francisco. Uma visita onde João Paulo II furou os protocolos e entregou o anel a Nossa Senhora. LG – O anel tinha escrito o lema dele: «Totus Tuus». Foi oferecido pelo cardeal Wyszynski, após a eleição dele. Como enviámos o guião da celebração para o Vaticano, onde o cântico inicial era o «Totus Tuus», eu imagino que ele pensasse que era uma boa ocasião para oferecer o anel. AE – Um Papa das surpresas? LG – Um grande homem que me marcou muito pela seriedade, integridade e profundidade. AE – E a visita de Paulo VI? LG – Foi uma visita com muito impacto e dramática. Ele veio em 1967 - dois anos após o encerramento do II Concílio Vaticano – e Paulo VI quis satisfazer (em 1964) o pedido de várias centenas de bispos que lhe fizeram um abaixo assinado para que ele atendesse o pedido de Fátima e consagrasse o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Em 1964, Paulo VI proclamou Nossa Senhora como Mãe da Igreja. AE – Numa época em que as aparições eram desvalorizadas? LG – Sim. No entanto Paulo VI tomou a decisão de vir a Fátima por um impulso muito pessoal, mas amargurado. Ele teve quem se manifestasse contra a sua vinda. Veio somente a Fátima – não quis ir a Lisboa – e se Salazar quis falar com ele teve de vir a Fátima. AE – A visita a Bombaim não estava esquecida? LG – E também por causa das colónias e dos movimentos de libertação. O Holden Roberto chegou a ser recebido pelo Papa. Salazar não pôde com este acontecimento. Igreja da Santíssima Trindade AE – Marcou-o mais a beatificação de Jacinta e Francisco ou a inauguração da Igreja da Santíssima Trindade? LG – Muito mais a beatificação porque foi lançar um selo quase definitivo sobre a integridade psíquica, moral, ascética e espiritual daquelas crianças. Quanto mais leio os escritos da irmã Lúcia mais me encanta o relato que ela faz das duas crianças. AE – Esperou que fosse Bento XVI a inaugurar a Igreja da Santíssima Trindade? LG – Não. Até acho que não devia vir porque há muitas Igrejas que nunca receberam o Papa. AE – Olhando para a Igreja da Santíssima Trindade é o todo que o deslumbra ou uma peça em especial? LG – Nada me deslumbra. AE – Como homem da arte que gosta de apreciar o belo não o deslumbra? LG – São obras interessantes, mas nenhuma daquelas obras é de deslumbrar. O painel com aquelas cores é muito belo. Fica muito bem ali porque concentra a atenção das pessoas. Tenho pena de não ter tido coragem de pedir para que as cores fossem mais marcadas. O Cristo é um belo Cristo, mas não tem nada de Salvador Dalí ou Picasso. É um Cristo humano que olha para as pessoas com a consciência que está inocente. É um Cristo que sabe que tem por trás a Jerusalém celeste. O que me alegra mais é a simplicidade daquele edifício. AE – E a fonte? LG – De noite tem um ar de mistério. Projectos de futuro AE – É um apaixonado por S. João quando sairá algo da sua pena sobre este apóstolo? LG – S. João tem uma ternura mental que me intriga. Gostava de penetrar nos escritos de S. João. É um poeta da palavra. Poderia escrever alguns artigos sobre esta temática, mas livro acho que não. AE – E trabalhos no âmbito da Filosofia? LG – Gosto de reflectir sobre as últimas causas. Tenho pena do abandono a que se votam os alicerces das casas porque eles são o suporte de tudo. AE – E as memórias? LG – Já me pediram as minhas memórias. AE – Como homem da arte não tem nenhum projecto nesta área? LG – Está programada uma Via-Sacra entre o Centro Pastoral e os Valinhos. Seria uma oportunidade para fazer um museu ao ar livre. AE – Com mais tempo livre dará à luz os projectos... LG – Gostava de publicar algo sobre a Igreja da Santíssima Trindade e estou a escrever um livro – tenho cerca de 350 páginas escritas - sobre os «Papas e Fátima».


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