Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

Escrevo este texto no dia em que celebro o meu 42.º aniversário. Num dia de memórias, surgiu repentinamente a recordação de uma das instituições mais veneradas no Portugal do século XX: as 3 horas de digestão. Como crianças, todos sabíamos que, depois do almoço, não valia a pena tentar namorar com a água, na praia, no rio ou na ribeira (se fosse na Madeira), quando algum adulto estivesse por perto, até terem passado as sagradas 3 horas.

O tempo era outro. O Tempo era outro. A mudança não é nenhum drama, mas o que pode ser dramático é ignorar as lições do passado para sacrificar tudo em nome do absolutismo do que é novo. Hoje já não temos 3 horas de digestão para nada: para ler, para ouvir música, para conversar, para telefonar a alguém, nem sequer para conduzir – aparentemente, a emoção da estrada não é suficiente para alguns, que precisam de estar ao volante e ao telemóvel ao mesmo tempo. As pausas que tanto nos custavam no passado revelam-se hoje absolutamente fundamentais para manter a sanidade mental, física e espiritual.

Surge esta reflexão no contexto da próxima celebração do Dia Mundial das Comunicações Sociais, este ano a 13 de maio. A data pode passar despercebida este ano, é certo, mas o tema vai permanecer para reflexão futura: o Papa Francisco decidiu colocar o dedo na ferida das ‘fake news’.

Considero que um dos grandes serviços à construção da verdade é revoltarmo-nos contra esta ditadura da falta de tempo, procurando ir para lá da primeira impressão, lutando contra uma bolha que prescinde da multiplicidade das fontes e de pontos de vista.

Do ponto de vista da minha profissão, a que escolhi quando o caminho mais óbvio a seguir seria outro para alguém que se formou em Teologia, é fundamental que o jornalismo recupere o seu papel de mediação em nome do restabelecimento da memória e de um maior conhecimento. O mundo tem vindo a perder mediadores e, apesar das novas tecnologias, ainda não tem substituto para este papel. Compete-nos, como jornalistas, sermos capazes de trazer memória, interpretação e capacidade de pausa à sociedade.

Confundiu-se a capacidade tecnológica de aceder (ou ser bombardeado) com dados (alguns falsificados) com informação. Esta nunca será uma questão tecnológica, mas humana, de honestidade, confiança e credibilidade. Só assim se poderá encontrar um caminho entre o labirinto das ‘fake news’ e as notícias “plantadas” com objetivos que não passam por servir o bem comum.

Faz-nos falta ter alguém que nos imponha, de novo, as 3 horas de digestão. E que aguente as birras sem ceder. Coragem.

 

P. S. Falar do 13 de maio é falar de Fátima. Na Cova da Iria encontramos, em rostos concretos, temas centrais para a humanidade, como a dor, a esperança e a morte. É um lugar que ensina a levar a sério o sofrimento e onde se pode chorar sem ser julgado – e isso nem sempre é fácil de encontrar.

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