Na hora da despedida do Santuário de Fátima, monsenhor Luciano Guerra revelou à Agência ECCLESIA alguns traços da sua personalidade e o trabalho realizado durante 35 anos (1973 a 2008) naquele altar mariano. Recordamos alguns excertos da entrevista realizada em outubro de 2008

AE – Passados 35 anos como reitor não merecia um ano sabático, um ano de descanso?

LG – Isto é descanso. O grande peso desta responsabilidade passa pelo decidir. Dar a resposta do sim ou do não. É uma responsabilidade muito grande. Com o tempo fui-me dando conta desta realidade, mas Deus deu-me um dom grande: consultar. Os capelães foram o grande suporte da administração das finanças do Santuário. Assim, o trabalho torna-se mais fácil. As grandes questões foram decididas em colégio.

 

AE – As pessoas que o conhecem realçam que monsenhor Luciano Guerra pensa até dez antes de tomar uma decisão.

LG – Gosto de fazer isso, mas o impulso imediato é para agir e responder. Estou convencido que as pessoas devem evitar, a todo o custo, a precipitação. Precipitar-se é a passagem à fase da ação ou da palavra antes de ter o pensamento bem apurado.

 

AE – Sempre viveu num ambiente mariano?

LG – Sim… Na minha terra rezava-se o Terço todos os dias. Em casa não se rezava o terço diariamente porque tínhamos muitos afazeres: padaria, loja de comércio e propriedades. Ao jantar rezávamos um bocadinho – dois a três minutos – e aos domingos íamos à missa.

 

AE – Um ano antes do 25 de Abril de 1974 é nomeado reitor do santuário de Fátima. É possível falar de uma «Fátima» antes de ser reitor e outra «Fátima» após a sua saída?

LG – É muito difícil fazer esse exercício de memória porque não costumo demorar nada no passado. Só gosto da história para captar dela o que acontece no presente. Quando cheguei estávamos no Pós-Concílio…

 

AE – Voltando ao início do seu trabalho no Santuário de Fátima…

LG – Ao nível de funcionários temos mais do dobro. Quando cheguei tínhamos dois milhões de peregrinos e, hoje, calculamos entre quatro a cinco milhões. Por outro lado, purificámos o ambiente a apurámos mais a palavra. Passados alguns anos (menos de dez) criámos o Centro Pastoral Paulo VI. As duas casas de retiros (Dores e Carmo) foram renovadas. As peregrinações estrangeiras começaram a ser convenientemente acolhidas. Começou-se a publicar a Documentação Crítica de Fátima. Foi feita a cobertura da Capelinha das Aparições. Temos a Igreja da Santíssima Trindade. Além disso, os Valinhos e Aljustrel foram acarinhados: as casas dos videntes foram restauradas com fidelidade. Comprámos terrenos junto à Casa da irmã Lúcia com a intenção de fazer lá um Centro Pastoral sobre a Família. Espero que o meu sucessor se dedique a isso se achar conveniente.

 

AE – Um novo centro pastoral?

LG – Sim. Para acolher grupos e, em simultâneo, reflitam sobre os problemas da família.

 

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