Psiquiatra e psicoterapeuta Vitor Cotovio revela o que mostra e o que esconde o uso de uma máscara

Lisboa, 12 fev 2018 (Ecclesia) – O psiquiatra e o psicoterapeuta Vítor Cotovio disse à Agência ECCLESIA que a pessoa precisa de dias “sem julgamentos” para fazer “coisas ao contrário” do que é normalmente aceite e para dizer o que raramente se diz.

O diretor clínico da Casa de Saúde do Telhal referiu que há coisas que normalmente se dizem “em cochicho” por causa de diferentes “censores”, na família ou no trabalho, que a pessoa tem necessidade “de dizer à boca cheia”.

“Sabemos, pelos tais sensores, que se dissermos de uma forma aberta alguma coisa poderá não correr bem”, advertiu, mesmo sendo verdade o que afirma.

“É a verdade do que a pessoa sente mas sabe que, para viver em sociedade, não pode dizer tudo o que lhe vem à cabeça porque seria destrutivo para os outros e para si”, acrescentou.

Vítor Cotovio considera que o Carnaval permite que tudo seja feito ou dito sem “espaços” para que fique zangado o que goza e o que é gozado.

“O que é gozado tem menos espaços para ficar zangado e para se penalizar porque vai fazer má figura por ser Carnaval. Tem de relativizar, tem de ouvir e calar”, afirmou.

“Esta cumplicidade que existe entre quem brinca e quem é brincado tendo o enquadramento do Carnaval faz com que as pessoas não sintam legitimidade para levar a coisa a sério”, sublinhou o psiquiatra.

Vítor Cotovio considera que o Carnaval põe em relevo a “parte mais lúdica, mais impulsiva e mais criativa” de cada pessoa.

“Sentimos que não estamos legitimados para fazer uma coisa tão ao contrário do que é aceite, do que está previsto se não tivermos alguma coisa de fora que diga: neste dia, tu podes ser o que tu quiseres, fazer o que tu quiseres, porque não vai haver penalização nem julgamentos”, referiu

“Precisamos de um dia sem julgamentos”, considera o psicoterapeuta.

Vítor Cotovio indica que cada pessoa tem várias máscaras, no seu quotidiano, e o Carnaval legitima que cada pessoa apareça com máscaras ou por trás de máscaras, mesmo para fazer as “coisas mais disparatadas”.

“A sociedade teve necessidade de criar tempos para descompressão, para que as pessoas, por trás da máscara, pudessem representar papéis que, durante o quotidiano, seriam censuradas do exterior ou se autocensurariam por isso”, afirmou.

“Carnaval é criar um período de fantasia, uma descompressão”, disse Vitor Cotovio, lembrando que é vivido numa “terça-feira gorda”, antes do Tempo da Quaresma.

Para o psicoterapeuta o Carnaval realiza a necessidade que o ser humano tem de ter esta autorização para se ser de uma forma diferente, libertando o que é mais instintivo e criativo, fugindo à censura e podendo ser perdoado”.

“Para termos uma vida harmoniosa e equilibrada, temos uma coisa que se chama autorregulação. No carnaval, parece que o censor da autorregulação fica mais frouxo e nós autorregularmo-nos menos”, referiu.

A entrevista de Vítor Cotovio é emitida no programa Ecclesia desta terça-feira, dia de Carnaval, na RTP2, pelas 15h00

PR

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