Entrevista ao cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura

Foto: Samuel Mendonça/Folha do Domingo

O cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé), aborda em entrevista à Agência ECCLESIA, os desafios que se colocam à Igreja Católica na sua relação com a sociedade, a arte ou a ciência. Uma proposta de diálogo que não ignora as questões e as dificuldades que se colocam, perante desenvolvimentos que ameaçam a própria figura humana.

Entrevista conduzida por Octávio Carmo

 

Agência ECCLESIA (AE) – Tem proposto uma revalorização do diálogo como atitude da Igreja Católica perante a sociedade, a cultura. Historicamente, houve a tendência de pensar que bastaria “falar a” e não tanto “falar com”? Quão importante é escutar o outro?

Cardeal Gianfranco Ravasi (GR) – A perspetiva fundamental com que proponho a minha própria atividade, que é a perspetiva geral em que se movimentam o Papa Francisco e a Igreja, neste período, é precisamente o do diálogo, na sua forma mais genuína. É o cruzamento entre dois discursos, que, no entanto, devem ser profundos. Tem de haver dois interlocutores.

Temos de reconhecer imediatamente que estamos num mundo que tem outro ‘logos’, que tem outro discurso, outra visão. Há certamente elementos negativos e temos consciência disso, nós e eles também, muitas vezes. Por outro lado, como diziam os Padres da Igreja, há as “sementes do Verbo’, isto é, de uma revelação que é secreta, misteriosa, que passa através das consciências e propõe valores.

A Igreja deve estar consciente da sua riqueza, não só teológica mas também cultural – pensemos em tudo o que produziu ao longo de 20 séculos de história da arte, da filosofia, da literatura, a influência que teve no Ocidente, onde o grande códice foi sempre a Bíblia -, consciência de si mesma, da sua identidade. E tem também de reconhecer, no seio de todas estas revoluções que aconteceram – desde a Coperniciana, passando pela revolução iluminística-social, Marx, o liberalismo, a psicanálise, até outras revoluções que estão em curso, como a da informática –, que tem de estar presente e dialogar. Deve encontrar-se com este mundo, porque vive dentro dele.

Jesus quando dialogou com Nicodemos, durante a noite, disse que Deus enviou o seu Filho não para condenar o mundo, mas para o salvar. No fim, a abordagem, a atitude tem de ser a do encontro, da escuta, do diálogo.

 

AE – Esta atitude implica um certo desconforto, uma tensão, não é o caminho mais fácil…

GR – Esse é um elemento que é preciso sublinhar, precisamente. Dialogar não é um ‘bonismo’, dizer que todas as realidades são iguais – Bento XVI chamava-lhe relativismo, subjetivismo diríamos nós.

Pelo contrário, é procurar, o mais possível, confrontar-se, com seriedade, em volta de alguns temas, não só teoricamente mas também em concreto. Pensemos em todos os problemas que dizem respeito às migrações, estas deslocações em massa de populações de um horizonte para o outro, com interceções de culturas, de religiões, com as tensões que se criam. Também neste tema muito escaldante, a Igreja tem de entrar com a sua força, que é uma força espiritual, humana e também cultural, impedindo que haja derivas.

Derivas da parte de quem perde a sua própria identidade, ficando numa espécie de névoa, de neblina, de nuvem, em que somos todos iguais – o que é impossível, por exemplo, com uma presença do Islão, que é muito marcada.

Portanto, chegar com uma identidade própria, mas não se deixar tentar pelo fundamentalismo, que não é só o do Islão: pensemos em todos os populismos europeus, que se estão a criar, com formas verdadeiramente racistas. Como tal, ainda que citem o Evangelho, Jesus Cristo, são anticristãs.

 

AE – Nestas derivas, há questões ligadas à tecnologia, ao desenvolvimento científico. Tivemos recentemente notícia da clonagem de macacos, na China, por exemplo. É possível que a Igreja não seja vista neste debate como um discurso do passado e tenha algo a dizer sobre o futuro?

GR – Acima de tudo, é preciso esperar que também os cientistas – diria antes, os técnicos, que nem sempre se podem considerar cientistas, porque estes têm uma visão mais completa, mais universal, mais humana – tenham em consideração o aspeto global da pessoa, não apenas o cenário mundial, mas o seu fundamento. Não basta responder à pergunta “como é que isto acontece?”, é preciso questionar: “porque é que eu faço isto?”.

Por outro lado, a Igreja não pode, com base em receios, pronunciar só julgamentos negativos. Tem, necessariamente de entrar em confronto e colocar os problemas que nascem, com respeito pela investigação científica.

Veja-se, por exemplo, a genética, o ADN, as intervenções sobre o ADN. Há elementos altamente positivos, para a cura de doenças, mas ao mesmo tempo colocam-se questões, porque se podem querer criar modelos antropológicos diferentes, uma figura diferente de homem e mulher.

Outro exemplo: as neurociências. Intervém-se no cérebro, para regular as funções orgânicas, mas é preciso saber como se considera, depois, o “eu” da pessoa, quando se intervém no sistema neurológico. Qual é a responsabilidade de alguém, quando se modificam componentes do cérebro? O que significa a liberdade, a vontade, em última análise a alma de uma pessoa?

Terceiro exemplo: a inteligência artificial. Estão a ser criadas, cada vez mais, máquinas pensantes, máquinas dotadas de uma autonomia moral…

 

AE – Já se fala em consciência artificial…

GR – Consciência, sim. Chega-se ao ponto, que considero absurdo, de se introduzir na Europa o conceito de personalidade eletrónica. Estamos perante algo, em si, muito positivo, para o desenvolvimento social, técnico, da produção. Mas implica igualmente o surgimento de interrogações.

Quando, no último verão, em Menlo Park, na sede do Facebook, dois computadores programados para falar entre si, em inglês, começaram a falar outra língua, que os programadores não percebiam… Não é nada dramático, mas quando começarem a realizar ações que não estão no protocolo, à partida, porque estão dotados de autonomia, aí chegarão os problemas.

Temos de estar presentes, sem demonizar, porque há dados positivos, mas fazendo notar a nossa defesa da figura humana.

 

AE – O discurso teológico ainda é relevante, face a estas questões?

GR – Eu diria que o discurso teológico deve integrar em si os resultados da ciência. Como se fazia a filosofia, a teologia medieval, porque havia uma visão da cultura muito menos sectorial, menos dividida do que hoje.

Recorde-se Stephen Gould, cientista norte-americano, ateu, que fórmula o princípio designado como ‘NOMA’, ‘Non-overlapping magisteria’ (magistérios que não se sobrepõem). Ele dizia que a ciência tem o seu magistério, o seu ensinamento; a teologia, a filosofia, a estética têm um outro magistério que é paralelo, não se podem sobrepor.

Neste caso, para explicar a pessoa humana não basta o nível científico, são precisos mais magistérios. Gould dizia que não se sobrepunham, eram independentes, não-conflituais, mas eu diria que isto não é completamente verdade. O sujeito é sempre o mesmo e o objeto é o mesmo, pelo que acontecem fenómenos em que [os magistérios] se enredam, confrontos entre a teologia e a ciência. E essa é a missão de uma teologia consciente dos seus valores e também do contributo da ciência.

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