Entrevista a D. Manuel Linda

O Papa Francisco propôs a toda a Igreja a celebração de um Ano Santo Extraordinário sobre o tema da misericórdia. Iniciou no dia 8 de dezembro de 2015, dia em que se assinalavam 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, e termina este domingo, 20 de novembro, solenidade de Cristo Rei. O objetivo foi aproximar os seguidores do Mestre, do Jesus que “não estabeleceu um código, mas a misericórdia”. A afirmação é de D. Manuel Linda, bispo da Diocese das Forças Armadas e das Forças de Segurança, que preside também à Comissão Episcopal Missões e Nova Evangelização. No Vaticano e nas várias conferências episcopais, foi pedido ao setor da Nova Evangelização a coordenação e dinamização do Ano Jubilar

 

Agência Ecclesia – O Jubileu da Misericórdia foi sobretudo um jubileu do Papa Francisco?

D. Manuel Linda – Foi um ano inserido na dinâmica da Igreja, que pensou fundamentalmente na família. Não podemos esquecer que vem no seguimento do Sínodo sobre a família e, nesse ambiente, o Papa, em união com a Igreja, estabeleceu ao Ano da Misericórdia como tentativa de ver qual o Ser de Deus e a resposta do homem. Muitas vezes privilegiávamos o Direito Canónico, o formalismo inerente às leis em detrimento do ser íntimo que é o típico da Igreja e de Deus.

 

AE – O Papa fez muitos gestos concretos, que aconteceram também em toda a Igreja?

ML – Aconteceram! Não tiveram é a repercussão dos gestos do Papa.

Fundamentalmente aconteceu a formação de uma mentalidade. Claro que não é mensurável e não podemos dizer que hoje “toda a Igreja é misericordiosa como o Pai é misericordioso”. Mas a fermentação está a atuar e vai trazer os seus frutos.

 

AE – O que é possível continuar a fazer para que gestos como os do Papa tenham repercussão em todo o mundo?

ML – A Porta Santa encerra, mas a mentalidade que ele criou, a misericórdia, não termina. É semente que vai florindo e que vai modelar a Igreja neste terceiro milénio. É a grande proposta lançada neste início do terceiro milénio e que vai dar uma nova tonalidade à maneira de ser Igreja e de estar no mundo: pessoas de misericórdia.

 

AE – O novo horizonte da Igreja convida a substituir a norma pela misericórdia?

ML – O Direito Canónico teve, tem e terá uma importância muito grande no ordenamento da Igreja, até como corpo organizado que precisa logicamente de ter o seu enquadramento. Por isso, o Direito Canónico não é algo que está a mais, bem pelo contrário, é fundamental para a Igreja. Mas não é a norma fria, enquanto tal, que nos carateriza. Jesus Cristo não estabeleceu um código, mas a misericórdia.

 

AE – E que desafio é esse para quem segue hoje Jesus Cristo?

ML – Ser como Ele: misericordioso, compassivo, simpático, acolhedor…

 

AE – Que relação se deve estabelecer entre o tema da família, que referiu, e o Jubileu da Misericórdia?

ML – O Papa não me disse qual a razão pela qual escolheu o tema para um jubileu extraordinário. Mas toda a gente nota que é no seguimento do Sínodo sobre a família e da exortação apostólica pós-sinodal ‘A Alegria do Amor’. Nós lidamos com uma situação muito difícil, como é a das famílias, onde há situações que não têm uma solução fácil! Não há outra abertura possível nesta fase que não seja um acolhimento, uma presença, um não deixar desanimar, que habitualmente chamamos misericórdia.

 

AE – Refere-se a famílias que não se configuram na estrutura tradicional…

ML – O grande desafio é que aqueles que podem viver a partir do ponto de vista do que a Igreja prevê para a família crente o vivam. Mas há situações em que não é humanamente possível. Mas, por isso, não são rejeitadas, não estão afastadas, não são “mandadas para o inferno”. Há que acolhê-las, estar presente, integrá-las dentro do possível nas estruturas da vida da Igreja e acalentar a esperança.

 

AE – Concretizar as propostas do Sínodo da Família, com uma atitude de misericórdia. Foi essa a estratégia do Papa?

ML – Também por aí. Mas o jubileu é mais do que isso. Toda a vida da Igreja tem de respirar um “oxigénio” de misericórdia, simpatia, acolhimento, presença solidária.

 

AE – Na Bula de Proclamação do Jubileu, o Papa afirma que toda a ação pastoral da Igreja deve estar envolvida pela “ternura com que se dirige aos crentes”. Há um novo paradigma para ser Igreja hoje?

ML – Há. Estou convencido que, da parte de todos nós, os pastores, houve uma enorme tentativa de modelar o coração por uma maior proximidade, acolhimento. Não quer dizer que posturas de um certo formalismo não possam acontecer. Acontecem! Mas encontramos a atitude de maior abertura e proximidade, particularmente diante de situações difíceis ou mesmo fraturante, graças a Deus! Creio que este ano foi absolutamente extraordinário na mudança do nosso temperamento na dinâmica pastoral, no acolhimento.

 

AE – A referência principal é a história de vida de cada pessoa?

ML – Não a história de vida, mas a pessoa enquanto tal, que não se concebe de forma abstrata, à maneira grega. Trata-se de uma pessoa concreta, portadora de ânsias, carências, sonhos e frustrações. E se a desprezamos, desprezamos a única razão de ser da Igreja, que é a pessoa.

 

AE – Disse também o Papa, ao convocar o jubileu, que a credibilidade da Igreja passa pela “estrada do amor misericordioso e compassivo”. Falar da credibilidade de uma instituição com 2000 anos, colocá-la em causa como o Papa o fez é um desafio a que é impossível ficar indiferente…

ML – É evidente! Ou somos hoje repetidores, no tempo que corre, dos gestos e atitudes de Jesus Cristo, ou estamos a mais e criamos nós um qualquer organismo, por mais venerável que seja. A Igreja é muito filantrópica, distingue-se por fazer coisas muito bonitas, mas não é essa a sua essência. A sua essência é ser misericordiosa, compassiva, amorosa, como Jesus Cristo o foi.

 

AE – Jesus foi muitas vezes além da lei. Que desafio constitui essa atitude para os dias de hoje?

ML – Somos chamados à mesma atitude pedagógica de Jesus em função da pessoa, não da situação. Nós não canonizamos o mal! Bem pelo contrário. Se é mal, é mal. Mas a pessoa é merecedora da misericórdia e da atenção, independentemente do bem ou do mal que traga anexa à sua vida.

 

AE – Misericórdia e justiça. Que relação se deve estabelecer?

ML – As duas são componentes humanas. Mas justiça sem misericórdia será fria, livresca, que não serve a pessoa na sua totalidade.

 

AE – O que é que a misericórdia acrescenta à justiça?

ML – Centra-se na pessoa, não apenas na ação. A ação é contabilizada em função de códigos. E o contexto? E o que está por trás de uma ação? Podem ser agravantes, mas normalmente são atenuantes.

 

AE – Acredito que de alguma forma a misericórdia desestabiliza quem tem de aplicar a justiça…

ML – Não é fácil! Nós gostaríamos de ver tudo automático como o ligar de um interruptor. Mas estamos a lidar com pessoas e o seu mundo. Mas não tenhamos ilusão. Esse é o único caminho a seguir…

 

AE – Ao proclamar o jubileu, o Papa refere-se também a outras religiões, afirmando que a misericórdia ultrapassa as fronteiras da Igreja. O jubileu da misericórdia foi também um ano de diálogo inter-religioso?

ML – Foi e vai sê-lo! Não tivemos nenhum gesto significativo, mas no contexto do Pentecostes, em maio, as igrejas do COPIC (Conselho Português das Igrejas Cristãs), que já estão há muitos anos em diálogo, pretendemos recuperar uma ótima declaração sobre a justificação pela fé de 1998, assinada entre as igrejas luteranas da Alemanha e a Igreja Católica, que é ainda hoje um documento fundante do que deve ser a união a nível de doutrina. Vamos pegar nesse documento e refleti-lo, em conjunto. Trata-se de um dos frutos deste Ano da Misericórdia.

 

AE – O setor da nova evangelização, que o D. Manuel Linda coordena na Conferência Episcopal Portuguesa, dinamizou este Jubileu da Misericórdia. Que repercussão tiveram as propostas do Papa entre nós?

ML – No início chegaram muitos documentos de Roma e, também por meio de consultas que fizemos ao Vaticano, tentamos uniformizar critérios para abertura do Ano da Misericórdia e a dinâmica no qual deveria ser vivido. Depois, cada diocese foi caminhado pelos seus meios, ao seu ritmo. Após o segundo e terceiro mês não houve uma intervenção de coordenação marcante.

Por outro lado, a primeira parte do Ano da Misericórdia foi marcada, em muitas dioceses, pela visita Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima e, em cada uma, procurou-se associar os dois acontecimentos no tema da misericórdia.  

 

AE – O Jubileu da Misericórdia não se reduziu, no entanto, ao abrir e fechar de portas, passado um ano…

ML – Não! Realizaram-se muitas ações: umas visíveis, mas as grandes ações são as invisíveis. Todo o Povo de Deus esteve envolvido com muito êxito. Marcou a maneira de ser Igreja em Portugal e em qualquer parte do mundo.

 

AE – Não seria desejável que gestos como os que o Papa fez, como ter a Praça de São Pedro com sem-abrigo, acontecessem também entre nós?

ML – Sim. E aconteceram! O bispo do Porto convidou os sem-abrigo a atravessar a Porta Santa da catedral; na única prisão que há em Portugal para as Forças Armadas e Forças de Segurança, graças a Deus com um número reduzido de presos, celebrei o Jubileu dos reclusos, com a presença da Imagem Peregrina. E muitos outros gestos ocorreram! Não foram é tão visíveis, porque não têm a dimensão da universalidade como têm os que se realizam no Vaticano.

 

AE – Também por causa da realização desses gestos, acredita que o novo paradigma do ser Igreja hoje está em curso…

ML – Acredito que é uma porta que não se pode encerrar e que ninguém tem coragem para fechar a porta da misericórdia: um coração sensível, uma maneira própria de afirmar a fé no mundo.

 

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