Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

As meditações que o padre e poeta madeirense José Tolentino Mendonça apresentou ao Papa e responsáveis da Cúria Romana são um ótimo ponto de partida para a necessária reflexão sobre o lugar da Teologia, hoje. Entre a voragem do consumismo e o crescimento de distopias várias, a humanidade procura um rumo, um espaço de sonho e de silêncio no turbilhão dos dias, e a Teologia não pode demitir-se de ir ao seu encontro. Falando e ouvindo, como lhe compete.

Neste diálogo entram vozes de vários quadrantes, algumas que até poderíamos julgar “improváveis”, mas é necessário que o coração do crente se deixe interpelar pelas questões levantadas na literatura, na arte, na música. Muitas vezes, são gritos escondidos que procuram um sentido e que se revoltam contra a aparente inconsequência e inutilidade da existência.

“Somos criaturas de desejo, não temos apenas necessidades”, disse o padre Tolentino, a respeito das suas meditações, que levantaram uma pertinente questão sobre o investimento feito para dar credibilidade existencial, antropológica e afetiva à experiência de fé.

Que se fale, neste contexto, de um “défice” do desejo é particularmente relevante. Há muitas sedes que se procuram saciar nas mais diversas fontes, mas no mais íntimo de cada um há uma vontade de ser que ultrapassa as contingências e não se apaga, apenas se aprofunda.

Citando Clarice Lispector, que o padre Tolentino Mendonça levou a Ariccia: “Como traduzir o silêncio do encontro real?”.

Este é um grande desafio para quem fala de Deus ao mundo de hoje: promover o encontro e traduzir essa realidade. Não com fórmulas estéreis e estanques, mas com capacidade de transformar aquele que se apresenta diante de si como uma referência espiritual, humana, ética. Para que não se corra o risco de perder tempo a responder a perguntas que ninguém faz…

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