José Luís Gonçalves

Segundo o sacerdote e filósofo da educação Octavi Fullat i Genís, a civilização do trigo – a nossa, portanto -, foi culturalmente moldada por três cidades-símbolo distintas, a saber: Jerusalém, Atenas e Roma. Para melhor ilustrar o que as distingue, mas também complementa do ponto de vista antropológico e, sobretudo, na conceção de tempo que veiculam, basta recordar três grandes obras da Antiguidade e suas respetivas figuras míticas: como são Abraão (Jerusalém), Ulisses (Atenas) e Eneias (Roma).

Assim, na Bíblia, Abraão vive o tempo histórico como chamamento/vocação ao futuro, mediante um acontecimento de relação e de abertura a um Outro absoluto – Abraão sai da sua terra, mas não mais a ela volta. A tónica temporal acentuada é o futuro, a busca de valores por realizar, a profecia por cumprir. Jerusalém acentua o carácter educativo da imaginação humana, da novidade por descobrir, da decisão livre e da vontade. A pessoa constitui aqui uma identidade aberta, tarefa a realizar na vocação-promessa.

Na Odisseia, a viagem de Ulisses desenvolve-se num tempo cíclico de renovação constante, mas sempre num regresso anunciado. Ulisses é conhecido pelas muitas viagens realizadas, mas também pela incapacidade de encontrar um sentido de auto e de hétero-consciência nessas mesmas viagens. Uma vez regressado a casa, a Ítaca, volta a encontrar o sentido de si mesmo. É um regresso ao ponto de partida e, ao nível antropológico, a constatação da impossibilidade do reconhecimento do outro na sua radical alteridade. A tónica temporal predominante é o passado tecido de memórias, a busca da renovação na ciclicidade; Atenas, que viu nascer a ciência, privilegia a memória como eixo axiológico fundamental.

Na Eneida, o espaço das viagens de Eneias também é mítico e geográfico, mas não tende para a circularidade nem para a ciclicidade, mas para a abertura linear. Eneias é criador heroico-mítico de uma nova ordem social, política e espiritual, para o Ocidente. O tempo privilegiado é o presente, a atualidade é entendida como manipulável; daí surge a técnica como o maior valor educativo desta cultura.

A chegada do novo ano convida a realizar balanços de vida e a projetar intenções de realização pessoal. Nesta incessante busca de significado, muitos escolhem ficar presos ao passado da mesmidade; outros optam por viver no presente – sempre psiquicamente mais saudável -, embora apenas desejem a linearidade da vida omitindo, desta forma, a vulnerabilidade e complexidade da mesma; há quem, por fim, queira permanecer aberto ao acontecimento da relação por estabelecer – consigo próprio e com o Outro -, manifestando a abertura ao imprevisível.

Para os cristãos, é Jesus Cristo quem, na ‘plenitude dos tempos’ (Efésios, Colossenses), estabelece a ponte entre dois tempos – o humano e o divino. Se o tempo humano é limitado, contabilizável, quantitativo, de extensão, cronológico, portanto, o divino tem sabor a eternidade (Salmo 90,4), é qualitativo (Ecl. 3), refere-se à intensidade, é kairológico. Em Jesus, Deus apresenta a história da humanidade em dois pólos de tensão de tempo: entre o Génesis (1,1) «… No princípio, Deus criou…» e o Apocalipse (22,20): «Sim, Eu venho em breve!» Jesus é, então para nós, a chave do tempo, o Alfa e o Ómega. N’Ele, o tempo adquire definitivamente direção e sentido «…até que Cristo seja tudo em todos…». Um bom ano!

 

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