Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

O diálogo com o mundo contemporâneo é fascinante. A linguagem que podemos desenvolver e explorar para dialogar com o mundo torna-se cada vez mais universal. Mas isso tem implicado excluir uma palavra do léxico: Deus.

Foto de rawpixel em Unsplash

Deus é uma palavra que incomoda e parece não fazer parte do nosso quotidiano. Se vamos à missa falamos em Deus. Se estamos na catequese falamos em Deus. Mas no café, ou trabalho, enquanto andamos de autocarro, ou vamos às compras ao supermercado, não tão evidente.

Dizer Deus não é fácil nos âmbitos mais normais ao longo do dia porque parece sair do contexto. Que razões tenho para falar de Deus enquanto conduzo? Ou se estou a falar com um cliente? Reconheço não ser fácil, mas são este tipo de desafios que se revelam como excelentes oportunidades de sermos criativos.

E ao criar modos novos de inserir Deus no diálogo com o mundo contemporâneo não estamos, propriamente, com a intenção de converter as pessoas. Isso seria um erro tremendo e um risco de cair no proselitismo. O que estamos a fazer é transformar a narrativa do mundo com a história de amor entre nós e Deus.

Pela experiência que procuro viver nos últimos tempos, colocar Deus na linguagem universal para dialogar com o mundo passa por reconhecer que não devo procurar viver bem aos olhos de Deus, mas antes dar-me conta de que Deus vê através do meu olhar.

Assim, se estou com um cliente, mais importante do que o modo como eu o vejo é o modo como Deus através de mim o vê. Sabendo que o olhar de Deus é sempre um olhar de amor, se o meu olhar for assim, estarei a introduzir Deus na linguagem através da experiência do olhar.

Se me encontro num café para comprar pão, mais importante do que o pedido em si que dirijo ao empregado do balcão é o modo como Deus se dirige ao outro através do tom da minha voz. Sabendo que a voz de Deus eleva sempre a quem se dirige porque tudo pronuncia por amor, se estiver atento ao tom da minha voz, estarei a introduzir Deus na linguagem quotidiana através da experiência de um tom de amor.

Se pensarmos bem, dizer Deus na linguagem universal que queremos usar para dialogar com o mundo contemporâneo é dar Deus. E damos Deus se O acolhermos no mais pequeno aspecto da nossa vida, e deixarmos que essa seja transformada por Ele.

Se for oportuno, depois de termos amado em tudo o que fazemos e dizemos ao longo do dia, na mais banal situação, pronunciar a palavra Deus não será tão despropositada porque quem se sente amado não pode senão viver uma gratidão profunda. Aquela que leva todo o ser humano, independentemente das suas convicções, a pensar na fonte desse amor que desde sempre na história da humanidade fez parte da nossa linguagem… Deus.

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