Marco Daniel Duarte é desde dezembro de 2013 o diretor do Serviço de Estudos e Difusão do Santuário de Fátima, contactando diretamente com as fontes primárias que permitiram apresentar à Igreja e à sociedade os acontecimentos vividos na Cova da Iria e arredores, em 1917. Um século depois, Fátima continua ser vista com desconfiança por alguns ambientes académicos, representando ainda um campo em aberto para as investigações das mais diversas áreas do saber.

Agência ECCLESIA (AE) – A Cova da Iria é um espaço que transformou a história da Igreja Católica em Portugal e também um pouco por todo o mundo. Como é que ao longo deste século de Fátima se chegou a definir a história daquilo que três pequenas crianças viveram aqui, entre maio e outubro de 1917?

Marco Daniel Duarte (MDD) – É mesmo em 1917 que essa história começa a ser contada. Podemos dizer que as fontes primárias que temos são desse ano.

Há diferentes tipologias de fontes. As primeiras são os registos escritos do testemunho de três crianças. Tenho defendido, em relação a Fátima, que seja observado, analisado e estudado como qualquer fenómeno da história, e que sejam tidos em conta todos os tipos de testemunhos, de fontes.

Em primeiro lugar, a oralidade, aquilo que passa daquelas crianças para os seus primeiros interlocutores. Depois, o registo que esses interlocutores fazem dessa memória que lhes é passada, desses testemunhos; em seguida, as outras fontes que podemos chamar complementares, mas que ao olharmos para trás – e já são 100 anos de história – podem ser consideradas primárias, que são as fontes jornalísticas.

 

AE – Quando é que se começam a ter as primeiras notícias sobre Fátima?

MDD – Logo a partir de agosto de 1917, estamos no âmago do que é o acontecimento de Fátima, sabemos que circula a notícia em todo o país, em todos os jornais se sabe que há um fenómeno extraordinário aqui na Cova da Iria, esse fenómeno é palpável, porque se percebe que há pessoas que vêm a este lugar, atraídas por uma mensagem que entendem ser digna de crédito. Aliás, se nós quisermos dizer desta forma, a Igreja quando afirma que as aparições de Fátima são dignas de crédito, diz claramente que aquelas três crianças são dignas de serem acreditadas. Esta é a primeira fonte de Fátima, a partir daqui temos interrogatórios, todas as reflexões que são feitas, os depoimentos, servem para se atestar a credibilidade do testemunho daquelas três crianças.

 

AE – Muitas publicações questionam Fátima e defendem a ideia de uma “construção” das aparições. Essa ideia deriva dos primeiros relatos jornalísticos?

MDD – Sim, se nos basearmos apenas nas fontes jornalísticas. A historiografia que tem defendido que Fátima é uma construção – construção subjetiva das crianças, que decidiram inventar, ou porque foram sugestionadas -, essa historiografia assenta, normalmente, nas fontes jornalísticas. E as fontes de 1917 são todas contra Fátima, não há um jornal que faça a apologia de Fátima.

Desde logo, a imprensa católica não se posiciona com Fátima, em 1917, porque é um fenómeno que ainda não está dado como digno de crédito: a Igreja não se pronuncia, não sabe o que vai acontecer, não iniciou ainda os interrogatórios oficiais, e por isso está muito longe de dar as aparições como dignas de crédito.

Toda a imprensa que fala de Fátima é uma imprensa que alinha pelo ideário daquilo que é a construção da I República em Portugal, que tem como programa muito claro, em relação à religião, afastar a ideia de Deus da vida quotidiana das pessoas. O Republicanismo português, a ideia republicana, é eminentemente intelectualizada, os patriarcas da I República beberam do positivismo que vem do século das luzes, da revolução francesa. Temos uma elite intelectual a fazer política, nessa altura, muito instruída.

Quando os jornais dão conta de que há uma multidão imensa a aproximar-se da Cova da Iria, as expressões, os títulos dos tabloides, dos jornais da época são, exatamente, “como se pretende desvairar o povo”, “como se pretende enganar o povo”. O que estava a acontecer em Fátima, de facto, era levar as pessoas ao arrepio do ideário político que está em mente na segunda década do século XX em Portugal.

Portanto, ler Fátima a partir destas fontes leva, obviamente, à conclusão de que Fátima é uma construção religiosa e de que há uma interferência da hierarquia junto daquelas crianças para virem dizer que a Senhora mais brilhante do que o sol está a aparecer…

 

AE – A historiografia tem vindo a valorizar cada vez mais o contributo de pessoas que eram tidas como ‘anónimas’, a sua história, retratos, objetos, e não só dos documentos oficiais. Como é que o Santuário de Fátima preserva a memória dos milhares de peregrinos que vieram até aqui logo desde 1917 e todas as histórias que elas levaram daqui?

MDD – É exatamente essa a crítica que eu deixo à historiografia que tem sido feita sobre Fátima. Por um lado, se nós temos hoje nas cátedras universitárias uma revolução epistemológica à volta da história, do fazer história, porque é preciso cruzar todas as fontes. Para Fátima, essas fontes não têm sido cruzadas, não se dá conta da importância do laicado inicial, por exemplo, que está por estudar. Não sabemos o nome da maior parte das pessoas que vieram aqui, mas há nomes que nós conhecemos.

No dia 13 de outubro de 1917, estavam na Cova da Iria 70 mil pessoas, pelo menos – há jornais que dão muito mais. No mês de agosto, estavam 5 mil pessoas, e este número cruza fontes anticlericais e fontes do interior da Igreja. Como é que nós chegamos à chamada pequena história, que nos ajuda a entender o fenómeno?

Dou um exemplo, uma figura muito interessante, chamada Gilberto Fernandes dos Santos. Vem a Fátima e, no dia 13 de outubro de 1917, está a distribuir pagelas, nas quais o título que se dá à Virgem de Fátima é ‘Nossa Senhora da Paz’ (Regina Pacis, ora pro nobis). Sabemos que isto é uma influência da introdução deste título na ladainha lauretana, que tinha sido pedida em maio pelo Papa Bento XV, estamos na I Guerra Mundial. Estas pessoas que vêm a Fátima, vêm claramente à procura da Senhora que lhes traz a paz, portanto, há claramente esta intenção junto delas.

Eu gostaria de sublinhar o papel desta pessoa [Gilberto Fernandes dos Santos] junto dos clérigos da altura. O Gilberto Fernandes dos Santos desespera para ter respostas, por exemplo, de Manuel Nunes Formigão, que é, numa determinada linha da historiografia, acusado de ser o construtor, o inventor de Fátima, porque passa por Lurdes e tem um desejo enorme de fazer uma ‘Lurdes portuguesa’.

Manuel Nunes Formigão não responde ao Gilberto Fernandes dos Santos, às várias perguntas que ele lhe faz. O bispo de Leiria [D. José Alves Correia da Silva] tenta deixar muitas respostas por dar, precisamente porque ainda não se pode pronunciar sobre Fátima. Há uma pressão muito clara junto da hierarquia para que esta se pronuncie. Os presbíteros estão nesse momento a analisar os interrogatórios, têm muita dificuldade em dar respostas concretas.

Gilberto Fernandes dos Santos vai encomendar a imagem de Nossa Senhora de Fátima para o lugar. Encomendar uma imagem é constituir um polo muito forte para dar resposta àqueles que vêm à Cova da Iria. Pretende saber se a imagem deve ter um terço ou um rosário e manda muitas cartas ao padre Formigão a pedir esclarecimentos, mas o padre Formigão furta-se a dar essas respostas. O mesmo acontece com o bispo.

 

MDD – Este laicado que está presente aqui – muitas dessas pessoas dizem ter visto o milagre do sol, outras dizem que não se aperceberam dele, outras simplesmente que o tempo mudou e deixou de chover -, todas estas reações podemos tirá-las das diversas fontes, temos é de analisá-las com o mesmo critério que analisamos todas as outras, com o mesmo olhar crítico que nos leva depois ao cruzamento das informações e a saber aquilo que aconteceu efetivamente aqui em Fátima. Sabendo também que a mesma fonte é analisada com olhar diferente, dependendo da subjetividade de quem analisa. Hoje seríamos ingénuos ao pensar que a história é uma ciência que vive do positivismo.

 

AE – As abordagens mais críticas de Fátima têm apresentado documentação nova?

MDD – Normalmente, não. O Santuário, ao longo de todo este tempo, procurou ter consigo o registo e reunir as diversas fontes sobre Fátima. E quando falamos de fontes, estamos a fala das chamadas fontes escritas, mas também das fontes materiais: um objeto que tenha pertencido aos videntes, à casa onde nasceram, também ajuda a entender a história de Fátima; as primeiras ofertas dos peregrinos à Virgem de Fátima, as ofertas que continuam a chegar, as mensagens da guerra colonial…

Estamos habituados a ouvir que Fátima e o Estado Novo são legitimadores um do outro. Nada de mais errado para os anos 60 e 70, Fátima é nesta altura um altar, se quisermos, que mostra a toda a gente a grande fragilidade do Estado Novo, que era a questão do Ultramar: é aqui que as mães dos soldados, as noivas dos soldados, as filhas dos soldados vêm chorar os que morrem na guerra. É aqui que os soldados, quando regressam, vêm agradecer à Virgem de Fátima o facto de terem saído de uma guerra que não entendem, que acham injusta.

Há um protesto coletivo aqui em Fátima que precisa de ser analisado a partir das fotografias que temos dessa data, onde podemos ver os soldados na passadeira, de joelhos ou a arrastar-se. São fotografias violentas, ainda aos olhos contemporâneos. E também a partir das mensagens, guardadas nos nossos arquivos, que chegam de escolas, nessa altura a fazer campanhas de oração para que a guerra termine; de mulheres que escrevem à Virgem de Fátima. Até à data, não tivemos nenhum investigador interessado neste tipo de fonte.

 

AE – E porque é que isso acontece?

MDD – Não há investigadores interessados neste tipo de fontes porque as conclusões que se tiram, ao analisá-las, vão certamente pôr em causa uma determinada linha historiográfica que tem sido vendida, para usar uma expressão menos bonita, sobre Fátima.

Mais uma vez, estamos perante a reação de leigos, do laicado em Fátima. Também é muito comum dizer-se que a Fátima só vêm aqueles que não têm nada a perder, que as elites sociais não estão cá. Analisando as fontes desde a primeira hora, no entanto, encontramos elites ligadas a uma aristocracia que vê em Fátima, obviamente, uma forma de reabilitar a ideia monárquica não há dúvida; também uma elite burguesa, que inclui médicos, advogados, pessoas que têm estabelecimentos comerciais, está a atuar em Fátima desde a primeira hora.

Todas estas fontes foram guardadas pelo Santuário de Fátima e as que não são custodiadas pelo nosso arquivo estão referenciadas desde há muito tempo. Mesmo os documentos que não estão aqui foram referenciados por aqueles que nós consideramos os primeiros estudiosos de Fátima e foram à procura de saber onde existiam arquivos sobre a ideia de Fátima. Esses arquivos estão espalhados por todo o mundo, desde logo nos lugares da geografia de Lúcia, que passa por diferentes lugares em Portugal, sabemos que vive na Galiza, ainda como religiosa de Santa Doroteia, e depois entra no Carmelo de Santa Teresa, de Coimbra. Só a documentação relacionada com a Irmã Lúcia passa dos 10 mil escritos; as cartas são 9 mil e tal, as que conhecemos, e cada carta tem um pedaço de Fátima, que deve ser analisado, contextualizado. Além disto, há os arquivos das religiosas de Santa Doroteia, os da Santa Sé, com documentação muito importante, logo a partir dos anos 20, sobre Fátima. Também o arquivo das religiosas Reparadoras de Nossa Senhora de Fátima, fundadas pelo cónego Formigão.

 

AE – Há quem valorize muito as contradições que existem nas várias fontes sobre Fátima…

MDD – Nada melhor para conhecer com cientificidade e profundidade o que aconteceu em Fátima do que regressar às fontes. Mesmo que elas sejam contraditórias ao serem analisadas segundo as ferramentas de cada época. Há um exemplo típico, no qual normalmente se pega para desacreditar Fátima: nos interrogatórios de 1917, a saia de Nossa Senhora ora é mais curta, ora mais comprida, conforme o interrogador ou até a testemunha que está a ser interrogada. Enfim, a mesma problemática se coloca hoje para os Evangelhos da Paixão, por exemplo, sobrepondo as narrativas que a Igreja entende como as fontes mais próximas do acontecimento.

O que é que temos de fazer? Colocar as fontes no seu universo primevo e perceber como é que elas nos chegam, a subjetividade que está em quem escreve e em quem diz. Isso deve ser assumido.

O Santuário teve o desígnio de transcrever esta documentação e colocá-la ao serviço da comunidade científica. Nos anos 90, aparecem pela primeira vez os interrogatórios, transcritos, acessíveis a todos os investigadores; em seguida, surge o inquérito ligado ao processo que há de levar ao decreto de 1930, em que o bispo de Leiria diz que as aparições são dignas de crédito. A partir daí, o Santuário publicou – já vamos com 16 tomos – uma série de documentação, cuja tipologia passa por fontes jornalísticas, depoimentos, entrevistas, interrogatórios, testemunhos diversos, material fotográfico e iconográfico, de variados arquivos. Pelo menos até 1930, tudo o que conhecemos está ali publicado. A maioria dos investigadores cita os dois primeiros volumes e ignora todos os outros.

 

AE – Um dos escritos fundamentais, ‘As Memórias’ da Irmã Lúcia, teve uma edição crítica publicada pela primeira vez. Que motivos levaram a esta publicação?

MDD – Tal outras fontes que consideramos primárias, as Memórias estavam editadas naquilo que chamamos uma edição de divulgação, popular, feita com intuito apologético. A primeira edição é da responsabilidade de um homem importantíssimo em Fátima, padre Luis Kondor, quem tem como função dentro da Igreja levar as pessoas a perceber a santidade dos Pastorinhos.

O que o Santuário entendeu fazer foi colocar, a partir da documentação que Lúcia escreve – não omitindo as hesitações, rasuras, entrelinhados -, todas das informações necessárias para que o investigador possa, a partir dali, fazer história.

Esta é, sem dúvida, uma fonte primária de Fátima. Há também, dentro de quem analisa o fenómeno, uma cisão, que coloca uma Fátima primeira e uma Fátima segunda, construída pela irmã Lúcia nos anos 40, sobre as suas Memórias. Aquilo que eu defendo é exatamente o contrário, as memórias são fonte primária, porque são escritas por uma protagonista do fenómeno, devem ser analisadas criticamente, tal como as primeiras fontes o devem ser. Também se deve encontrar a subjetividade da autora, analisando no registo que o próprio registo nos merece, ao ser um registo memorialista. Nós sabemos que isso significa a interpretação do fenómeno já décadas depois, mas é uma fonte primária para o estudo de Fátima.

 

AE – O Santuário espera que todo este material inspire investigação mais especializada?

MDD – Há especialistas de Fátima espalhados um pouco por todo o mundo, mas Portugal nãos os tem como deveria ter.

Fátima tem sofrido com alguns tabus: em primeiro lugar, um tabu académico, que fica muito mal às academias, a negação da importância de um acontecimento histórico. É como não querer estudar a I Guerra Mundial, mesmo que ela possa causar sofrimento; ou não gostarmos de determinada rainha da história de Portugal e, por isso, não a estudamos. Não faz sentido. O que tem sentido é entender o fenómeno e estudá-lo.

Há um requinte nas academias, todos nós sabemos que é assim: quando não se estuda, não existe. Fátima tem sofrido com este tabu, não tem merecido a atenção dos académicos, num posicionamento que, muitas das vezes, está relacionado com isto: não vale a pena estudar, porque se se estudar, passa a existir.

Depois, podemos dizer que Fátima aparece nas academias naquilo que não coloca dificuldade, do ponto de vista religioso – porque também não têm estudado o fenómeno religioso. A primeira ciência a levar Fátima para as universidades é a Geografia Humana: contam-se pessoas que vêm, pessoas que saem, aí não há dificuldades. Vemos também as ciências ligadas ao Turismo, mas falta a Sociologia, a Antropologia, inclusivamente a Teologia. É muito mais fácil encontrar pessoas interessadas pela Teologia que se pode fazer, a partir da mensagem de Fátima, no estrangeiro do que em Portugal.

Penso que isto estará a mudar, que o centenário das aparições coloca uma barreira psicológica, um antes e um depois: há um determinado tempo histórico que se fecha e deixa já de ser o tempo da história do quotidiano, do presente, para passar a ser analisado pelas ciências que se ocupam do acontecimento em longa duração, se quisermos.

 

AE – O que é que o Santuário está a fazer para que isso aconteça?

MDD – Está a promover cursos para investigadores, apresentando as fontes sobre Fátima; está a promover cursos não só no Santuário mas também fora, para fazer a ponte com as universidades e com o mundo académico. Sabemos que os divulgadores de Fátima estarão sempre disponíveis.

No Serviço de Estudos, a nossa grande preocupação é levar as pessoas a entender o fenómeno de Fátima, proporcionar o acesso às fontes, mesmo sabendo que estamos a falar de uma realidade com 100 anos que ainda está protegida, numa parte dessa diacronia, pelas leis dos arquivos.

Há informação que ainda não está disponível, mas o reitor do Santuário há muito pouco tempo despachou favoravelmente uma petição que o Serviço de Estudos lhe dirigiu, no sentido de libertar a documentação até ao cinquentenário [1967]. Estamos a falar de milhares e milhares de documentos, no arquivo do Santuário de Fátima.

Eu penso que, a partir desta altura, teremos novas pessoas interessadas em estudar Fátima. Nunca chegarão à conclusão cândida a que se queria chegar desde o início: se conseguimos encontrar uma fotografia que demonstre a aparição. Isso não vamos conseguir encontrar, aquilo que encontramos é o posicionamento das figuras históricas perante um fenómeno que mudou a Igreja em Portugal e mudou a Igreja no mundo.

Há ações pastorais que colocam Fátima como acontecimento central: as viagens da Virgem Peregrina, por exemplo. O Santuário tem muita informação sobre essas viagens, a partir dos anos 40: uma imagem branca percorre a Europa, em guerra, e está ainda por saber qual é a reação de uma ideologia nazi, quando vê passar esta imagem, a anunciar a paz; estão por saber e por estudar os arquivos sobre os entraves à entrada da imagem branca nas fronteiras do comunismo.

Está por perceber ainda, por aprofundar, a dificuldade que os Papas tiveram com a própria Lúcia, que é uma mulher muito exigente. É uma mulher que está em Portugal, numa periferia da Europa, num ambiente completamente pré-conciliar, uma religiosa dentro de várias hierarquias – a superiora da comunidade, a superiora geral, o bispo do lugar onde vive, o bispo de Leiria, o núncio apostólico -, que mesmo assim consegue vencer tantas barreiras para chegar a Pio XII, de forma escrita.

Fátima passa a barreira da história local, da história regional, da história nacional e da história internacional logo em 1917: no início de setembro desse ano, há uma carta de um soldado em França, que escreve ao pai de Lúcia a perguntar o que se estava a passar na Cova da Iria.

 

AE – Francisco vai tornar-se este ano o quarto Papa a visitar a Cova da Iria, durante o seu pontificado. Ainda faz sentido olhar para estas viagens numa lógica de validação do acontecimento de Fátima?

MDD – Eu penso que isso é extemporâneo e fora de prazo. Aquilo que interessa é analisar porque é que isto acontece e porque é que se traz para o debate ainda uma questão que está completamente ultrapassada. O Papado valida Fátima desde muito cedo, em 1929 já temos Pio XI, no Pontifício Colégio Português [Roma] a benzer uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e a distribuir pagelas com a imagem aos alunos, na sede da Cristandade.

Antes disso, já tinha havido a presença do núncio apostólico em Fátima, mas se não quisermos recuar a esta década de 20, pelo menos que se olhe para ação de Pio XII, que foi considerado o Papa de Fátima. Ele não veio a Fátima porque Pio XII não saía do Vaticano, mas se uma das estratégias do Papa fosse sair em viagens apostólicas, teria vindo a Fátima. Em 1951, temos o Ano Santo extraordinário a encerrar em Fátima, temos várias mensagens do Papa Pio XII, temos a coroação da imagem, aqui na Cova da Iria, por um legado pontifício, o que quer dizer exatamente a mesma coisa, na lógica de atuação dos Papas.

Fátima é a única aparição, revelação privada, se quisermos usar a linguagem da Teologia, que está citada nos documentos do Concílio Vaticano II: no encerramento da terceira sessão [21.11.1964], o Papa Paulo VI envia a Rosa de Ouro a este santuário, o reconhecimento por parte da Santa Sé que este é um lugar importantíssimo para o catolicismo.

Não vejo necessidade de trazer para o debate atual que o Papa Francisco venha validar Fátima. O que é interessante perceber é que o Papa Francisco está a servir para anular as razões com que um determinado número de pessoas justificava o facto de não pertencer à Igreja. Esta vinda do Papa a Fátima é também para elas um sinal importante de que Fátima é um fenómeno a levar em conta. 

Entrevista conduzida por Octávio Carmo

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