Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Lembram-se do tempo em que falar de Deus era normal nas famílias, trabalhos, cafés e não apenas em ambientes religiosos? Deus fazia parte do nosso quotidiano e, ainda que houvesse quem não acreditasse n’Ele, reconhecia o valor cultural que Deus tinha nas conversas. E hoje?

Crédito a Joshua Ness em unsplash.com

Ainda há quem se despeça ”Até amanhã, se Deus quiser”?

Ainda há quem exclame ”Graças a Deus!”?

E aqueles que ainda o fazem, sabem o significado que tem a Vontade de Deus na sua vida, e de palavras como “Graça”?

No outro dia estava a mostrar aos meus filhos canções que gostava quando era pequeno como eles. Uma delas era a canção de Boa Noite do Topo Gigio antes de irmos para a cama. Dei-me conta de que a letra falava de Deus.

“Já estão lavadinhos deitados na cama,

rezaram as orações.

Já todas as estrelas

que há no céu

abriram a luz

que Deus lhe deu.”

E dei-me conta disso porque parecia-me mais inconcebível que isso hoje pudesse acontecer do que no tempo em que era criança.

Aquilo que assistimos hoje é a uma certa desorientação espiritual. Não no sentido negativo do termo, mas de negação de uma orientação espiritual naquilo que falamos uns com os outros. Normalmente, os temas das nossas conversas referem-se ao que vivemos ao longo do dia, o que pensamos e experimentamos. Mas, pensando cruamente, talvez tenhamos deixado de incluir Deus nas nossas conversas porque não queremos incomodar ninguém. A religião passou a fazer parte da esfera privada, e como as amizades são cada vez mais superficiais e digitais, o profundo que uma conversa sobre Deus exige não encontra o seu espaço, tempo e incomoda.

A realidade parece ser a de que as conversas sobre o que é sagrado e espiritual parecem estar em declínio. Pensei se Deus fará ainda parte das nossas conversas em família ou com os amigos. Estaremos a movermo-nos para um Cristianismo no vácuo? Se é tão difícil falar de Deus onde quer que seja, será que o ar que respiramos de cada vez que falamos de Deus, que outrora era ar fresco, agora, abafa?

Onde está a fronteira entre uma linguagem universal que todos possam entender, e sentir-se incluidos, e um tema directamente relacionado com questões espirituais? Como não é fácil, acaba-se por cair do declínio das conversas espirituais entre nós.

Com a falta de conversas espirituais, também os termos espirituais acabam por cair em desuso, de tal modo que as pessoas não sabem mais o que significam. Dizer “sacrifício” estará sempre associado a algo tão negativo quando seria fazer de algo, algo sagrado. Ou “caridade,” onde o amor se confunde com esmola. Ou ainda “compaixão,” onde “sofrer com” se confunde com ter pena de alguém. Numa sondagem realizada nos Estados Unidos a um grupo de 1000 norte-americanos, onde Deus está ainda presente na Constituição, as dificuldades encontradas foram:

  • que as conversas espirituais criam tensão entre as pessoas;
  • as conversas sobre religião são politizadas;
  • não se quer conversar sobre Deus para não parecer uma pessoa religiosa;
  • e, de algum modo, as conversas espirituais soam estranhas.

Quer tudo isto dizer que Deus já não interessa? Que devemos remetê-Lo para a esfera do privado e deixar, definitivamente, de ser assunto das nossas conversas? Creio haver aqui uma GRANDE oportunidade. A oportunidade de “não invocar o nome de Deus em vão”, mas redescobrir o valor de O ter como tema das nossas conversas.

Fluência religiosa

As expressões típicas da religiosidade popular farão sempre parte da nossa história cultural, mas a possibilidade de redescobrir o valor de uma conversa sobre Deus pode levar-nos a uma maior fluência no discurso religioso. Conversar sobre Deus acaba por ser falar sobre a nossa experiência pessoal com Ele, ou de ausência dela.

Vejo aqui também uma oportunidade para a teologia sair das Universidades e ajudar-nos a encontrar uma nova fluência religiosa, onde a vida de união com Deus se descobre como um modo de crescimento pessoal ímpar, diferente e inovador.

De Deus não esperamos o curandeiro, mas Aquele que está mais próximo de nós, do que nós de nós próprios. Que vive connosco cada momento da nossa história por mais alegre ou doloroso que seja.

De Deus não esperamos o amuleto, mas Aquele cuja presença nos ajuda a mantermo-nos naquilo que devemos ser e estar onde devemos estar.

De Deus não esperamos a sorte, mas a descoberta da beleza de viver no essencial, como na natureza, onde não se tem mais do que o necessário.

E quantas outras coisas.

Vocabulário espiritual

É importante reconhecer termos um “problema retórico,” mas podemos reavivar o discurso sobre o sagrado e reiniciar a confiança no vocabulário da fé. As palavras da fé como amor, alegria, confiança, empatia, solidariedade, sacrifício, compaixão, segurança, e outras, são caracterizadas pela tonalidade positiva que dão à nossa vida. Mas sabiam que isso nos afecta fisicamente (cérebro) e a realidade à nossa volta?

As palavras são importantes porque moldam a nossa vida mais do que possamos pensar. No livro Words can change your brain (As palavras podem mudar o teu cérebro), o neurocientista Dr. Andrew Newberg e o especialista de comunicação Robert Waldman afirmam que

”Uma só palavra tem o poder de influenciar a expressão dos genes que regulam o stress físico e emocional.”

Ou seja, através do discurso positivo que advém das conversas que temos sobre Deus, ou relacionadas com Deus, as palavras positivas pronunciadas alteram o nosso cérebro e aumentam os seus centros motivacionais. Assim, demonstra-se como as palavras têm o poder de mudar a realidade.

Dizem ainda Newberg e Waldman que

”Ao ter uma [palavra] positiva e optimista em mente, estimulamos a actividade do lobo frontal. Esta área inclui os centros específicos da linguagem que estão directamente ligados ao córtex motor primário responsável por nos mover em direcção à acção. E como demonstra a nossa investigação, quanto mais tempo nos concentrarmos em palavras positivas, mais afectamos outras áreas do nosso cérebro.

As funções no lobo parietal começam a mudar, o que altera a percepção que temos do nós mesmos e das pessoas com as quais interagimos. Uma visão positiva de nós próprios irá inclinar-nos a ver, também, nos outros o que têm de positivo.”

Pode ser cada vez mais difícil falar de Deus, mas se estivermos mais conscientes de como isso afecta a nossa vida de modo positivo, transformando-nos, os que nos estão próximos, e a realidade à nossa… queres tornar o mundo melhor? Começa com conversas sobre/com/em Deus.

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