Cuca Roseta vai cantar e falar aos jovens portugueses que participam na JMJ, na Polónia. O Departamento Nacional da Pastoral Juvenil desafiou-a a estar presente na ‘LusoFesta’ e o seu fado vai ser apresentado no Krakow Congress Centre, na Polónia.

Maria Isabel Rebelo do Couto Cruz Roseta. Cuca Roseta, como é conhecida no meio artístico, canta porque tem esse talento, afirma que “o fado é oração”, diz que a Igreja Católica é a “casa” onde vai “buscar o sentido para tudo” e insiste na dimensão espiritual da sua vida, desde pequena, que nunca esquece apesar da “vida fútil” do ambiente artístico.

Este ano, vai receber um presente: participar na Jornada Mundial da Juventude, um encontro onde nunca conseguiu estar, apesar de muitas expectativas criadas.

Cuca Roseta vai cantar e falar aos jovens portugueses que participam na JMJ, na Polónia. O Departamento Nacional da Pastoral Juvenil desafiou-a a estar presente na ‘LusoFesta’ e o seu fado vai ser apresentado no Krakow Congress Centre, na Polónia.

Entrevista conduzida por Paulo Rocha e Carlos Borges

 

Agência ECCLESIA (AE) – Num verão cheio de concertos, a “cereja no topo do bolo” é a participação na ‘LusoFesta’, na Jornada Mundial da Juventude, em Cracóvia?

Cuca Roseta (CR) – É, sem dúvida. Criei muitas expetativas nesse encontro, desde pequenina, apesar de nunca ter conseguido ir. Participei de vários grupos de jovens, tentei ir muitas vezes. Os meus amigos iam sempre e traziam fotografias e a experiência com eles… Agora vou no meio de muitos concertos, até dezembro, de um verão cheio!

Foi um presente: com 34 anos vou finalmente à Jornada Mundial da Juventude e cantar.

 

AE – Que mensagem vai transmitir aos jovens?

CR – O fado é uma espécie de prece. Quem é espiritual consegue encontrar poemas que lhe digam muito nesse sentido. Eu canto muitos fados, tenho até amigos padres que às vezes escrevem letras para mim, que têm este sentido mais espiritual e vou poder cantar esses fados todos.

O meu fado, que é uma música extremamente emocional e sentimental, tem tudo a ver com a mensagem católica.

 

AE – Há uma nova geração de fadistas que aproxima o fado dos jovens?

CR – Dizem que o fado está na moda e se modernizou. Acho que não. O fado mantém-se o mesmo, se calhar juntou-se umas baterias e percussões que não existiam (a Amália também juntou o baixo), mas o fado acima de tudo é a palavra, é o poema. Nós escolhemos poemas que têm a ver connosco e os jovens identificam-se com as nossas histórias.

Pessoas da minha idade, ou mais novos, identificam-se com uma história de amor, de tristeza, perda ou esperança. É por isso que também têm vindo tantos jovens ao fado. É uma geração de muitos fadistas novos, com letras mais modernas.

 

AE – Numa fase em que se procura o sentido da vida, como é que o fado pode ajudar os jovens nessa procura? Quem procura o sentido da vida encontra pistas no fado?

CR – No meu fado sim. Cada fadista passa o seu interior. E o meu sentido, toda a minha vida, tem um sentido espiritual. Quer queira, quer não, esta espiritualidade passa de uma forma muito forte.

O fado é muito sentimental, muito emocional, muito intenso e, por si, toca as pessoas. Se tiver uma mensagem espiritual, esta luz, só pode ser explosiva. Pelo menos é isso que tento, ser instrumento dessa explosão de luz. Através do fado, da música, da arte, consegue-se chegar à alma. Dizem que o fado é a música da alma e é a alma que nos liga a Deus.

 

AE – É isso que vai acontecer na ‘LusoFesta’?

CR – É isso que vai acontecer…

 

AE – Melhor mesmo era cantar para o Papa Francisco?

CR – Isso é que era a cereja no topo do bolo. Já cantei para o Papa Bento XVI, agora cantava para o Papa Francisco e seria fantástico.

 

Não me imaginaria a viver sem ser católica

AE – O que é que lhe diz este Papa e a sua forma de ser líder da Igreja Católica?

CR – Este Papa é fantástico. Já gostava muito do Papa Bento e do Papa João Paulo II, todos eles são muito diferentes. Cada um de nós também vem ao mundo com uma missão diferente.

Este Papa chega realmente muito próximo das pessoas e ele tem feito muito pela Igreja Católica.

Estou rodeada de pessoas que não acreditam e estou sempre a mostrar coisas do Papa Francisco. Antes também mostrava, mas o Papa Bento era intelectual, escrevia de uma forma mais complexa. O Papa Francisco escreve de forma mais imediata e chega a toda a gente, até às pessoas que não acreditam.

As pessoas que são contra a Igreja Católica gostam dele, que é interessante -“ah, não sou católico mas adoro o Papa Francisco” – é fantástico, é uma forma de chegar a todas as pessoas sem se impor. Somos livres, as pessoas são livres para acreditar ou não mas ele é fantástico nisso é muito humano.

 

AE – No fado também traduz-se uma experiência crente?

CR – Sim…

Existem muitos fados que fazem alusão à Nossa Senhora, à Capelinha, à Nossa Senhora da Assunção, da Saúde… Antigamente eram mais as procissões e quando se descrevia Lisboa falava-se de um que era muito católico. Hoje, perdeu-se um bocadinho isso no fado, mas para mim é muito interessante porque posso cantar todos esses fados com sentido muito maior.

Todos os meus discos acabam com uma música católica. É uma forma de fechar em grande. No primeiro disco foi a “Ave-Maria fadista” que é um fado tradicional, com uma letra antiquíssima. É a Ave-Maria, mas transformada para os fadistas.

Acho que agora vou finalmente poder unir o fado ao meu lado espiritual na ‘LusoFesta’.

 

AE – Esse fado, ‘Avé Maria fadista’, foi o que cantou para o Papa Bento XVI, na Praça do Comércio. Que experiência foi essa?

CR – Foi das melhores experiências da minha vida! Ver a praça completamente cheia e os barcos, era um cenário lindíssimo. O Papa Bento não estava ainda no altar, estava a vir no papamóvel e foi uma imagem linda porque via o papamóvel a vir, as pessoas e, no fundo, a minha música estava a embelezar aquele momento.

Foi uma responsabilidade imensa e fiquei extremamente emocionada. Sou uma apaixonada por Lisboa e poder juntar duas grandes paixões foi maravilhoso.

 

AE – Essa foi uma das ocasiões que o fado traduziu plenamente a dimensão emotiva de cada pessoa?

CR – Antes de ser para mostrar a nossa voz, o fado é para contar uma história dos nossos sentimentos e daquilo que somos. Nós contamos a história da nossa experiência de vida, seja sobre o amor, uma descrição de Lisboa, e o meu sentimento está sempre muito ligado ao lado espiritual.

Sou muito espiritual, preciso muito disso para dar sentido à minha vida e a todo o meu fado. Este lado espiritual dá sentido a tudo o que canto e todos os poemas que escolho, está completamente interligado. Um não vive sem o outro.

 

AE – O que significa pertencer à Igreja Católica, fazer parte de uma família de crentes?

CR – É a minha casa, é onde vou buscar o sentido para tudo! Não me imaginaria a viver sem ser católica, tudo o que fizesse seria vazio, não teria sentido, morreria. Não consigo viver sem esse sentido maior. Pertencer à Igreja Católica é viver, é dar sentido à vida.

 

Sem a religião a minha vida não faz sentido

AE – O que significa ser espiritual?

CR – Desde pequenina que tive a sorte, porque acho que é uma sorte, de os meus pais me educarem na religião católica. Tenho amigos que não tiveram essa sorte. Fazemos o batizado, depois a primeira comunhão e isso acompanha-nos durante toda a vida.

Tenho quatro irmãs e eu levava muito mais a sério este lado que chamo espiritual. Depois fui crescendo e entrando em grupos, campos de férias católicos, fiz 21 peregrinações a Fátima, uma a Santiago de Compostela durante 13 dias, foi incrível… Fiz parte das Equipas Jovens de Nossa Senhora, a Aliança de Amor em Schoenstatt, do CL (Movimento Comunhão e Libertação). É algo que me acompanhou a vida toda, por isso digo que sou muito espiritual. Quer dizer que na minha vida há sempre espaço para o lado da religião e sem isso a minha vida não faz sentido. Preciso do lado espiritual para tudo fazer sentido.

 

AE – Que importância teve nos seu percurso de vida participar, dessa forma, nas propostas de Pastoral Juvenil da Igreja Católica?

CR – Foi mesmo decisiva. Normalmente, nas peregrinações, diziam que enchíamos o balão e depois não podíamos deixar esvaziar.

Eu acho que a vida artística, que é a minha, é muito fútil, é muito difícil manter os pés no chão e manter este caminho direito. E eu preciso muito de manter os pés no chão, unida, manter este sentir. Caso contrário, nada faz sentido.

É uma vida que é muito supérflua, muito materialista também: os patrocínios, os concertos, os vestidos, os artistas… é muito difícil gerir as duas coisas. Cumprindo o dever de ser uma artista e cantar, preciso muito de alimentar o espírito e ir buscar à fonte.

A relação com Deus é de amizade, como temos com uma pessoa. Quando temos um amigo precisamos de telefonar, de estar com ele e aqui para se manter a chama acesa é preciso ir à fonte, beber à fonte. Por isso fiz milhões de peregrinações, sempre que tenho tempo vou fazer alguma coisa. A última foi a Aliança de Amor, em Schoenstatt, que foi fantástico e isso ajuda-me!

 

AE – A dimensão espiritual perdura no seu percurso artístico?

CR – Sem dúvida! Para mim, o fado não faz sentido se não for algo que dou aos outros. Foi o dom que Deus me deu. Eu sou um instrumento de Deus que passa essa mensagem, por uma música extremamente emocional, que mexe muito com a vida das pessoas. Isso é fantástico! Nós viajamos pelo mundo inteiro e vemos como essa música mexe. Sou uma embaixadora de Portugal, mas sou também uma embaixadora de uma Palavra, de um sentimento que passa através das palavras e histórias que quero contar.

No fado, cada fadista vai buscar os poemas que lhe dizem mais. Se formos ver os poemas de todos os meus discos, todos acabam por ter uma base espiritual muito forte. A mensagem que passo é sempre de paz, de amor, porque é isso que me sinto, um instrumento.

É uma responsabilidade imensa fazer um concerto e não faço nenhum sem agradecer antes de entrar em palco. Porque é uma graça poder estar em palco, a cantar e ter público que me ouve e recebe. Não entro em palco nunca sem parar, uns cinco minutos, e digo sempre “que eu seja um instrumento do teu amor e da tua paz, através da música”. É um bocadinho pôr os talentos em prática. Tenho um talento que foi Deus que me deu, nasci com ele e tenho a sorte de o poder pôr em prática.

 

Uma hora é palco é a minha hora de oração

AE – O fado também é oração?

CR – Sem dúvida que é oração. Com a vida de correria que tenho neste momento – e que me custa muito porque dedicava muito tempo ao lado espiritual e sinto que preciso muito destes momentos -, com este exagero de concertos, viagens pelo mundo inteiro, sobra-me pouco tempo.

Essa hora em que entro em palco é também a minha hora de oração.

 

AE – Tem saudades da vida simples?

CR – Tenho imensas saudades! De manhã, quando acordava, ia sempre à Missa (gosto muito de ir à Missa todos os dias e agora não consigo). Depois ia para o Guincho e ficava um pouco em meditação e precisava muito dessa rotina.

À medida que fui tendo cada vez mais concertos, mais concertos, fui deixando de conseguir. No meio artístico são poucas as pessoas que acreditam e é um desafio que Deus me dá também que é continuar a acreditar e lutar sozinha.

Muitas foram as santas – não estou a dizer que sou santa, gostava muito de ser – que viveram esta espiritualidade sozinhas. Jesus também. E vou-me baseando nestas histórias e vou ganhando força para seguir este caminho.

 

Fé, fado e futebol

AE – A fé afirmada no seu meio artístico… Fernando Santos afirmou-a no mundo do futebol. Como comenta a carta do selecionador, lida após a vitória no Euro 2016, que termina com a afirmação “Espero e desejo que seja para glória do Seu nome"?

CR – É fantástico! É o nosso profeta! Fiquei muito emocionada com essa carta… É um exemplo enorme que ele deu, também aos católicos. Às vezes os católicos têm medo de dizer que são católicos porque hoje em dia é quase vergonha, as pessoas gozam.

Acho fantástico a confiança dele desde o início, que só pode vir de Deus, a certeza que ele tinha e era implacável. Acompanhei o Euro de muito perto, o meu marido é preparador físico e, por isso, sabia tudo sobre tudo, lia os jornais todos, via os jogos, não só de Portugal.

 

AE – E fez uma música de apoio à seleção…

CR – Fiz uma música para a seleção, para apoiar estes embaixadores de Portugal lá fora, dar-lhes força!

Ficava impressionada com as palavras de Fernando Santos, este treinador maravilhoso que temos, e com a mensagem que ele deixa! É um herói, um herói católico! E que bom, porque chega a muita gente sem qualquer problema…

 

AE – São atitudes como esta, e como a sua nos concertos, onde nunca esconde as convicções cristãs, católicas, que podem fazer com que a fé tenha mais cidadania, mais expressão pública e não ande escondida como há pouco referia, nomeadamente no meio artístico?

CR – É importante nós não termos vergonha de sermos quem somos. As pessoas seguem-nos, observam-nos. O Fernando Santos tem muitas pessoas e eu também tenho, num ponto mais pequeno, e temos a responsabilidade de passarmos a nossa mensagem, de sermos coerentes e passarmos a mensagem e fé. Isso acaba por tocar as pessoas que estão à nossa volta e pode influenciar de uma forma boa. As pessoas são livres de escolherem o que querem, mas é bom verem que certos ídolos têm as suas convicções e são coerentes e que às vezes são especiais porque têm esta ligação. Não somos nós que somos especiais, é Deus que é especial. Nós somos os instrumentos.

 

AE – Os seus concertos são também “para a glória do Seu nome”?

CR – Como dizia há pouco, antes de me preparar para entrar tenho de perceber que não é mais um concerto e que o concerto não é para mim. Vejo muitos artistas a cantar para eles, querem as palmas para eles, querem a fama para eles.

Num concerto, simplesmente damos! E peço sempre para poder dar o melhor possível, poder fazer o melhor possível, mesmo com todo o cansaço. Mas claro: Para “glória do Seu nome”, sempre.

 

A Agência ECCLESIA agradece ao Vintage Lisboa Hotel pela cedência do espaço para a realização da entrevista com a Cuca Roseta.

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