Octávio Carmo, Agência ECCLESIA

O lugar do “eu” na era das redes sociais está, como é comummente aceite, em profunda mutação. A missão dos que fazem parte da última geração analógica e têm de educar filhos que não “nativos digitais” nem sempre é fácil e torna-se particularmente complexa pela ausência de uma memória comum, neste campo. A forma como se comunica – sistematicamente, por impulso, quase por compulsão – e se procura uma hiperestimulação constante afeta profundamente as relações na família, na escola, na Igreja, na sociedade enquanto um todo. Há pouco tempo para ponderar os efeitos do que se diz, do que se comenta, do que se mostra, muito menos há tempo para medir o impacto dessa ação sobre o outro e admitir vagamente, sequer, que a proporcionalidade entre o que tenho a dizer e o impacto negativo dessa afirmação pessoal pode justificar, afinal, o silêncio.

Já antes manifestei preocupação com a evidente “trincheirização” do espaço público, no qual se valoriza cada vez mais o volume em detrimento do conteúdo, o ruído em vez da substância e as circunstâncias em vez da verdade. As posições são extremadas, o discurso é feito por norma a partir do papel de vítima e o diálogo torna-se impossível com o “opressor”, o “inimigo”.

Por outro lado, neste tempo, é cada vez mais difícil superar o tradicional preconceito do "não-produtivo". Dizia Fernando Alves, numa recente entrevista, que “andamos todos apressados a olhar para a floresta quando precisamos de tempo para contemplar as árvores”. Não é só no mundo jornalístico, mas é sintomático.

Falta valorizar o tempo de parar, pensar, refletir, criar. O tempo que nos torna capazes de dar, de significar e não apenas de produzir. 

Octávio Carmo

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