A poucos dias de começar a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) Cracóvia 2016, D. Joaquim Mendes, membro da Comissão Episcopal Laicado e Família que acompanha o Departamento Nacional da Pastoral Juvenil (DNPJ), aconselha os jovens a partirem com “o coração aberto” para o que pode acontecer na Capital da Polónia, para o que a experiência das jornadas “possa proporcionar”.

O também bispo auxiliar de Lisboa considera que a centralidade do Papa Francisco “é conduzir os jovens ao encontro com Jesus Cristo” e observa que o encontro mundial de jovens regressa “às origens, ao seu início” para que “mantenham a mesma frescura, o mesmo impacto e a mesma finalidade”.

D. Joaquim Mendes comenta e analisa também a “debandada” juvenil da Igreja em Portugal, expressão usada por Francisco em setembro de 2015 na audiência aos bispos portugueses.

 

Entrevista conduzida por Carlos Borges

 

Agência ECCLESIA – A Jornada Mundial da Juventude 2016 começa a 26 de julho. Que mensagem quer transmitir aos jovens que vão participar na JMJ mas também aos outros que não têm oportunidade de ir?

D. Joaquim Mendes (JM) – Parti com o coração aberto para fazer uma experiência de Jornadas Mundiais da Juventude, não é para ir fazer turismo, não é para estar mais perto do meu amigo ou com o meu grupo mas ir com o coração aberto aos outros, que eles vão encontrar nos pequenos ou grandes encontros. Abertos também à mensagem que o Papa trará, abertos a uma experiência de comunhão eclesial, a uma experiência da universalidade do mundo juvenil.

Ir com o coração aberto e até não criar muitas expetativas, porque às vezes fica frustrado porque não as alcançou. Ir com o coração aberto para aquilo que pode acontecer, para o que a experiência das jornadas possa proporcionar.

Às vezes temos surpresas mas quando vamos com tudo calculado e tudo programado, se calhar, nem o Espírito do Senhor tem espaço para nos levar para outros sítio ou proporcionar outra experiência.

Vai, participa, aceita as condições, e valorizar o positivo e deixar-se interpelar porque quando a gente vai de coração aberto deixa-se surpreender por Deus, que se manifesta. Foi uma experiência de grupo, a palavra do Papa, uma celebração e alguma coisa muda na nossa vida, nos transforma.

Quando vai fechado, já direcionados, fica privado, se calhar, de outras experiências mais ricas e profundas.

 

AE – D. Joaquim Mendes vai participar na JMJ, é um dos quatro bispos portugueses catequistas em Cracóvia. Que expetativas tem como participante e que importância assume este contacto como bispos catequistas?

JM – Para o bispo é também uma experiência forte cristã porque a fé do bispo cresce com a fé do povo de Deus e, naturalmente, também com a fé dos jovens.

A experiência que tenho, como sou Salesiano, a minha vida desenvolveu-se grande parte dela no mundo juvenil, estar com os jovens é sempre receber uma lufada de ar fresco. Eles também têm coisas para nos ensinar e a gente aperceber-se da realidade: Quais são as suas aspirações, quais são as suas dificuldades, quais são os seus limites.

Conhecê-los melhor para poder caminhar com eles, para os poder acompanhar e dar-se conta de como é a vida dos jovens nos diversos países, nas diversas realidades.

Ainda agora estive oportunidade de participar num encontro na Hungria, com os bispos das conferências episcopais que acompanham a Pastoral Juvenil e a Pastoral Universitária, e dei-me conta que a realidade dos jovens é diversa. Portanto, conhecer esta realidade global dos jovens e ver como é que depois nós na vida concreta podemos ajudar os padres, os animadores, os catequistas, a compreender esta realidade juvenil, a caminhar com os jovens não ao nosso ritmo, ao ritmo deles e os poder ajudar melhor.

Sem se conhecer, e conhece-se convivendo, estando, falando e escutando, rezando com eles, celebrando com eles a Eucaristia, escutando aquilo que são as aspirações do seu coração e traduzem em oração. Tudo isto para nós nos ajuda a participar, ou seja, tomar parte de uma realidade que é a realidade juvenil e não a ver da varanda, da janela, mas estar dentro, caminhar com eles.

 

AE – É a segunda JMJ que se vive com o Papa Francisco, depois do Rio de Janeiro 2013. Que expetativas existe deste encontro entre o Papa e os jovens e do que ele pode pedir, incentivar, motivar?

JM – Eu penso que a grande mensagem que o Papa vai dar aos jovens é que procurem seguir Jesus Cristo. Este Papa tem este carisma da proximidade, este carisma da simplicidade, este carisma de cativar e o carisma, sobretudo, da autenticidade.

Pelo que o Papa tem dito, quando se refere aos jovens, que sejam autênticos, sejam verdadeiros, que não tenham medo de seguir Jesus Cristo, que não tenham medo de ir contra a corrente, que vivam a sua fé enraizados Nele, que confiem, para que possam crescer felizes. O Papa centra muito a espiritualidade juvenil neste encontro com Jesus Cristo, neste seguir e descobrir. Em apostar em Jesus Cristo que não engana, não defrauda.

A centralidade é conduzir os jovens ao encontro com Jesus Cristo e segui-Lo com coração misericordioso. Serem canais e instrumentos da misericórdia de Deus no mundo de hoje, sobretudo em relação ao seu mundo juvenil, aos outros jovens.

 

Agência ECCLESIA (AE) – Em ano de Jornada Mundial da Juventude quais são as prioridades de ação, de formação/informação que deve ter o Departamento Nacional da Pastoral Juvenil e os respetivos secretariados diocesanos?

D. Joaquim Mendes (JM) – Como em todas as coisas, a participação depende muito da preparação. Primeiro preparar os jovens que trata-se uma peregrinação, de um encontro, é também um convívio mas não é prioritariamente um convívio. É uma experiência de fé, uma experiência de universalidade da igreja. É um contacto com outros jovens que como eles também creem em Jesus e é também um sentido desta visão da universalidade da Igreja caminhar juntos.

Portanto, uma preparação espiritual sobretudo sobre o tema das jornadas, a misericórdia, como é que se pode ser misericordioso… Ou seja, dispor o coração dos jovens para este encontro juntos, com o Papa e um encontro de celebração de fé, um encontro que reavive neles o desejo de seguir Jesus, a alegria de ser cristão, a alegria de ser misericordiosos, a alegria de comunicar aos outros uma mensagem que enche o seu coração e enche a sua vida.

 

AE – O DNPJ disponibilizou catequeses, organizou o périplo da Cruz da Evangelização pelas dioceses. O que destaca por exemplo dessas iniciativas?

JM – Destaco a experiência da Cruz. A experiência da cruz congrega os jovens e congrega à volta daquilo que é essencial do cristianismo, que é o amor de Jesus Cristo que teve a sua expressão mais eloquente na cruz.

A cruz simboliza o sinal mais eloquente do amor de Jesus por nós que nos chama a participar desse amor, a vivê-lo e a comunica-lo aos outros. Congrega os jovens à volta desta realidade que é Jesus Cristo, da celebração da fé, também de reforçar a identidade cristã, no sentido de pertença à Igreja, a experiência da comunhão eclesial. Esses momentos são importantes.

Para vivermos a fé, no quotidiano, na comunidade, nós precisamos de vez em quando ter alguns encontros mais alargados, encontros de massa, que nos façam sentir que não estamos sós, que somos muitos mais do que o nosso grupo, que há outros jovens que partilham o nosso ideal, que buscam Deus, a verdade, que seguem Jesus Cristo, que têm valores cristãos. Isto ajuda a fé também cresce por contágio e o sentido de Igreja.

 

AE – Referiu a importância do tema da Jornada Mundial da Juventude que este ano é ‘Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia’. O que na sua opinião deve dizer e incentivar os jovens a fazer hoje?

JM – O Papa no Jubileu dos Adolescentes, em abril, deu uma mensagem muito bonita que é “crescer misericordiosos”. Crescer com coração misericordioso; Crescer com coração que se compadece, que olha para os outros, que olha para a realidade que o envolve e depois essa misericordiosa se traduz em gestos. Uma boa maneira de vivermos a mensagem das jornadas é trazer para a vida, para a mente, para o coração e para a vida as Obras de Misericórdia que na prática são muito simples de viver o Evangelho e ao mesmo tempo são um cartão de identidade, da nossa identidade cristã.

Os jovens crescerem com coração misericordioso para tornar este mundo mais misericordioso. O Papa na Bula, número 12, diz que em cada comunidade cristã, onde houver um cristão deve-se criar um oásis de misericórdia. Que os jovens cristãos percebam esta misericórdia e tornem este mundo mais misericordioso, mais fraterno, mais amigo, mais solidário.

 

AE – O encontro mundial de jovens regressa à Polónia, terra-natal do Papa São João Paulo II, que foi o fundador da JMJ e é seu patrono. Qual a importância deste regresso?

JM – Regressar à Polónia com esta referência ao Papa João Paulo II é um voltar às origens das jornadas porque, ao longo do tempo, as jornadas podem perder um bocadinho a sua identidade e o objetivo com que foram criadas.

A Polónia tem estas duas referências: primeiro a figura do Papa São João Paulo II que é uma figura marcante. Foi uma figura marcante para os jovens, deu-lhes muita força e ajudou-os num caminho de autenticidade e coerência de fé, de ir contra a corrente.

Depois, outro aspeto é voltar às origens, ao seu início para que as jornadas mantenham a mesma frescura, o mesmo impacto e a mesma finalidade.

 

«Debandada», a pastoral juvenil em Portugal

AE – O ano pastoral que está a terminar começou com a expressão bastante divulgada e comentada do Papa Francisco sobre a “debandada dos jovens”, na visita Ad Limina dos bispos portugueses à Santa Sé, em setembro de 2015…

 JM – O discurso do Papa é decorrente dos relatórios que cada diocese enviou para o Vaticano. De facto, verifica-se que no pós-crisma há muitos jovens que abandonam. Não abandonam, vão à procura de outras novidades. Não é propriamente uma debandada vão à procura, já tiveram aquela experiência, nós vivemos num mundo global, há muita propostas, muitas sugestões. Vão à procura de outras novidades.

Depois, há um outro fator, que é a mobilidade. Há muitos jovens que terminam o percurso escolar no 12.º ano e vão para a universidade onde encontram lugar segundo os cursos que escolhem e as universidades onde ficam.

Não é para dramatizar, até porque nos pós-crisma, quando vão à procura de outras novidades, depois sentem que aquilo que os atraiu não os preenche voltam à experiência inicial. Temos muitos jovens que agora na pastoral universitária aderem às propostas da ‘Missão país’, que tomam parte dos núcleos de cristãos nas universidades, que realizam atividades.

Há um reencontro, com mais maturidade, com a experiência cristã que depois se consolida. Não podemos também ignorar que muitas vezes esta debandada se pode dever a uma iniciação cristã que não vinculou, nem à pessoa de Jesus, nem à comunidade cristã. A iniciação cristã não pode ser só doutrinal, tem de ser mistagógica, da experiência cristã. É uma iniciação à vida cristã tem que ser apoiada ou por uma igreja doméstica ou por uma igreja comunidade. Uma Igreja que acolha, que acarinhe, que acompanhe e onde os jovens se sintam como uma segunda família. Uma comunidade cristã na sua globalidade ou nos grupos onde estão.

Temos de repensar, se calhar, a iniciação à vida cristã e potenciar a parte mistagógica, a parte da experiência cristã e a parte da experiência comunitária. A comunidade é muito importante e a experiência na comunidade é muito importante. Os adultos mostrem aos jovens como se vive a vida cristã e como se pode ser feliz, por exemplo na vocação matrimonial.

 

AE –A Igreja fala a mesma linguagem dos jovens hoje?

JM – Mais importante é escutá-los e compreender como é que formulam os seus problemas e as suas questões na sua linguagem e também nos seus silêncios. Não é só o que eles dizem, é também no silêncio.

Há uma linguagem que é universal que é do amor cristão. O meu fundador, São João Bosco, o apóstolo da juventude – João Paulo II enquanto Papa chamou-lhe pai e mestre da juventude – dizia uma coisa muito importante: Que a gente não lhes diga só que os ama mas que sintam; e dizia também que a educação é uma coisa do coração.

Quando nós os escutamos e muitas vezes acolhemos o que dizem, sem julgar, sem condenar, sem ter logo receitas ou discursos moralizantes, é estabelecer um diálogo existencial com eles. É um amá-los incondicionalmente e respeitar a sua liberdade e ajudá-los a amadurecer opções de forma gradual, progressiva, com avanços e recuos.

A pastoral juvenil não pode ser só uma pastoral de atividades.

 

AE – O que é a pastoral juvenil?

JM – A pastoral juvenil tem de ser uma pastoral de processos, de acompanhamentos, de rezar com eles, de os escutar, de estar disponível para quando eles ligam, quando mandam um email, e, sobretudo, valorizar muito o encontro pessoal. Os meios de comunicação aproximam-nos, mas não nos tornam mais irmãos, e acompanhá-los em todos os momentos da vida.

Os jovens devem saber que no animador, no padre, têm alguém que os escuta, que os ama, e que tem sempre a porta aberta. É aquela imagem do pai misericordioso que São Lucas nos conta no capítulo 15: ficamos muitos tristes quando não vêm ou voltam as costas, mas ficamos sempre à espera.

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