D. Manuel Linda

Segundo ele próprio me contou, um amigo meu começou a sentir um incómodo numa perna, cada vez mais acentuado: primeiro era um ligeiro torpor, depois passou a dor e dificuldade de «fazer força» nela, até chegar a uma certa paralisia. Recorreu a um médico privado, com boa fama, que lhe pintou a coisa de negro: que isso teria a ver com a coluna, que poderia ser degenerativo, que não esperasse recuperação. E mandou-lhe fazer exames, muitos exames.

Vendo a coisa mal parada devido ao volume dos meios de diagnóstico e ao que isso lhe custaria, o meu amigo, prudentemente, recorreu ao médico de família que o encaminhou para um ortopedista das consultas externas. Como era previsível, este preceituou-lhe uma bateria de exames. Obviamente, tudo isto demorou muito tempo. Tanto que o primeiro médico esqueceu.

É neste contexto que o meu amigo se lembrou de um acidente de trabalho, sofrido alguns anos antes. Acudiu ao médico da empresa que o encaminhou para a seguradora.

Qual não é o seu espanto quando viu que o médico que o atendeu, afinal, era o primeiro a quem tinha recorrido. Mas, passado tanto tempo, o clínico não reconheceu o antigo paciente. Era a mesma pessoa, embora a postura tivesse mudado do dia para a noite: enquanto, na clínica privada, era todo sorrisos e simpatia, agora, na seguradora, usou de uns modos tão exasperados e de uma cara tão furiosa que mais fazia lembrar dois inimigos, frente a frente, que as circunstâncias obrigassem a confrontar e digladiar.

Porém, a grande surpresa viria de seguida. Com toda a convicção sentenciou que isso não era nada, que qualquer pessoa sente as pernas cansadas, que nada provava a relação causa-efeito do tal acidente, enfim, que a seguradora não iria fazer nada por esse caso. E o meu amigo teve de recorrer ao tribunal de trabalho que lhe atribuiu uma elevada percentagem de invalidez.

O que mais chama a atenção neste caso é a camisa-de-forças em que o médico se encontra: por um lado, ele precisa de ganhar a vida e de procurar trabalho onde lho dão; mas, como assalariado, a seguradora só o contrata enquanto lhe der lucro. E o lucro, neste caso, passa por evitar, a todo o custo, qualquer possível gasto com os segurados ou assumir responsabilidades que conduzam a indemnizações.

Evidentemente, este caso funciona apenas como exemplo. Porque a realidade da economia, pelo menos nas grandes multinacionais, faz-se quase sempre dessa forma: gestores e outros quadros elevados são pagos a peso de ouro para «declararem guerra» ao consumidor e lhe extorquir o máximo em troca dos serviços ou produtos tão mínimos quanto possível.

Ah, grande Papa Francisco! Como é verdadeira essa frase que, só por si, já poderia marcar a grandeza de um pontificado: “Esta economia mata”! Mata os que estão por baixo, os pobres, os que não têm forças para se defenderem deste novo monstro que declarou guerra à pessoa concreta, pois só lhe interessam os números dos balancetes e o «índice de desempenho» dos que são pagos para lhe fazerem o jogo.

Até quando?

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