Tony Neves

O Papa Francisco não se cansa de nos surpreender. Desta vez, lança-nos o desafio de vivermos com mais seriedade o espírito das Bem-Aventuranças. Este belo texto de S. Mateus, considerado uma das pérolas da literatura universal, termina com a frase: ‘Alegrai-vos e Exultai’. Ora, este foi o título que o Papa deu à Exortação Apostólica que é uma espécie de ‘Manual de Espiritualidade’ para os tempos que correm.

O tema central é a santidade de vida que deve marcar o nosso agir quotidiano. O Papa não tem medo de remar contra ventos e marés e propor um modelo de santidade cristã que se opõe, claramente, aos modelos de felicidade que circulam por aí e que a todos nos marcam. Regra geral, quando se apresentam propostas de felicidade, apontam-se modelos marcados pelo consumismo e pelo egoísmo. O Papa Francisco arrasa estas perspetivas que não aproximam de Deus e que geram cada vez mais pobres e excluídos. Diz: ‘se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabamos por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar’.

A santidade cristã hoje tem de favorecer o encontro entre as pessoas, gerando fraternidade. Por isso, o Papa rejeita todas as atitudes que demonstram superioridade. Quando nos sentimos mais santos e melhores que os outros, achamo-nos no direito de julgar e humilhar os irmãos. Isto é contra todos os princípios de santidade.

A santidade não se alcança na solidão, no caminho meramente individual, na apatia para com os outros. Pelo contrário, salvamo-nos em comunidade e temos uma obrigação clara de solidariedade para com todos os pequenos e pobres que vivem nas periferias e margens da história das nossas sociedades. É decisivo o nosso olhar de compaixão para aqueles que mais sofrem, a quem somos obrigados a aliviar as dores.

Vivemos tempos marcados pela vertigem e velocidade que nos imprimem na vida as tecnologias, sobretudo a da comunicação. O Papa Francisco lança um aviso à navegação: ‘Tudo se enche de palavras, prazeres epidérmicos e rumores a uma velocidade cada vez maior; aqui não reina a alegria, mas a insatisfação de quem não sabe para que vive’. É urgente parar para reflectir e mudar na vida o que não leva à felicidade. É preciso fugir deste ‘zapping constante. É possível navegar simultaneamente em dois ou três visores e interagir ao mesmo tempo em diferentes cenários virtuais. Sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetes à mercê das tendências da ocasião’.

O Papa pede ainda preocupação constante com a vida, com os migrantes, com quantos se sentem perseguidos e ameaçados. E lembra – é sempre bom recordar isto – que a santidade não é um exclusivo de Papas, Bispos, Padres e Religiosos/as. É dom de Deus a todos os humanos que queiram fazer das páginas do Evangelho uma Palavra de Vida.

 

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