Padre António Rego

Quando me foi pedido para escrever algumas linhas sobre Paulo VI, santo inquestionável, logo pensei em recorrer à memória que trazia no coração dos meus tempos de juventude, em vez de revirar pedaços de história fria que, mesmo sendo mais rigorosa que as minhas hipotéticas divagações, não traziam, a meu ver, a temperatura da experiência, do afeto e da memória.

João XXIII havia aberto a porta do coração da história do século XX, com uma inteligência, um rigor e uma eclesialidade que fizeram época, marca divisória entre dois tempos, olhares complementares sobre a Igreja e mundo, encontro fraterno entre o antigo e o novo, exorcismo vigoroso sobre tantas maldições que pesados tempos haviam alimentado e que tiveram a sua agonia final no grande Concílio do século XX. Aí se abriu nova página e se escreveu novo tempo religioso e laico. A Igreja não caminhou só. O Espírito havia distribuído muitos dos seus dons por lugares e pessoas impensáveis alguns tempos antes. A história provocou um estrondo e fez em estilhaços muitos dos dogmatismos e preconceitos que geraram angústias durante muitos anos.

Claro que foi o Espírito que renovou a face da Igreja e fez com que fixasse os olhos no homem concreto, não para o condenar mas anunciar, de novo, a Boa Nova, distribuindo-a por todos os corações, mesmo não usavam a mesma linguagem mas tinham um mesmo coração oriundo do mesmo Deus e salvo pelo mesmo Jesus.

Quem teve a dita de acompanhar estes dois tempos da Igreja, o ante e o pós Concílio, compreende e abraça melhor esta esperança num olhar de promessa viva, apesar de ainda gemer no arrasto dos seus pesos e na fraqueza dos seus pecados.

Partilhar:
Share