1. Refere uma indicação do Pontifical Romano acerca da Ordenação dos Presbíteros que o Bispo faz a homilia, dirigindo-se ao povo e aos Eleitos, falando-lhes do ministério dos presbíteros, a partir do texto das leituras lidas na liturgia da palavra (n.os 123 e 155). É o que vou tentar fazer, amados irmãos e irmãs, caríssimo Eleito Vítor Manuel, caríssimos sacerdotes e diácono, caríssimos acólitos, leitores, cantores.

 

  1. O bocadinho do Evangelho de S. Marcos, que tivemos hoje a graça de escutar nos nossos ouvidos e no nosso coração, não pode deixar de mexer connosco até ao osso. Bem vistes que o Evangelho nos oferece duas cenas sublimes, dois milagres de Jesus relatados de forma entrelaçada, um dentro do outro: o relato da cura de uma mulher que há doze anos sofria de uma hemorragia (Marcos 5,25-34), dentro do relato da chamada «ressuscitação» da filhinha de Jairo (Marcos 5,22-24.35-43).

 

  1. Habitualmente, ouvindo estes episódios de milagres realizados por Jesus, realçamos a substância, fazendo ver a dinâmica, o dinamismo extraordinário que há em Jesus, e que opera maravilhas. De resto, o próprio Jesus faz saber, na cena da mulher que sofria de uma hemorragia incurável, e que às escondidas toca no seu manto, que sentiu uma força (o texto grego diz dýnamis), portanto, um dinamismo, que saiu dele (Marcos 5,30). Mas hoje, como quer o Pontifical Romano, importa conduzir a levada da liturgia da palavra para dentro do ministério dos presbíteros. É o que vou tentar fazer, esforçando-me por conduzir o dinamismo da palavra de Deus para dentro da minha vida, da vida do Vítor, da vida dos sacerdotes, da nossa vida, amados irmãos e irmãs, povo de Deus todo sacerdotal e santo.

 

  1. Neste contexto, faço notar em primeiro lugar que Jesus está rodeado e literalmente comprimido e apertado pelos seus discípulos e por uma grande multidão. Do meio desta roda cerrada de pessoas, vê-se melhor quem vem de fora. Vem Jairo, um homem importante e conhecido. Consegue rasgar a multidão, vem prostrar-se aos pés de Jesus, e diz e diz e volta a dizer que a sua filhinha (tygátrion: diminutivo de tygátêr) está a morrer, e pede e pede e volta a pedir a Jesus que lhe vá impor as mãos para a curar. À vista de todos fica o muito carinho e a grande aflição que movem este pai por causa da sua filhinha gravemente doente. Mas fica também a humildade de pedinte que arrasta este homem ilustre até Jesus, em quem deposita toda a sua fé e confiança! Jesus não diz nada. Mas faz muito. Foi com ele (met’ autoû) (Marcos 5,24). Companheiro silencioso e atento no meio de nós. Primeira lição importante para os meus irmãos no sacerdócio ministerial, para este Eleito, e para o povo de Deus, todo sacerdotal e santo: silencioso e atento, Jesus acolhe as nossas súplicas, põe a sua mão no nosso ombro, está no meio de nós sempre, vai connosco sempre, está lá sempre, está cá sempre!

 

  1. Põe-se esta multidão cerrada em movimento, acompanhando Jesus e Jairo. Vem uma mulher anónima, que discretamente se vai metendo por entre aquela multidão cerrada. Sofria de uma hemorragia incurável. Era uma mulher impura. Não queria nem podia dar nas vistas, não podia tocar em ninguém. Sendo impura por causa da hemorragia, tudo o que tocasse ficava impuro. Tinha ouvido falar de Jesus, e sabia que lhe podia confiar o seu problema. Pensava mesmo que nem era preciso dizer-lhe; sabia que se lhe conseguisse tocar, ainda que só na orla do manto, ficaria curada. E nada melhor do que uma multidão cerrada, para poder tocar no manto de Jesus, aproximando-se por trás, enrolada na sua dor, sem ser notada. Assim pensava, e assim o fez. Segundo ponto alto e implicativo para nós, amados irmãos no sacerdócio, amado Eleito, povo sacerdotal e santo, amado por Deus: ouve-se pela primeira vez a voz de Jesus, que pergunta: «Quem me tocou no manto?» (Marcos 5,30). Resposta óbvia e rápida dos discípulos de Jesus: «Repara na multidão que te rodeia e aperta, e ainda perguntas: “Quem me tocou no manto?”» (Marcos 5,31). Salta à vista a banalidade desta intervenção desajeitada dos discípulos de Jesus neste momento alto em que Ele fala pela primeira vez no relato! Por isso também, Jesus não deu qualquer atenção ao dizer banal daqueles discípulos, que só veem por fora, e continuou a olhar à volta, porque quer salientar, isso sim, a grande fé daquela pobre mulher. É verdade, caríssimos irmãos no sacerdócio, caríssimo Eleito, amados irmãos e irmãs, povo sacerdotal e santo: quantas vezes nós também só vemos por fora e dizemos, não o Evangelho, mas banalidades!

 

  1. Quanto àquela pobre mulher anónima, mas descoberta e amada por Jesus, descoberta porque amada, ela veio prostrar-se diante d’Ele, disse-lhe a verdade, e ouviu de Jesus uma palavra única, única vez dita no feminino em todos os Evangelhos: «Minha filha!», e acrescentou: «a tua fé te salvou, vai em paz!» (Marcos 5,34). Aí está, amigos, outra vez a provocação: a nós são-nos pedidas, não umas palavras quaisquer, vulgares e superficiais, banais, mas palavras únicas, inauditas, divinas! Carregadas de ternura, de salvação, de esperança, de perdão, de caminhos novos!

 

  1. Vem logo alguém da casa de Jairo para dizer outra banalidade: «A tua filha morreu; não importunes mais o Mestre» (Marcos 5,35). Reparai bem, irmãos e irmãs, se isto é coisa que se diga a um pai, que acaba de perder a sua filhinha! Outra vez, é Jesus que diz a Jairo a palavra inaudita a rebentar de ternura e de esperança: «Não tenhas medo! Crê somente!» (Marcos 5,36). Chegados à casa de Jairo, o que se ouve e vê são choros e lamentações. É muitas vezes só o que sabemos fazer face à morte! Mas Jesus reprova este comportamento meramente exterior, e diz-nos que há mais para fazer e para dizer. Entra na casa, pega na mão da menina, fala para ela, e levanta-a da morte! E diz-nos a nós para não dizermos agora nada (Marcos 5,43). Como quem diz, como quem nos diz, que a seu tempo virá o tempo e o modo de falar da vida eterna e plena da sua e nossa Ressurreição! Será então o tempo e o modo novo do Espírito a falar em nós (Marcos 13,11), e a abrir em nós novos e insuspeitados caminhos. E nós todos, que aqui estamos hoje reunidos, somos todos desse tempo e desse modo! O tempo e o modo da missão da Evangelização. Aí está, meus irmãos no sacerdócio, caríssimo Eleito, amados irmãos e irmãs, povo sacerdotal e santo, o inaudito e o divino que devemos dizer e fazer acontecer. E neste tempo e modo da missão, com Jesus e o Espírito Santo, devemos estar bem atentos e saber bem que cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água por amor dado conta! Assim Deus nos ajude! Amém!

 

Lamego, 1 de julho de 2018

D. António Couto, bispo de Lamego

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