Objetivo é ajudar «a derrubar muitos dos preconceitos» que marcaram este documento da Igreja, diz o padre italiano Gilfredo Marengo

Cidade do Vaticano, 13 jul 2018 – A encíclica ‘Humanae Vitae’, que o Papa Paulo VI dedicou ao tema da regulação da natalidade, está a ser retomada 50 anos depois através de um livro do padre italiano Gilfredo Marengo.

Em entrevista ao portal Vatican News, o autor e professor no Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimónio e da Família realça que um dos objetivos foi “reconstruir” o caminho traçado até à publicação da encíclica, para ajudar “a derrubar muitos dos preconceitos que se acumularam ao longo dos anos”, relativamente a este documento.

“Muitas polémicas e opiniões críticas nasceram da especulação sobre a sua composição”, salienta o sacerdote.

Publicada a 29 de julho de 1968, a encíclica ‘Humanae Vitae’, ou em português ‘A Vida Humana’, demorou cinco anos a ser concluída e dividiu opiniões na Igreja Católica.

Sobretudo entre aqueles que esperavam uma abordagem mais progressista à questão da procriação, na linha de outras temáticas abordadas pelo Concílio Vaticano II (1963 – 1965).

Entre outros pontos, o Papa Paulo VI reforçou a tónica dos métodos naturais como aqueles que melhor traduzem o plano de Deus para os casais, na construção do seu amor e de uma vida em família.

Sublinhou também a posição da Igreja Católica, que ainda hoje se mantém, perante questões como o uso de contracetivos ou o recurso ao aborto.

“Para muitos que contestaram a Humanae Vitae, é claro o preconceito de que tudo que tinha sido feito antes do Concílio não teria mais valor”, realça o padre Gilfredo Marengo, que dá também conta da falta de unanimidade que marcou por vezes o trabalho dos consultores que colaboraram na elaboração da encíclica.

Com o título ‘O nascimento de uma encíclica – A Humanae Vitae à luz dos Arquivos do Vaticano’, a obra do sacerdote italiano foi concretizada através de “uma especial derrogação do Papa Francisco que possibilitou o acesso aos arquivos antes dos 70 anos previstos”.

Através desta pesquisa percebe-se por exemplo que existiu “uma primeira versão da encíclica que depois foi cancelada”.

É possível verificar ainda que foi feita “uma consulta sinodal sobre os métodos de regulação da natalidade, durante o primeiro Sínodo dos Bispos no final de 1967”.

“A pesquisa permite também uma abordagem mais objetiva da encíclica pois acaba com dois mitos sobre seu autor”, acrescenta o padre Gilfredo Marengo.

Segundo aquele especialista, “não é verdade que Paulo VI tenha trabalhado sozinho: ao contrário fez questão de receber todas as sugestões possíveis e consultou os bispos”.

Assim como também “não é verdade que o Papa tenha sido tomado pelas dúvidas, as suas ideias estavam amadurecidas desde o início”.

“O Papa Montini sempre consultou todos seus colaboradores sobre a melhor forma de apresentar, de modo positivo, o seu trabalho. E é preciso dizer que seus colaboradores nem sempre souberam estar à altura dessa exigência”, sublinha o sacerdote italiano.

JCP

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