D. António Augusto Azevedo, presidente da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, fala das principais marcas deixadas pela assembleia que o Papa dedicou às novas gerações e do impacto desejado de uma nova cultural vocacional nas comunidades católicas.

 

Foto: Ricardo Perna/Família Cristã

Entrevista realizada em parceria para a Agência Ecclesia, Família Cristã, Flor de Lis, Rádio Renascença e Voz da Verdade, com o apoio da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre

 

Que experiência o marcou mais neste Sínodo?

O sínodo em si próprio é uma experiência marcante para um bispo, porque sublinha e faz experimentar uma dimensão importante no ministério dos bispos que é a dimensão da comunhão episcopal. Muitas vezes ficamos só com a dimensão de cada bispo na sua diocese, mas o bispo faz parte do colégio episcopal.

Um Sínodo é porventura das maiores experiências de vivência dessa comunhão episcopal com os bispos de todo o mundo. Essa é uma primeira experiência que, de facto, é inesquecível e muito marcante.

Uma tradução concreta dessa comunhão episcopal é a proximidade com o bispo de Roma. É o Papa que convoca o Sínodo, mas o modo como ele pensa, prepara e está no Sínodo é muito importante. Ele esteve em cada dia a receber e cumprimentar as pessoas, e o modo como esteve em cada sessão plenária, estando a ouvir a partilha e os contributos e as propostas de cada um dos bispos e não só é um testemunho muito marcante, isto é, não basta dizer que se ouve, ou propor a escuta como caminho e exercício.

 

Impressionou-o a forma de estar do Papa?

O Papa Francisco, para mim pessoalmente, foi um testemunho do que é saber escutar. Ouvir as pessoas, ter tempo para ouvir as pessoas, e com atenção, não com enfado ou distração. Um aspeto muito curioso deste Sínodo foi o de haver pausas de silêncio entre as intervenções, um silêncio que ajuda a profundar a escuta para que as experiências e as palavras, de facto, toquem fundo.

Essa presença do Papa e o modo como estava no meio dos bispos de facto foi um sinal, uma experiência muito concreta da relação que há dos bispos com o Papa Francisco e os que com ele colaboram na Cúria. Permitiu um maior conhecimento sobre o que é a Igreja de Roma, que tem como missão ser sinal de unidade para a Igreja Universal.

Depois, uma outra experiência muito concreta foi a experiência de diálogo com os outros bispos. Um sínodo, pela abrangência que tem, permite conhecer a realidade da Igreja Universal, e esse conceito de Igreja universal é um conceito que temos na teoria, mas que o sínodo nos permite experimentar na prática, isto é, conhecer e ouvir o que é a vida das várias igrejas pelo mundo.

 

Foi um sínodo mais preocupado em falar de realidades fora da Europa…

Para nós, ou para mim pessoalmente, esta experiência faz-nos muito bem, porque sentimos e percebemos que vivemos muito absorvidos por uma atitude e uma visão muito eurocêntrica, e de facto a realidade da Igreja hoje é uma realidade cada vez menos centrada na Europa. A vida, a experiência e a força da Igreja noutras partes do mundo impressiona-nos. As lamentações que temos, o realismo com que vamos vendo aquilo que se passa à nossa volta contrasta muito com outras realidades.

A realidade da Ásia é uma realidade que nos impressiona, África em muitas regiões, a América Latina sobretudo… faz-nos muito bem ouvir o que é a vida da Igreja nestes lugares, no caso concreto a vida da Igreja no que diz respeito à participação dos jovens.

São sociedades com mais jovens, maior presença de jovens na sociedade e na igreja, e ouvir esses testemunhos faz-nos muito bem até para percebermos qual é a realidade da Igreja hoje. Alarga muito horizontes, e o sínodo permite isso, por um lado, e por outro lado a relativizar um bocadinho algumas das questões que nos vão desgastando e ocupando, e que nos fazem perder algumas energias.

Sob esse ponto de vista, o sínodo foi também uma experiência muito concreta daquilo que o Papa Francisco tem dito desde a Evangelii Gaudium, que é a conversão missionária da Igreja. Se há aspeto em que essa conversão é importante é no acolhimento e trabalho com os jovens. Portanto, também esse aspeto foi muito marcante.

 

A assembleia contou com uma participação inédita dos próprios jovens…

O diálogo com jovens de tantas partes do mundo permitiu-me a mim, e aos meus irmãos bispos, conhecer não só a realidade dos jovens em muitos contextos. Dou só 2 ou 3 exemplos que foram muito destacados. A questão das migrações. Podemos falar do fenómeno dos migrantes de um modo geral, mas esse fenómeno, se virmos com atenção, diz respeito sobretudo a jovens.

Os jovens, seja dentro dos países, seja esta migração que vem de África para a Europa, é feita sobretudo por jovens. Outros aspetos têm a ver com a pobreza, outros fenómenos que causam sofrimento noutras sociedades, como a violência, etc, e que afetam basicamente jovens. Portanto, quer esses aspetos mais preocupantes, quer, sobretudo, e deixe-me sublinhar isto, as experiências mais positivas, de movimentos, grupos, iniciativas e projetos de vária ordem, sociais, eclesiais, mas também no que diz respeito à escola e a universidade… tantas iniciativas interessantes que se vão fazendo pelo mundo fora, iniciativas muito lideradas e propostas pelo jovens, onde eles estão muito empenhados.

Foi bom ouvir e conhecer tanta coisa boa que se vai fazendo. Às vezes só valorizamos as dificuldades, mas é bom valorizar o que de muito bom se vai fazendo, sobretudo quando vivemos num contento como é o nosso, e temos de perceber isso nós, portugueses, em que há algum tipo de facilidades.

Ouvir estes testemunho de jovens em contextos muito difíceis, em países onde a Igreja é muito minoritária, em contextos de grande pressão e perseguição à própria Igreja, contextos em que a situação social e política é muito difícil, como a Venezuela e outros países, de facto aí é possível dar mais valor a jovens muito empenhados na sociedade, em várias causas, mas também na vida da Igreja. Foi também uma experiência muito interessante.

 

De regresso ao Porto, de que forma é que este contacto com diferentes realidades e iniciativas vai transformar a sua visão enquanto bispo?

Para mim pessoalmente, e enquanto delegado da CEP, fica uma primeira preocupação: este sínodo foi diferente, no sentido em que ainda estamos em pleno processo. Houve uma primeira fase de preparação, em que os jovens tiveram uma grande intervenção, e é importante reler o que eles disseram, sobretudo em Portugal, nas dioceses, tivemos agora a fase da sua celebração, mas o sínodo não termina com sua celebração. Vamos entrar na última fase do Sínodo que é a sua aplicação no terreno. Isto ainda é sínodo.

O Documento final é um documento inspirador para que cada país e cada diocese o trabalhar no terreno com os jovens, para pôr em prática, no seu contexto próprio, muitas daquelas inspirações.

A primeira preocupação é como aplicar, como reunir as pessoas, que passos dar para aplicar este Sínodo; um segundo aspeto é que um sínodo, pelo menos no que já foi realizado, é sempre um desafio a uma renovação. No caso concreto dos jovens, e na questão fundamental que é a questão da fé e com a sua consequência que é o despertar para a dimensão vocacional, digamos que tudo isso deve significar uma conversão.

É importante e fundamental, e seria uma oportunidade perdida se assim não fosse, a Igreja em Portugal voltar a olhar para os jovens, nesta nova perspetiva que é, em primeiro lugar, valorizar o papel dos jovens como uma parte importante da Igreja, como sujeitos da ação pastoral. Muitas vezes só os vemos como alguém que recebe, mas não; há felizmente muitos jovens na vida da Igreja, nos movimentos, nos grupos, nas atividades, muitos jovens que fazem o percurso de iniciação à fé até ao crisma, e é importante contar com eles.

Este Sínodo procurou reforçar a confiança nos jovens e dizer-lhes que podem confiar na Igreja. A Igreja reafirmou que confia nos jovens, este trabalho é com eles. Por outro lado, deixar mais claro que a dimensão missionária também conta muito com eles. É importante que, com os jovens, a Igreja tenha um rosto mais belo e mais jovem, como disse o Papa em Fátima.

Nós estamos habituados a um rosto mais idoso, mas este é um rosto fundamental da Igreja. A presença dos jovens nos vários meios é uma presença da Igreja. Também aqui há que afinar, atualizar, algumas perspetivas e algumas práticas.

Os jovens cristãos são a grande presença da Igreja em vários âmbitos, na escola, na universidade, em vários grupos e associações, e também no ambiente digital, em que hoje os jovens vivem. O Evangelho e a presença da Igreja passam basicamente por eles, e no sínodo verificámos que muitas das melhores coisas que se têm feito partem muito dos jovens que, junto dos seus amigos, são um grande sinal da presença de Deus, e há coisas muito bonitas nesse capítulo. Há muitas coisas a mudar, e o sínodo deu e continuará a dar um grande impulso.

 

Depois do Sínodo, vale a pena que a língua portuguesa se mantenha como língua de trabalho das assembleias sinodais?

Eu acho que sim. Foi uma experiência bonita, e foi sublinhada a gratidão para com o Papa e a secretaria geral por se poder falar a língua portuguesa. Importa destacar não só que somos muitos milhões de cristãos a falar a língua portuguesa, mas também que somos muitos bispos a falar a língua portuguesa. Foi um sinal muito positivo, e descobrimos com grande agrado que há outras pessoas que falam português, ou percebem português, e sobretudo a marca do português que não é só a língua de um país, mas de vários.

Um facto curioso foi o de percebermos em muitos bispos, sobretudo da Ásia, apelidos portugueses. A nossa língua não se esgota apenas numa língua de trabalho, que permitiu ter um círculo menor de língua portuguesa, e foi muito interessante o debate, que permitiu estabelecer laços mais fortes com os outros bispos, mas digamos assim, também nos ajudou a reconhecer muitos noves de bispos de língua portuguesa. Sinal que os cristãos e os missionários portugueses estiveram em muitas partes do mundo, e isso é muito bonito.

 

Sentiu a falta de ter um jovem português no Sínodo?

Os jovens portugueses tiveram uma presença importante no pré-sínodo. No Sínodo, a intervenção teria sido sempre mais limitada. Mas os jovens tiveram sempre presentes no Sínodo, uns representantes, outros em oração, outros em comunicação, estiveram sempre presentes.

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