Não foi indiferente o modo como o Papa Paulo VI falou de si mesmo. Ele mesmo diz que não é só o «chefe» do colégio apostólico, mas também o «irmão» de todos os bispos. O Papa recorda que o II Concílio do Vaticano, sem retirar o que quer que seja à doutrina do concílio anterior sobre prerrogativas do sucessor de Pedro, deve “completar o enunciado dessa doutrina e tornar públicas as prerrogativas constitucionais do episcopado”.

A cerimónia de abertura da terceira etapa do II Concílio do Vaticano (1962-65), realizada numa segunda-feira de manhã, na Basílica de São Pedro, deu “a prova palpável de que o concílio já mudou qualquer coisa na Igreja romana” (Henri Fesquet – O Diário do Concílio, Volume II, página 22). O autor da obra editada pelas publicações Europa-América afirma: “Que diferença entre a liturgia deste dia e a que inaugurara a primeira sessão! A solidão do Papa desapareceu em proveito de um coro de vinte e cinco prelados – um deles o bispo de Roma – que celebraram conjuntamente ao mesmo nível, com a mesma voz e quase os mesmos gestos, a Eucaristia”.

Os trabalhos conciliares da III etapa começaram com a celebração (14 de setembro de 1964) e o discurso do Papa Paulo VI. A concelebração estava em vigor no Oriente, mas tornou-se cada vez mais rara na Igreja latina desde o século XII. Restaurando-a, o II Concílio do Vaticano quis manifestar claramente a unidade do sacerdócio e o fim de um “certo estilo de piedade demasiado individualista”, (Henri Fesquet – O Diário do Concílio, Volume II, página 23).

Enquanto se alternava o canto do salmo 131 com o «Tu es Petrus» repetido pela assembleia, Paulo VI deu entrada na Basílica precedido pelos 24 concelebrantes. Para que os concelebrantes pudessem conservar-se ao mesmo nível em torno do Papa durante a missa foi necessário transformar completamente o «altar da Confissão», dominado pelas célebres colunas de Bernini. Momento particularmente significativo foi aquele em que as cinquenta mãos dos concelebrantes se estenderam simultaneamente sobre as três grandes hóstias e sobre o cálice antes da consagração, cuja fórmula foi recitada em comum.

Não foi indiferente o modo como o Papa Paulo VI falou de si mesmo. Ele mesmo diz que não é só o «chefe» do colégio apostólico, mas também o «irmão» de todos os bispos. O Papa recorda que o II Concílio do Vaticano, sem retirar o que quer que seja à doutrina do concílio anterior sobre prerrogativas do sucessor de Pedro, deve “completar o enunciado dessa doutrina e tornar públicas as prerrogativas constitucionais do episcopado”. (Henri Fesquet – O Diário do Concílio, Volume II). No seu discurso, Paulo VI citou a fórmula do Papa Gregório Magno evocada por ocasião de uma intervenção no decurso da sessão precedente: “A minha honra é a força dos meus irmãos” e disse aos bispos que eles são “os mestres, os pastores, os santificadores do povo cristão”, exprimindo-lhes o seu “respeito” e a sua “solidariedade”.

Paulo VI serviu-se duas vezes da palavra “colegialidade” a propósito da autoridade episcopal, tornando assim definitivamente legítima essa expressão “há pouco contestada por certos padres do concílio” (obra citada anteriormente). Finalmente, falando da “restauração da unidade” das igrejas e empregando a palavra “pluralismo”, Paulo VI saudou os observadores e os hóspedes não católicos, “sem se esquecer de fazer alusão às igrejas ortodoxas que julgaram não dever mandar os seus representantes”.

No início e no fim da cerimónia, Paulo VI foi transportado, como era usual, na «sedia gestatória», mas o modelo utilizado na circunstância, muito mais simples que de costume, não se apresentava cercado de «flabelos».

LFS

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