Padre António Rego

Terão os adultos direito de falar sobre os jovens? Que sabem eles,além duma lista de bons conselhos que o mundo otimizado lhes sugere sem a frescura do real ou a dureza do quotidiano experimentada por um universo jovem que joga noutro xadrez e se refere em parâmetros que os adultos não têm capacidade de atingir?

Não é novo este problema ou,dizendo melhor, esta realidade a que muitos chamam problema mas que é uma riqueza da história que se encarna nos jovens mas expressa em diferentes estilos e acontece desde tempos longínquos.Sabemos algumas coisas pela escrita mas adivinhamos muitas outras pelos sábios que nos foram dando notícias da evolução.

Tenho sentido nas notícias e comentários sobre o Sínodo dos jovens este olhar paternalista de que tem muito a ensinar a jovens e pouco a aprender deles.E a razão é que “sempre foi assim e assim será”.Faz falta humildade aos adultos,mesmos aos “especialistas” em juventude. Todos têm muito a olhar e ouvir antes de pronunciarem as sentenças e ordenarem a sequência pesada de conselhos.Importa olhar a realidade integrada no tempo,na cultura e na evolução da história.A capacidade de acolher a surpresa e a disponibilidade para a reaprendizagem constante da vida são dados fundamentais para criar uma tradição criativa que surpreenda as novas gerações fazendo-as descobrir e amar o seu tempo a sua novidade,as descobertas,as linguagens e percepções da história que vão herdando e reconstruindo. O cristianismo ocupa aqui um lugar central.

Para além dos muitos recursos pedagógicos disponíveis exige-se uma atitude humilde de acolhimento do novo e uma inesgotável capacidade de escuta,mais importante que o amontoado de conselhos que se pretende precipitar mesmo antes de ouvir os mais novos e de ensaiar a aprendizagem dos sinais que continuamente emitem.

Com os dados disponíveis,não sabemos o que será um Sínodo sobre os jovens.Nem adivinhamos se a sua realidade chegará à mesa dos representantes da Igreja.Certamente para muitos já estará pronto antes de começar porque muitos adultos mesmo no interior da Igreja,dos jovens não têm mais que preconceitos. Muitos dos seus discursos já trazem as conclusões antes das permissas. E assim se poderá chegar a recomendações fabricadas sobre preconceitos moralistas onde a consideração da realidade e das potencialidades dos jovens nem chega a aflorar a realidade pois parte de pressupostos optimizadas pela boa vontade ou por um moralismo fechado na lista interminável de deveres com desconhecimento dos atores que os deverão cumprir.

Eh pois esta realidade que desejamos seja ponto prévio de todas as reflexões,exortações e bons conselhos.E que não paire nas nuvens para que muitos projectam os jovens quando se trata de os motivar para viver à luz do Evangelho.Cuidado para se não confundir um Sínodo sobre os jovens com um tratado sobre os anjos.

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