Tony Neves

Faz 30 anos que o Parlamento Europeu lançou o Prémio Sakharov para atribuir a pessoas que, de forma corajosa, dão o corpo às balas na defesa dos direitos humanos. E, ao celebrar 30 anos deste Prémio da União Europeia, olhamos com alegria e gratidão para os 70 que tem a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

A ONU, em 1948, conseguiu, apesar da guerra fria e da apatia dos mundos árabe e chinês, aprovar a Declaração dos Direitos Humanos. Houve, aí sim, um avanço civilizacional, pois aquilo a que o mundo se disse comprometer, garantia aos cidadãos de todos os países a liberdade e o respeito pelos seus direitos mais inalienáveis. Ora, a Segunda Grande Guerra Mundial tinha acabado em 1945, mas deixado um rasto de morte e destruição nunca antes experimentado. Era urgente e necessário criar um quadro de valores, reconhecido e aceite por todos, que permitisse olhar o futuro com esperança na manutenção de uma paz assente na justiça.

Os objetivos da ONU não foram globalmente alcançados, tal o número de guerras e focos de violência que marcam a história recente da humanidade. Mas é verdade que estão ali gravadas orientações de fundo que, sendo tomadas a sério, garantem futuro de qualidade a este mundo tão marcado por ameaças de destruição massiva.

A Guerra Fria veio fazer do mundo um espaço de equilíbrio de terror entre os aliados dos EUA e da União Soviética. O pânico por uma eventual 3ª Grande Guerra Mundial, com o arsenal atómico e químico disponível, diluiu-se um pouco com a simbólica queda do Muro de Berlim, em finais de 1989.No ano anterior, o Parlamento Europeu decidiu avançar com a instituição de um prémio que teria o nome de um histórico dissidente soviético que deu a vida pela liberdade de expressão: Sakharov. Estávamos em 1988! Daí para cá, ano após ano, somos surpreendidos com os laureados.

2001 é ano importante para Angola. O país estava ainda mergulhado numa cruel guerra civil e o Parlamento Europeu decide atribuir o Prémio Sakharov a D. Zacarias Kamwenho, então Presidente da Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé, a instituição que mais lutava no terreno para que a paz chegasse ao país, pondo fim a um calvário de 40 anos para o povo angolano. Na altura, D. Zacarias disse que o prémio fora atribuído para uma ‘paz sem dedo no gatilho’. E a paz viria em 2002 com o Memorando de Lwena que poria fim definitivo aos combates entre o MPLA e a UNITA em Angola.

Estou em Angola. A guerra deixou marcas e rasgou feridas difíceis de cicatrizar. Mas não há combates e há liberdade de circulação, apesar da crise económica de que tanto se fala. Celebrar os 70 anos da Declaração do ONU e os 30 do Prémio Sakahrov implica mais e melhor compromisso para que a Paz assente sempre na justiça e na liberdade!

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