Tony Neves

O nosso mundo está dorido, sofre, faz sofrer muita gente. Os Bispos de Portugal, na conclusão de mais uma reunião, manifestaram a sua grande preocupação pelo tráfico de pessoas, escravatura e exploração humana, no país e no mundo. Acho que foi a primeira vez que os Bispos, como Conferência Episcopal (CEP), abordaram este assunto que, desde há muitos anos preocupa e ocupa os Institutos Religiosos. D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa e Presidente da CEP, disse na conferência de imprensa que ‘não podemos deixar de fazer este apelo, para que, quer como sociedade, na qual nos integramos, quer as autoridades do Estado, estejam muito atentos a este problema’. É um claro aviso à navegação, pois estes casos de tráfico humano são graves e estão em crescimento um pouco por todo o mundo, uma vez que são altamente rentáveis, para os mafiosos que dele lucram.

Durante a assembleia da CEP, o P. José Vieira, presidente da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, comunicou aos Bispos a publicação do ‘Manual para ações de prevenção do tráfico de pessoas e de assistência às vítimas Talitha kum – Levanta-te’. E foi esta partilha que suscitou o resto da reflexão e informação.

Ora, li estas notícias em Roma, durante um Curso que cerca de 40 Religiosas e Religiosos, vindos do mundo inteiro, estamos a fazer sobre questões de ‘Justiça, Paz e Integridade da Criação’. Um dos temas aprofundados foi o do tráfico, nas suas mais variadas expressões, desde a escravatura laboral ao tráfico de órgãos, passando pelo mais comum e mais rentável, o da exploração sexual. São muitas as formas camufladas de seduzir, mas o resultado final é sempre muito semelhante: a exploração das pessoas, o espezinhamento da sua dignidade, o desrespeito absoluto pela sua liberdade e os seus mais elementares direitos.

Este Curso para promotores, à escala do mundo, de justiça, paz e integridade da criação foi de uma riqueza indescritível, pelo que voltarei a falar dele, pela importância de que se pode revestir para toda a lusofonia.

Mas as dores do mundo têm outras fontes. Uma delas, a guerra. Também os Bispos de Portugal, seguindo a onda celebrativa que teve Paris como epicentro, evocaram o fim da I Grande Guerra Mundial (1914-1018). Pediram, para o futuro, ‘uma paz assente sempre na defesa da dignidade humana, na procura do bem comum, na solidariedade efetiva entre os povos, na caridade e na justiça, valores evangélicos inerentes à mensagem cristã’. O Papa Francisco, na Oração do Angelus, do dia 11 de Novembro, tinha dito: ‘A página histórica do primeiro conflito mundial é para todos uma severa admoestação. (…) Parece que não aprendemos! Enquanto oramos por todas as vítimas daquela imensa tragédia, digamos com força: “apostemos na paz! Não à guerra!’.

Finalmente, evoco as dores provocadas pela pobreza extrema que vitima milhões de pessoas por esse mundo além. Todos os humanos têm direito à vida, ao alimento, aos cuidados básicos de saúde, a uma habitação condigna, à liberdade, a um trabalho… A Criação do Dia Mundial dos Pobres mostra quanto o Papa Francisco é sensível à questão da pobreza que gera morte, dor e miséria. Neste domingo, o Papa almoçou em Roma com três mil pobres escolhidos a dedo. Sabemos que não se resolvem os problemas apenas distribuindo comida, mas este gesto do Papa, pela onda mediática que gera, chama a atenção do mundo para as injustiças que provocam dor.

Não façamos só trabalho de ‘cuidados paliativos’, mas atentemos contra a raiz das dores para que não mais tenham vez na vida das pessoas e dos povos.

 

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