Tony Neves

O Papa Francisco, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, fala da Paz da boa política. Ora, depois de ler tão incisiva e atual mensagem, chegou-me às mãos o último romance de Pepetela, um escritor angolano que ganhou o Prémio Camões em 1997. Angolano, viveu e sofreu os tempos duros do exílio na era colonial. Foi guerrilheiro, envolveu-se de alma e coração na política, foi vice-ministro da Educação com Agostinho Neto e Eduardo dos Santos. Abandonou o governo em 1982 para se dedicar à escrita. Tem 22 romances. Os últimos, desde a viragem do milénio, são muito críticos em relação à forma como muitos governos exercem a sua autoridade. O romance que agora me chegou às mãos e li em dois dias, tem um título sugestivo e um argumento original. Intitula-se ‘Sua Excelência, de corpo presente’. Narra a história de um corrupto presidente de uma república, que morreu e, dentro do seu caixão, consegue perceber os dizeres e pensamentos de quantos participam no velório. Assim, morto e deitado, conta toda a sua história, mostrando os caminhos tortuosos que levam alguém ao poder, os filhos de numerosas mulheres que um presidente autoritário vai gerando, as teias de um poder marcado pela corrupção, nepotismo, compadrio, incompetência dos ministros e outros altos funcionários do Estado todo-poderoso, controlo de vidas e consciências pelas polícias secretas e espionagem, eliminação da oposição, estrangulamento da liberdade dos cidadãos e da imprensa, instauração de um regime de terror, delapidação do património, despesismo, apropriação indevida dos bens do povo para proveito próprio, promoção de familiares e amigos, multiplicação de incompetências, vidas de fausto, apoio aos lambe-botas e ao grupo dos bate-palmas, insensibilidade à pobreza dos cidadãos…enfim, violações frontais dos direitos humanos…

A título de exemplo, partilho algumas citações do romance: ‘Conspirações não se fazem com pressa nem com tipos verdes’ (p.95); ‘Olha, daqui para a frente, ao telefone é só bom dia e pouco mais. Quando quiseres conversar, encontramo-nos ao vivo’ (p.149); ‘Quem vai para o poder não percebe que desconsegue de fazer uma omelete diferente com os mesmos ovos herdados do antecessor’ (p.155); ‘É muitas vezes prejudicial e até perigoso ter subalternos que pensem pela própria cabeça’ (p.166); ‘Prefiro os seguidores, mesmo estúpidos. Os intelectuais nunca me perdoaram ter fechado as inúmeras e inúteis academias’ (p.167); ‘O poder tem de mostrar o braço musculado, senão fenece’ (p.175); ‘Todos perdem quando querem dar lições de integridade; este é um mundo injusto e cruel’ (p.198); ‘O poder é insaciável e deve ser absorvido em pequenas doses’ (p.206); ‘fundo de emergência no estrangeiro(…). Tinha de haver recursos para comprar consciências, almas e mercenários’ (p.244); ‘Um grupo de jovens preparava uma manifestação contra a corrupção e a falha na luta contra a pobreza(…). A polícia caiu em cima dos manifestantes. Mandaram uns tantos para o hospital com uns ossos partidos, outros para a cadeia, desfizeram a manifestação’ (p.254).

Na contracapa está escrito: ‘uma crítica mordaz ao abuso de poder e aos sistemas de governo totalitários disfarçados de democracias, escrita com um sentido de humor inteligente, e em que qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência’. Ora, concluo eu…talvez não seja bem assim, pois Pepetela sabe bem do que escreve!

As últimas páginas são muito divertidas e interessantes, mas nunca se deve contar o fim de um filme ou de um romance para não os matarmos à nascença. Leiam, meditem e ajudem o mundo a mudar.

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