A postuladora da causa de canonização dos Beatos Francisco e Jacinta Marto admitiu à Agência ECCLESIA que o Papa traga “novidades” sobre a canonização dos dois pastorinhos, durante a sua visita a Fátima. A irmã Ângela Coelho fala ainda da importância da figura dos três pastorinhos e da atualidade da mensagem de Fátima, 100 anos depois das Aparições na Cova da Iria.

Agência ECCLESIA (AE) – A «Mensagem de Fátima» está a comemorar o seu centenário. Como se fala, nos dias de hoje, sobre este tema?

Ângela Coelho (AC) – Falar 100 anos depois de Fátima é… um tentar de novo. Repetir com linguagens e formas novas aquilo que Nossa Senhora e o Anjo vieram trazer à Cova da Iria. Não apenas para Portugal, mas para o mundo inteiro. Tenho sentido nos últimos anos um interesse maior por todas estas temáticas e assuntos.

 

AE – Como falar ao homem contemporâneo sobre este acontecimento que mudou vidas de crianças e adultos. É necessário uma linguagem que diga algo de novo?

AC – As necessidades do ser humano são muito constantes ao longo da vida e das épocas históricas. Falo no exemplo de sermos aceites e compreendidos… A necessidade de sermos felizes e realizados. De termos paz e estarmos bem connosco próprios, com os outros e com Deus. Apesar do ser humano ter mudado em termos de linguagem, na forma de comunicar e na compreensão do próprio mistério, as necessidades são as mesmas. Portanto, falar de Fátima cem anos depois, apesar de tudo, não é assim tão difícil porque o que Fátima traz é uma resposta às necessidades comuns ao ser humano.

 

AE – No entanto, essas respostas necessitam de novas ferramentas…

AC – Os agentes da pastoral da Mensagem de Fátima têm aproveitado todas as ferramentas que a ciência teológica nos dá. Temos aproveitado também os conhecimentos da Psicologia, Sociologia e da forma das pessoas se relacionarem entre si. A grande dificuldade está, provavelmente e aparentemente, nalgumas coisas faladas há cem anos atrás e que, hoje, estão fora de moda. Esse tem sido o nosso maior desafio. Todavia, não sinto que seja desfasado daquilo que hoje seja necessidade do ser humano.

 

AE – O contexto histórico era diferente…

AC – Os fatos que nos rodeavam e faziam notícia eram diferentes. Mas se repararmos, há cem anos vivíamos numa guerra mundial e, hoje, não sei se esse medo não está também presente. Talvez ainda mais… A globalização traz-nos notícias ao minuto e isso gera mais medo e ansiedade. Embora não estejamos a viver a I Guerra Mundial, os eventos de terrorismo e as perseguições sentidas também nos causam esse medo e insegurança. Parece que se sente uma falta de confiança no futuro e uma grande insegurança face ao terrorismo.

 

AE – A «Mensagem de Fátima» dá resposta a esses problemas?

AC – Aponta caminhos… Não gosto de absolutizar respostas porque a única resposta é Jesus Cristo. Ele e o seu Evangelho são a resposta e o caminho para os problemas de qualquer ser humano em todas as épocas. Obviamente, a «Mensagem de Fátima» porque sublinha aspetos fundamentais do Evangelho – adaptados à nossa mentalidade e ao nosso contexto – tem implicações muito concretas. O apelo à oração é um apelo que Jesus lança, mas Fátima também aponta esse apelo à oração. Uma forma de oração simples, mas adaptada ao nosso tempo de vida e ao nosso ritmo: A oração do Rosário.

Na «Mensagem de Fátima», a dimensão de compaixão e solidariedade é muito forte tal como no Evangelho. É fundamental ter a consciência que pertenço à família humana e sou responsável pelo meu ‘irmão’ e ‘irmã’. Cristo e o seu Evangelho são o centro, todavia na «Mensagem de Fátima» estes valores também aparecem.

 

AE – Então a «Mensagem de Fátima» é um apêndice do Evangelho. Uma página branca que se vai construindo…

AC – Eu diria que a «Mensagem de Fátima» é uma tela que se vai tecendo com diversos fios que do Evangelho recolhemos. Esta tela belíssima com cem anos de construção está a ficar cada vez mais lindíssima. Precisamente porque é tecida com os fios das páginas do Evangelho.

 

AE – Quem teceu essa tela foi a Irmã Lúcia?

AC – Foi a Irmã Lúcia, Francisco e Jacinta e cada um de nós.

 

AE – Mas a Irmã Lúcia é a protagonista visto que era ela que falava com Nossa Senhora?

AC – A Irmã Lúcia tem um protagonismo especial em toda esta história da «Mensagem de Fátima» porque é a interlocutora de Nossa Senhora. Mas também porque fica cá mais algum tempo, até 2005, para difundir e espalhar ao mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Obviamente que não tiro, de forma alguma, o protagonismo à Jacinta e ao Francisco porque foram os primeiros a viver em plenitude aquilo que Nossa Senhora veio dizer. Digo em plenitude porque a Igreja beatificou-os no ano 2000.

 

AE – Podemos confundir as memórias da Irmã Lúcia com a «Mensagem de Fátima»?

AC – Não podemos confundir… Mas, obviamente que as memórias da Irmã Lúcia são o registo do ser humano mais credível e fiel relativamente àquilo que foi acontecendo em 1917. Todavia, considero que a «Mensagem de Fátima» é muito para além disso que a Lúcia regista, escreve e recorda. A «Mensagem de Fátima» é também o peregrino que a atualiza em cada tempo.

Se a «Mensagem de Fátima» fosse só as memórias da Irmã Lúcia podíamos concluir que ela estava terminada no dia da sua morte. O fenómeno de Fátima ultrapassa, enormemente, a vida e as memórias da Irmã Lúcia.

 

AE – Sem esquecer também o papel desempenhado pelo cónego Formigão.

AC – O cónego Formigão teve um papel importantíssimo. Como os três videntes eram crianças, à partida a credibilidade das aparições, no primeiro olhar, era muito pequena. O cónego Formigão foi extraordinário. Ele aproxima-se do fenómeno, primeiro com alguma prudência. Chega a Fátima em setembro de 1917. De longe, observava o fluxo de peregrinos… Posteriormente, interroga os videntes. A partir deste momento ele acredita naquilo que está a acontecer. Ele acredita que é algo que vem de Deus e não produção fabricada ou mentira das crianças.

Quando interroga as crianças, regista tudo. Ele interroga como quem acredita… Isto faz toda a diferença. É muito diferente sermos interrogados por alguém que acredita e por quem não acredita. Os pastorinhos tiveram interrogatórios destes dois tipos. Perante esta situação, a atitude de quem está a ser questionado é completamente diferente. Os “pequeninos” intuíram isso e abriram o seu coração a este homem.

 

AE – Interrogatórios essenciais para compreender o fenómeno.

AC – Ele dá-nos uma fonte de primeira grandeza. Como era um sacerdote respeitado do Patriarcado de Lisboa, com uma formação profunda feita em Roma, vai ajudar à credibilidade destes videntes diante da autoridade eclesiástica. A partir do momento que a Igreja autentica estes acontecimentos diz: “Aqui Deus teve uma intervenção”.

 

AE – Mas demorou algum tempo até se chegar a esse patamar

AC – É normal. Foi necessário interrogar muitas pessoas. Esta comissão teve como um dos membros mais importantes, o cónego Formigão.

 

AE – Ele sonhou um novo Santuário de Lourdes (França) na Cova da Iria?

AC – Ele percebe que um fenómeno semelhante se estava a passar. D. José Alves Correia até começa a comprar terrenos circundantes porque sabia da experiência de Lourdes. Em Fátima, os intervenientes quiseram evitar esse fenómeno dos terrenos junto ao Santuário de Lourdes.

 

AE – Podemos, quando se fala na «Mensagem de Fátima», correr o risco de nos fecharmos numa nomenclatura em que só a Igreja e os cristãos percebam? Esquecendo aqueles que não conhecem as propostas da mensagem?

AC – Estamos num contexto de fé. No entanto, a nomenclatura que é falada em Fátima toca nas necessidades mais profundas do ser humano. E isso é universal. Mas se olhamos para Fátima de forma superficial, corremos o risco de o vermos como fenómeno sociológico. No fundo há diversos olhares que podemos ter sobre o evento Fátima. Todavia, somos todos desafiados a aprofundar este acontecimento.

 

AE – Aprofundar o acontecimento e os valores inerentes.

AC – Os valores aqui propostos são universais. Como a compaixão pelo meu irmão que sofre, o sentir-me responsável pela história… Isto é uma linguagem para crentes e não crentes. O Papa Francisco tem falado muito disso. Mesmo a dimensão ecológica. Todos nós habitamos este planeta e somos responsáveis por ele. A paz é um bem universal.

 

AE – Os peregrinos falam muito na dimensão do silêncio e da paz.

AC – Completamente verdade. O mundo está cheio de ruído e o ritmo da nossa vida é frenético. Somos assolados por sons vindos de todo o lado. Outrora só tínhamos a rádio e a televisão. Agora, com a internet estamos a ficar dependentes. Estamos, constantemente, a ser bombardeados por atrativos exteriores a nós. Isto impede-nos a concentração e prejudica a reflexão, concentração e silêncio.

 

AE – Fátima é um bom sítio para começar um caminho de fé?

AC – Sim. Para algumas pessoas é um sítio maravilhoso. Algumas pessoas chegam aqui apenas para acompanhar e depois são surpreendidas. Muitos chegam distraídos… Depois olham para aquela imagem pequenina, na Capelinha das Aparições, e alguma coisa acontece. Fátima pode ser um excelente ponto de partida.

 

AE – É possível viver o silêncio nas grandes celebrações, especialmente as de maio e outubro?

AC – No Santuário de Fátima vivem-se momentos diferentes. Aqui há tempo para tudo. Os peregrinos sabem isso e buscam o santuário conforme as suas necessidades. Todavia, nas grandes celebrações eu percebo a dimensão comunitária da fé. Rezar em conjunto tem também importância, na minha forma de viver a fé.

 

AE – A «Mensagem de Fátima» está tatuada no rosto dos peregrinos?

AC – Está refletida uma dimensão da «Mensagem de Fátima» que é a confiança em Nossa Senhora. O olhar de certos peregrinos a contemplar Nossa Senhora de Fátima mostra a certeza e a confiança naquela pessoa. O que traz a Fátima a maior parte dos peregrinos é esta confiança em Nossa Senhora. É o específico do Santuário.

Posso referir também que muitos peregrinos buscam o Santuário de Fátima para o Sacramento da Reconciliação.

 

AE – A «Mensagem de Fátima» também é emotiva, basta visualizarmos o momento do adeus e os lenços que acenam, juntamente com as lágrimas, a Nossa Senhora.

AC – A «Mensagem de Fátima» é emotiva… Nós somos afeto e a Psicologia tem vindo a demonstrar isso. A afetividade é uma porta excecional para a vida. Enquanto não formos tocados no coração não existe conversão e mudança.

 

AE – A mensagem está centrada ou baseada em três segredos. Esse lado enigmático dá-lhe outra característica?

AC – A Irmã Lúcia dizia: “Às vezes damos mais atenção ao pouco que não conhecemos e não tomamos em devida consideração o tanto que já sabemos”. O fato de existirem três partes do segredo suscita curiosidade. Em Agosto, os pastorinhos foram presos por causa do segredo. As crianças se não estivessem convencidas da verdade… não aguentariam a pressão psicológica. O segredo é um dos grandes critérios de autenticidade das aparições.

 

AE – Se a «Mensagem de Fátima» fosse um livro, podíamos dizer que esse livro foi concluído em 2000?

AC – Ainda se está a escrever. Se pensarmos no conhecimento sobre os acontecimentos, sem dúvida, foi encerrado em 2000. Mas considero que a «Mensagem de Fátima» é muito para além do que os pastorinhos viram e ouviram, penso que é um livro que está a ser escrito. Com capítulos interessantes. Um deles foi, sem dúvida, o ano 2000, data da publicação do segredo e da beatificação da Jacinta e do Francisco. Outro capítulo importante foi a morte da Lúcia de Jesus, em 2005, data da morte da última vidente. Outro capítulo foi o encerramento do processo diocesano da Irmã Lúcia, a 13 de fevereiro último.

 

AE – Voltemos ao ano 2000, data da beatificação de Jacinta e Francisco. Dezassete anos depois, não haverá novidades?

AC – Espero que haja, neste ano, alguma novidade acerca dos pastorinhos Jacinta e Francisco.

 

AE – Refere-se à canonização?

AC – Sim, que é o que mais desejamos.

 

AE – E sobre a Lúcia?

AC – Penso que a novidade, em 2017, já aconteceu e foi a 13 de fevereiro. Este ano, não estou à espera de mais nada sobre a Lúcia de Jesus, relativamente ao seu processo. Em Roma, segue-se a abertura do processo diocesano por parte da Congregação da Causa dos Santos. O primeiro momento vai ser um decreto de validade jurídica, ou seja, um ou dois oficiais na Congregação vão olhar para os documentos com o único objetivo de ver se as formalidades e as normas da Sanctorum Mater, a instrução que rege estes processos, foram cumpridas. Observar 15483 páginas vai demorar algumas semanas e o decreto da validade jurídica demora meses.

Posteriormente, o postulador romano tem acesso à cópia pública e pode redigir a Positio, um documento que sintetiza entre 500 a mil páginas o que foi entregue na Congregação. Tem de ser um documento muito bem feito porque nos dá as virtudes principais de Lúcia de Jesus.

 

AE – Há dois dados importantes. Um sobre a Irmã Lúcia que se encontra em fase primária. O outro é a canonização de Jacinta e Francisco. Nesta maratona, a canonização dos dois pastorinhos está mesmo na reta final. O papa vai trazer novidades no próximo mês de maio?

AC – O Papa pode trazer novidades. Eu não sei. De facto, o estudo do milagre prossegue, mas ainda não está concluído. Falta a análise de uma comissão. Caberá ao Papa decidir onde e quando quer anunciar e fazer a canonização. A ocorrência deste presumível milagre – é assim que me tenho de referir a ele, pois ainda não está dito que é um milagre.

 

AE – Milagre que, no seu entender, tem todas as condições para ser validado?

AC – Sim, tem todas as condições. Por isso é que eu decidi começar a estudá-lo. Acredito nele desde o início. Quando chegaram à postulação, há quatro anos, os primeiros documentos, fui investigar e pareceu-me que tinha condições para ser estudado e aprofundado.

 

AE – Estamos a falar de uma criança brasileira?

AC – Sim, uma criança do Brasil. Se for este o milagre aprovado que nos conduz à canonização, será um milagre muito bonito. Duas crianças cuidam de uma criança.

 

AE – E o Papa Francisco pode anunciar?

AC – Pode. Da parte da postulação fizemos e preparámos tudo para que fosse possível este ano. As comissões, em Roma, estão a estudar e, de facto, está a correr bem. Falta concluir o estudo. Tenho fortes expetativas e esperança que vá acontecer este ano, em 2017, a canonização do Francisco e da Jacinta. Será o papa Francisco a escolher quando anunciar e onde fazer.

 

AE – A festa de maio tem a garantia da presença do Papa Francisco. O santuário de Fátima poderá viver outra festa em outubro, a 12 e 13?

AC – Poderá viver ao longo deste ano. De facto, depende mesmo do santo Padre. As condições estão criadas e se a próxima comissão der o seu parecer positivo, as condições estão criadas para que o santo Padre tome a decisão quando entender.

 

AE – Estamos a conversar no Dia Internacional da Mulher. Podemos dizer que a «Mensagem de Fátima» tem um lado feminino?

AC – Através de Nossa Senhora e pela Lúcia. São as duas grandes figuras femininas que atravessam a mensagem. A figura materna da Virgem Maria, mãe de Jesus, da Igreja e de cada um de nós, por um lado, e a forma feminina de a Virgem se exprimir com palavras tão bonitas como as que dirige à Lúcia «Não tenhas medo, eu nunca te deixarei»; «O meu coração será o teu refúgio» – esta forma tão bonita de exprimir a verdade do Evangelho. Por outro lado a Irmã Lúcia, mulher que fica mais tempo com uma dimensão importante e um protagonismo especial em toda a Mensagem.

 

AE – Destaca também o lugar da mulher na Igreja?

AC – É uma dimensão que podemos concluir. A irmã Lúcia vibra, nos seus escritos, quando o Papa Paulo VI atribuiu o título de Doutora da Igreja a Santa Teresa de Ávila. Ela já era carmelita e vibra com isso. Percebe que a mulher tem este espaço dentro da Igreja, na participação pelo batismo no sacerdócio, tem esta missão de anunciar o Evangelho e a Boa Nova. A Igreja estava a reconhecer isso, não apenas no II Concílio Vaticano, mas atribuindo o título de Doutora da Igreja a Teresa de Ávila. Lúcia sente-se mais confortável com o seu ministério de espalhar a mensagem de Fátima, ainda que com os seus limites próprios da clausura.

 

AE – E os Papas? Que papéis desempenham na «Mensagem de Fátima»? Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI? O papa Francisco virá em maio…

AC – Na minha opinião, começa mais cedo e com um fenómeno interessante com Pio XI. Sublinho este facto porque autenticou, ainda que indiretamente, o fenómeno que estava a acontecer.

Em 1929, estamos a falar do ano anterior à aprovação por parte de D. José Alves Correia, o papa Pio XI benze uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, que estava no Colégio Português, em Roma feita pelo escultor José Ferreira Thedim que fez a escultura de Nossa Senhora da capelinha. Este sinal é uma aprovação implícita daquele acontecimento.

Pio XII tem uma grande relação com Fátima. É o primeiro a considerar-se o Papa de Fátima, não só porque Eugenio Pacelli foi ordenado bispo a 13 de maio de 1917, ele fica com uma ligação forte afetiva ao acontecimento Fátima, mas é o primeiro Papa a tentar cumprir o pedido de Lúcia sobre a consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria. Há uma célebre fotografia em que, acompanhado pelo seu secretário Montini, Pio XII ao microfone da rádio, fala aos portugueses sobre isto.

A partir de Paulo VI, a grande ligação dos Papas a Fátima é a sua presença. A sua presença é uma aprovação e um exprimir a atenção da Igreja ao que aqui foi sucedendo.

João Paulo II tem uma história única – seria mais um capítulo que falávamos no livro sobre a «Mensagem de Fátima».

 

AE – João Paulo II tinha uma grande devoção mariana…

AC – Verdade e o seu lema é Totus Tuus, mas o seu plano pastoral para a Igreja universal não incluía Fátima, até àquele dia 13 de maio de 1981… Depois de despertar na clínica Gemelli e percebendo a gravidade do sucedido, atribuiu imediatamente à proteção de Nossa Senhora de Fátima o desfecho diferente do previsto que era a sua morte. Ele diz: «o Papa parou no limiar da morte devido àquela mão materna que desviou a bala».

 

AE – Aos olhos da razão é difícil de entender. A mão de Nossa Senhora desviar uma bala…

AC – É uma linguagem simbólica. O Papa quando fala na mão, fala em todo o ser da Virgem Maria que o protege. É bonito perceber que, atribuindo a ela uma proteção especial, estende a intercessão a milhões de peregrinos que ao longo dos anos passam pelo santuário e rezam pelo Papa porque desde o início a figura do sucessor de Pedro foi importante na Mensagem de Fátima. Mas muito antes de se conhecer a terceira parte do Segredo já aqui se rezava pelo Papa e o amor da Jacinta pelo Papa é conhecido desde o início, ainda que não se soubesse o segredo.

Quando o Papa fala na mão é numa linguagem metafórica que representa a proteção de Nossa Senhora. É interessante que ele fala na mão e é na mão que ela traz o rosário. A oração que mais se reza em Fátima é o rosário.

 

AE – E o cardeal Ratzinger, Bento XVI, que escreveu o comentário teológico à terceira parte do segredo.

AC –Foi fundamental. Eu costumava pensar que João Paulo II entra em Fátima pelo coração e depois vai intelectualizar Fátima. O cardeal Ratzinger foi diferente: entra intelectualmente e, em 2010 quando vem à Cova da Iria, é o coração que é apanhado pela expressão de carinho da multidão a 13 de maio. Penso que naquela altura, ele precisava dessa manifestação carinhosa.

Devemos muito ao cardeal Ratzinger. É curioso que a Lúcia escreve no seu diário os encontros com cardeais, bispos, chefes de estado ou pessoas da cultura, não o nome, mas os encontros e sinto que o faz para proteger a pessoa. Exceto com o cardeal Ratzinger…. Regista a conversa em outubro de 1996, no contexto da sua vinda à Cova da Iria. Ela regista que as pessoas presentes lhe perguntaram qual a essência da mensagem, para onde apontava. E ela responde «Creio, na minha opinião, que tudo na mensagem é para conduzir para a fé, para a esperança e para a caridade». Com simplicidade ela pergunta ao cardeal Ratzinger «Parece-lhe bem, sua eminência?» Ele, muito atentamente, diz-lhe «Sim, a irmã respondeu muito bem. É isso mesmo».

É interessante que esta mesma frase, no comentário ao segredo, no ano 2000, preparada pelo cardeal Ratzinger, ele regista o mesmo. É bonito ver que depois serão estes os temas das encíclicas de Bento XVI – a fé, a esperança e a caridade. Vejo nisto, o fio condutor do acontecimento Fátima.

 

AE – A irmã Ângela vibra com isto…

AC – Ai, vibro (risos). É a minha vida.

 

AE – Quando foi a primeira vez que teve contacto com a mensagem de Fátima?

AC – No colo da minha mãe e nos braços do meu pai. Eu cresci a ver os meus pais de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima a rezar o terço. Para uma criança de nove anos a figura do pai é sempre importante. O meu era dono de uma empresa, com funcionários a seu cargo. Para mim o meu pai era mesmo muito importante porque mandava naquelas pessoas. Ver aquele homem de joelhos diante daquela imagem fazia-me pensar que ela é que devia ser mesmo importante. Lembro-me destes raciocínios…

Nossa Senhora era membro da casa, assim como Jesus. Havia um crucifixo lindíssimo. Foi com os meus pais que eu aprendi quem era Nossa senhora de Fátima. Era uma devoção muito séria porque os meus pais gostavam de estudar, informar-se e conhecer. Tinham uma vivência muito coerente da vida cristã. Rezávamos todos os dias o terço em família.

 

AE – O que é que os seus pacientes lhe ensinam sobre a Mensagem de Fátima?

AC – A confiança, a serenidade, alguns deles que o sofrimento não é inútil e em vão, ainda que conduza à morte.

 

AE – Mesmo alguns não crentes?

AC – Alguns não crentes não mo ensinam explicitamente relativamente a Fátima. Para alguns não crentes a vida está resolvida. Estão a caminho do nada, da morte que é o fim.

 

AE – Ou de uma pergunta…

AC – Ou de uma pergunta. Alguns não crentes naquele momento colocam a pergunta. A vulnerabilidade dos doentes ensina-me a ser atenta, presente, a tentar dar respostas, respeitar o percurso que cada um faz. Estimulam-me muito à compaixão.

Quando vejo um doente penso muito na Jacinta. É quem mais me ensina a cuidar dos meus pacientes, porque esteve muito sozinha no hospital. O contacto com a morte sempre me coloca questões interessantes e faz-me pensar o quanto posso ser expressão da ternura que sinto na «Mensagem de Fátima», esta companhia que sinto que Nossa Senhora é na minha vida, o quanto posso ser para estes doentes a presença terna e esta companhia serena.

 

AE – Como consegue dialogar entre a face da ciência e a fé?

AC – No meu interior? Não são incompatíveis nem estão sempre em contradição. Houve momentos em que era mais difícil. O meio académico médico não é o mais crente entre os meios universitários. Nessa altura eu colocava questões. Hoje convivo muito pacificamente. O mistério está sempre presente quer na ciência como na fé. Eu sou a mesma pessoa, a crente e a médica. Não são duas pessoas. Eu gosto muito da expressão de João Paulo II na Carta encíclica Fides et Ratio porque me ajuda a perceber isto: «a razão e a fé são duas asas pelos quais se eleva o pensamento humano». Uma sem outra não sobrevive. Mais do que o conflito entre a fé e a ciência eu vejo a sinergia entre ambas.

Graças a Deus vivo numa época em que a Igreja já admitiu que não tem resposta para tudo. A ciência tem o seu lugar para dar respostas que competem à ciência e não à fé.

As questões essenciais são comuns: de onde venho, quem sou eu, para onde vou, qual o sentido da minha existência. Isto é comum ao crente e ao não crente. As respostas são diferentes mas não têm de ser incompatíveis, não podem ser incompatíveis.

A fé dá-me um sentido e isso, sim, a ciência não me dá. A fé faz-me levantar o olhar sabendo que habito o mistério. Mas também a ciência sabe isso e os cientistas têm um grande sentido de humildade e, muito menos, a resposta última para tudo.

 

AE – Para isso existem os milagres…

AC – Também existem os milagres. Mas, só para concluir a questão da ciência e da fé…. No mistério pode-se habitar, nas contradições é que não. O mistério que a fé me dá é habitado por mim, acompanhada por Cristo. Pode ser confortável mas é também desinstalador porque este Cristo não me deixa em paz no que em mim é egoísmo e busca própria. Nem sempre Cristo facilita e conforta. Cristo exige, empurra e incomoda cá dentro, em especial dentro das minhas forças de idolatria e egoísmo. Esta sensação de que a fé é uma capinha que tudo protege e conforta não é verdade.

 

AE – Os milagres podem ajudar a explicar as dúvidas que os médicos possam ter… Se é milagre nem a ciência sabe explicar…

AC – Nunca uma comissão de médicos me diz que é milagre. Uma comissão de médicos diz que de acordo com a arte médica atual a ciência não explica esta cura ou a forma como esta cura ocorreu, a velocidade ou a ausência de sintomas e sequelas.

A ciência nunca me dirá que é milagre. A ciência diz-me se tem explicação ou não. Quem me diz que é milagre é a Teologia. São duas áreas diferentes. Não é correto dizer que a ciência reconhece o milagre. Provavelmente pela minha formação, estes dois campos estiveram muito claros, desde o início. Eu como médica, procurava um evento, fosse de cura ou não, em que a arte médica atual não tivesse explicação.

 

AE – Nessa altura quem fala mais alto? A médica ou a religiosa?

AC – Talvez a religiosa. A médica também teve o seu percurso a fazer. A questão dos milagres, para a minha parte crente, não oferece questão. Para a parte científica sim. Quando estudamos medicina fazemo-lo para explicar, tratar, para a vida, para o conforto e, se não conseguirmos dar mais vida, para aliviar o sofrimento da pessoa. A morte não se tira. Como médica, tive de fazer o meu caminho. Confesso que fui ajudada por Jesus.

 

AE – A Igreja ainda não percebeu todas as vertentes que a «Mensagem de Fátima» pode trazer à pastoral?

AC – Tem sido um crescente….

 

AE – Há sectores da pastoral que podem crescer mais à luz da mensagem?

AC – Acho que sim. Foi claro, quando decorreu a viagem da Virgem peregrina pelas dioceses portuguesas, em 2015/2016, o poder atrativo desta imagem e a mensagem.

Obviamente, que conhecer a mensagem implica estudo, dedicação e aprofundar, em particular pelos agentes da pastoral. Os bispos ficaram mais sensibilizados, os sacerdotes, os catequistas, pessoas responsáveis pela liturgia. Se nos dedicarmos e aprofundarmos percebemos um grande potencial evangelizador, porque quase todas as temáticas estão concretizadas na «Mensagem de Fátima». Servindo-se do poder atrativo de Nossa senhora podemos chegar ao essencial do evangelho.

 

AE – Em que áreas?

AC – A pastoral infantil parece-me um campo com muito potencial, em especial na vida sacramental. O Francisco e a Jacinta, nesta faixa etária, são modelos para a vida. A vida eucarística, mas também a dimensão caritativa. A entrega ao outro através de gestos simples de partilha. Os pastorinhos são modelos para o desenvolvimento da caridade, da partilha e da vida de intimidade com Deus.

 

AE – E Na pastoral familiar?

AC – É algo em que podemos crescer e aprender mais. Foi na vida familiar que os pastorinhos aprenderam os grandes valores cristãos, não foram trazidos por Nossa Senhora. Viveram-nos, sim, agora com outra profundidade e sentido. Sabemos, por exemplo, que antes das Aparições, rezavam o terço a correr…mas sabiam o que era o terço e rezavam-no. O contexto, os laços e estrutura familiar é o primeiro solo em que a fé se desenvolve.

Nos jovens, eu entraria em dimensões da mensagem, por exemplo, na radicalidade e seguimento de Cristo. Encontrar estímulos para o compromisso é algo que se encontra na mensagem.

 

AE – A mensagem de Fátima apela também a valores ecológicos. Podemos dizer que a azinheira na esplanada no santuário é um sinal disso. Se a azinheira falasse, o que diria ao longo destes 100 anos?

AC – Ela não foi só testemunha de um acontecimento, há que a preservar, que é expressão de uma vida que Deus nos dá para guardarmos. Aquela azinheira está protegida. Se não estivesse, já ali não estava. É um apelo à proteção que temos de cuidar do planeta que foi dado por Deus e se não cuidarmos não sobrevive.

 

AE – Aquela azinheira já assistiu a muito sofrimento e alegria…

AC – Já absorveu, como metáfora, do Deus que nos acolhe. Se falasse contaria muitos dos segredos dos corações que por ali passam.

 

AE – O que é que a azinheira vai dizer em 2117?

AC – Penso que Fátima vai continuar a ser um local onde peregrinam as dores e as alegrias do coração humano dos que aqui vêm em busca de Nossa Senhora e da dimensão comunitária da fé.

 

AE – Em 2117, a azinheira pode não estar ali, mas a «Mensagem de Fátima» continua cada vez mais na vida dos peregrinos

AC – Acho que sim. Tal como o Evangelho que 2000 anos depois parece ainda mais vivo do que quando foi escrito nos primeiros séculos. A Mensagem de Fátima fala ao ser humano, que busca respostas para se entender, para entender a sua existência na Terra.

 

Entrevista conduzida por Lígia Silveira e Luis Filipe Santos

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