Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

A escalada da temperatura média global do planeta nos últimos anos tem sido vertiginosa. O COP 24 que se realiza em Katowice na Polónia e que termina no dia 14 de dezembro é mais uma chamada de atenção para um exame de consciência sobre o nosso estilo de vida.

A perspectiva é a de que se nada fizermos, atingir em 2030 uma diferença na temperatura média global de 1.5°C acima do nível na era pré-industrial. Parece pouco, mas do mesmo modo que um grau a mais no nosso corpo resulta em febre, 1.5°C a mais resultam em secas e precipitações acima dos níveis normais com graves consequências para as populações e ecossistemas em algumas partes do planeta.

A grande preocupação está na pouca participação dos grandes líderes neste encontro e saber se qualquer atitude que tomemos hoje vai ainda a tempo de evitar a catástrofe prevista.

Por muito que leia, a sensação que tenho é dos governos andarem à deriva com uns óculos de realidade virtual postos nos olhos, não se apercebendo daquilo que pode estar à beira de acontecer. Andam perdidos. Mas um modo muito particular de andar perdido.

Perdidos sem criatividade.

O Papa Francisco fala do “grito da Terra e do grito dos pobres” como uma chamada de atenção pelo facto de andarmos tão distraídos e despreocupados. Pois, de cada vez que é necessário combustível, vamos comprá-lo. Ou se está a chover não saímos de casa e ligamos o aquecimento porque sentimos frio. O resultado do aumento da velocidade dos furacões por via do aquecimento da água dos mares leva a que algumas pessoas fiquem sem energia e sem tecto, sujeitas à chuva e ao frio. Enquanto não sentirmos na nossa pele estes efeitos, mantemo-nos insensíveis ao que significa estar na pele dos outros.

É um sinal de que não sabemos o que fazer, perdidos e sem criatividade.

Recuperar a Criatividade

De acordo com Julia Cameron, no seu “The Artist’s Way”, a criatividade está muito ligada ao nosso caminho espiritual. Quando esse caminho se volta para o “eu”, faz de si mesmo a maior fonte de criatividade. O facto de sermos limitados é o motivo pelo qual precisamos de sair de nós mesmos para produzir algo realmente criativo. Fazer do relacionamento com Deus a fonte da nossa criatividade significa torná-la inesgotável. Mas não chega.

Podemos ser pessoas criativas, mas se nos centramos demasiado no “eu”, nas necessidades que tem, desejos e anseios, podemos entrar numa espiral que se fecha sobre si, em vez de uma espiral que se abre a partir de si. Sem Deus que nos impele nessa abertura ficamos perdidos, à deriva, esgotando a motivação.

Perdidos porque em vez de fazer de Deus o centro da nossa criatividade, retirámos o “D” de direcção e o “s” de sentido, ficando apenas o “eu.” E uma vida sem direcção e sentido – sem Deus – baseada no interesse próprio do “eu”, anda à deriva.

Reencontrar o Rumo

Podemos ter à nossa disposição todos os factos, tal como o relatório de 36 páginas que reuniu estudos de mais de 6000 cidades, escrito por 99 cientistas de 40 países, e pouco mudar a nossa vida para que seja um testemunho criativo de uma resposta ao amor de Deus quando criou o universo, incluindo o nosso planeta.

Achamos que fazemos parte do grupo pequeno de pessoas que gostariam de fazer alguma coisa, mas que pensa – ”quem sou eu?” – e reduzimo-nos a alguém com pouco peso nas decisões que os grandes líderes deveriam tomar. O problema é pensarmos que são as grandes decisões que fazem as mudanças profundas nos nossos comportamentos, mas não é assim. Do mesmo modo que o estado actual do clima não dependeu de grandes mudanças repentinas, mas de pequenas mudanças, também a solução passa pelas pequenas mudanças no nosso comportamento.

Se fizeres de Deus o centro da tua criatividade, então, bastaria um acto criativo que melhorasse o teu estilo de vida ecológico em 1% todos os dias, com persistência e ao longo do tempo, num ano, melhorarias 365%. E se os 1.2 mil milhões de católicos em todo o mundo aplicassem esta regra do 1% ao seu estilo de vida, daríamos uma mensagem ao mundo bem mais forte do que todos os discursos num COP, por mais inspiradores que sejam. Faz os cálculos e verás como o efeito é exponencial.

O drama de toda a criatividade é o pensamento de que essa depende da musa, mas em Deus não é assim. Em Deus, a criatividade depende da nossa vida espiritual na acção concreta de doação aos outros. Se melhorar cada acto de doação em 1% por dia, todos os dias e ao longo do tempo, será o hábito a alterar o comportamento. E se TODOS assumíssemos esse compromisso, seríamos o testemunho das mudanças de comportamento necessárias para evitar uma catástrofe climática global em que o efeito do todo, bem maior do que qualquer governo, se dá em cada um que faz a sua parte.

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