Narrativas de Natal

Dez 23, 2018

São muitos os textos que falam do Natal: no sentido literal ou figurado, de diferentes formas se assinala este tempo.
Crentes e não crentes olham para o nascimento de Jesus como um poema, um acontecimento histórico ou um desafio a ser vivido ao longo de todo o ano. Fomos em busca desses relatos, tão diferentes como o percurso das pessoas com quem falamos: a jornalista Paula Moura Pinheiro, o professor Frederico Lourenço, presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens Rosário Farmhouse, o padre João Lourenço, o escritor Pedro Vieira, e a jornalista Alberta Marques Fernandes.

O Natal não é ornamento
“O Natal não é ornamento: é fermento
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande
O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar!
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos

Uma estrela nos guiará
O Natal não é ornamento”

Pe. José Tolentino Mendonça

 

Excerto do capítulo final do livro «As vinhas da ira», de John Steinbeck

«A mãe foi ao canto e debruçou-se sobre o homem, a olhá-lo. Devia ter uns 50 anos. Possuía um rosto barbudo e descarnado, e os olhos, muito abertos, fixavam o nada. O rapas veio postar-se ao lado da mãe.

– Ele é teu pai? – perguntou ela.

– É sim. Ele dizia que não tinha fome, ou que já tinha comido. Dava-me a comida toda. Agora, está tão fraco que nem se pode mexer.

A chuva amainava outra vez e tamborilava brandamente no teto do celeiro. O homem escanzelado moveu os lábios. A mãe ajoelhou-se ao lado dele e encostou o ouvido á boca do homem, cujos lábios se tornaram a mover.

– Bem – disse a mãe. – Esteja sossegado. Tudo se arranja. É só esperar que eu tire a roupa molhada à minha filha.

A mãe voltou para junto de mãe voltou para junto de Rosa de Sharon.

– Trata de te despir anda!

Estendeu o cobertor, fazendo dele uma cortina, para a esconder dos olhos dos outros. E, quando Rosasharn ficou nua, a mãe enrolou-a no cobertor.

O pequeno estava agora de novo ao lado da mãe, explicando:

– Eu não sabia de nada. Ele dizia sempre que já tinha comido ou então que não tinha fome. A noite passada, quebrei a vidraça de uma janela e roubei um pão. Obriguei-o a comer, mas ele vomitou tudo e ficou ainda mais fraco. Devia comer sopa ou beber leite. A senhora tem algum dinheiro para comprar leite?

A mãe respondeu:

– Chiu! Não te apoquentes. Tudo se há-de arranjar.

De repente, o pequeno deu um grito:

– Está a morrer! Está a morrer, a sério! Ele vai morrer de fome. Vai, vai!

– Chiu! – fez a mãe.

Lançou um olhar ao pai e ao tio John, que estavam parados, diante do doente, sem saber o que haviam de fazer. Olhou para Rosa de Sharon, bem enrolada no cobertor. Os seu olhos fugiram dos da filha e tornaram a encontra-los. E as duas mulheres liam tudo nas respetivas almas. A respiração da rapariga tornara-se curta e agitada.

– Sim – disse.

A mãe sorriu.

– Eu sabia. Eu sabia que tu eras capaz de o fazer. – Olhou para as mãos apertadas uma na outra, descansando no regaço.

Rosa de Sharon disse baixinho:

– Vocês são capazes de sair todos?

A chuva batia ao de leve no telhado.

A mãe inclinou-se para a filha e, com a palma da mão, afastou as madeixas revoltas que lhe caiam para a testa e deu-lhe um beijo. A mãe ergueu-se rapidamente:

– Vamos, minha gente, vão para o alpendre das ferramentas – gritou ela. – Vão-se embora, andem!

Pô-los fora da porta. Por fim, levando o rapazito pela mão, saiu também, fechando a porta, que chiou atrás de si.

Por um momento, Rosa de Sharon permaneceu imóvel no celeiro ressoante de murmúrios. Depois, ergueu-se pesadamente, enrolando-se mais no cobertor. Devagar, dirigiu-se ao canto escuro e quedou-se a olhar o rosto devastado do desconhecido, de olhos arregalados e cheios de temor. Então, vagarosamente, deitou-se ao lado dele. O homem abanou a cabeça de um lado para o outro. Rosa de Sharon afastou um dos lados do cobertor, deixando o seio a descoberto.

– Tem de ser – disse, aproximando-se mais dele, e puxando-lhe a cabeça para si. – Ora vá! Então!

Apoiou-lhe a cabeça com a mão, e os dedos afagaram-lhe suavemente os cabelos. Ergueu os olhos e deixou-os errar pelo barracão, enquanto os lábios se lhe arqueavam num misterioso sorriso…»

«O que é o Natal?», de Max Bolliger

«Ássia não conhece o Natal.

Ássia veio de outro país onde se celebram festas muito diferentes.

 Natal!

Feliz Natal!

 Ássia lê estas palavras por toda a parte.

As ruas estão enfeitadas de mil e uma cores!

Grupos corais entoam lindos cânticos de Natal.

As lojas propõem:

 Bolos de Natal,

Postais de Natal,

Velas de Natal,

Decorações de Natal,

Peru de Natal…

 À entrada dos grandes hipermercados ergue-se uma floresta de pinheiros de Natal.

As montras oferecem mil coisas.

“Será que as pessoas precisam disto tudo?”, interroga-se a menina, deslumbrada.

Mas o mais extraordinário são os anjos que flutuam no ar.

E Ássia pergunta-se como é que eles se tinham pendurado no céu.

Os cabelos de Ássia são encaracolados e a pele é castanho-avermelhada.

Um dia, ouvira os vizinhos dizer:

— Quem é esta rapariga estrangeira? Onde vive? Donde veio?

Ássia tinha vindo de um país em guerra onde as pessoas passavam fome e eram perseguidas. Ássia era uma refugiada.

 No primeiro dia de Dezembro, os alunos descobriram, em cima da secretária da professora, um arranjo com quatro velas entre pinhas douradas.

— Oh! que lindo! Vamos celebrar o Advento! — exclamaram as crianças.

Advento! Outra palavra que Ássia nunca tinha ouvido.

“Deve ter alguma relação com o Natal”, pensa.

 Quando a professora acende a primeira vela, Ássia enche se de coragem e pergunta:

— Natal, mas o que é o Natal?

— Sim! O que é o Natal?! — repete a professora um pouco surpreendida.

As crianças desatam a rir. Todos sabem o que é o Natal!

Os alunos falam todos ao mesmo tempo:

— Natal é quando decoramos a casa.

— Natal é quando pintamos estrelas nas janelas.

— É quando a minha mãe faz bolos.

— É quando escrevo uma carta ao Pai Natal!

— Quando o Pai Natal põe presentes junto do pinheirinho.

— Quando vamos ao mar.

— Quando eu tenho uma bicicleta nova.

— Quando recebo uma boneca grande.

— Quando a minha avó me dá dinheiro.

— Quando os meus avós nos vêm visitar.

— Quando embrulho as prendas.

— Quando enfeito com o meu pai o pinheiro.

Os meninos contam tudo o que fazem no Natal.

Mas Ássia continua a não perceber o que é o Natal.

— É altura de vos contar uma história muito antiga. A história do nascimento de Jesus. A história da noite de Natal — diz a professora.

 Maria e José à procura de uma estalagem.

O dono do albergue que os mandou embora, sem compaixão. A chegada dos pastores, o aparecimento dos anjos.

Os três Reis Magos guiados pela estrela até Belém e, entre eles, Belchior, o rei de pele escura, como Ássia.

 Ássia ouve com toda a atenção.

— E — continua a professora —, quando representarmos esta história, um de vós terá de fazer o papel de Belchior.

De repente, faz-se silêncio.

O rapaz que está ao lado de Ássia acaricia suavemente a cabeça da menina.

 Ássia sorri e murmura:

— Agora já sei. Natal, é quando eu sou feliz!»

 

Evangelho de Lucas 2, 13-14
«E de súbito surgiu, juntamente com o anjo, uma multidão do exército celeste, louvando a Deus e dizendo:

«Glória nas alturas a Deus!
E, sobre a terra, paz
entre as pessoas de boa vontade.»

1 Carta São Paulo aos Coríntios
«Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.
E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda fé de maneira tal que transportasse os montes, se não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
O amor é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não busca os seus próprios interesses, não suspeita mal; não se regozija com a injustiça, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba.

Agora vemos por espelho, por enigma, mas quando vier o que é perfeito veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente.

Fé, esperança e amor: dos três o maior é o amor.»

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