Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

Salas ou filas de espera; enquanto esperamos alguém ou que o computador arranque; são inúmeros os momentos de tédio na nossa vida. Mas contêm um benefício oculto.

Photo by Julian Howard on Unsplash

O tédio não é mais do que a experiência que fazemos quando transitamos de um nível de elevado estímulo para outro mais baixo, e sentimos a necessidade de nos adaptarmos subitamente a esse nível.

É algo que acontece no tempo e daí advém a sensação de perda de tempo quando se experimenta o tédio. Quando o ambiente exterior deixa de nos interessar, a nossa atenção volta-se para o nosso interior onde os pensamentos que antes eram negligenciados passam a ser infinitamente mais interessantes e estimulantes.

Esta passagem gerada pelo tédio do estímulo exterior para o pensamento interior abre a porta de uma das capacidades humanas mais extraordinárias: a criatividade.

Focarmos a nossa atenção nos pensamentos soltos que atravessam a nossa mente em momentos de tédio, leva-nos a processar ideias deixadas para trás, realizar associações outrora impensadas e relacionar desejos futuros com momentos presentes e experiências passadas.

Não é que o tédio seja uma experiência agradável. Daí que na ausência de estímulo, a primeira atitude seja procurar institivamente por algo que nos distraia e ocupe a nossa atenção. É essa a razão de pegarmos imediatamente no telemóvel e navegarmos pelas redes sociais, ler notícias, consultar emails ou trocar mensagens no WhatsApp. Tudo se torna o pacificador que nos distraia do rebuliço de pensamentos que atravessa a nossa mente. Mas ceder a estas armas de distracção massiva é cegar o olhar em relação ao benefício oculto do tédio.

O pensamento profundo exige tempo e muito poucos estímulos exteriores. Os momentos de tédio abrem-nos a essa possibilidade apesar de nos fazerem sentir desconfortáveis e ansiosos. Talvez o que nos falte seja estarmos conscientes dessa possibilidade e fazermos a experiência.

Quando os computadores com o Windows ficavam muito lentos, uma das ferramentas que utilizávamos para os tornarmos mais rápidos era o “desfragmentador do disco.” Na prática, o objectivo dos momentos de tédio é semelhante, ou seja, desfragmentar os pensamentos. Pois, quando somos sujeitos a essas situações, abre-se-nos um tempo extra para processar relações, experiências, ideias e problemas que, de outro modo, não haveria tempo para isso.

Num mundo que transita do dinheiro para o tempo como o bem mais precioso, se mais dinheiro permite-nos ter mais, mais tempo permite-nos ser mais, uma vez que os nossos pensamentos são expressão daquilo que somos. Porém, apesar do tédio poder dar-nos o tempo para aprofundar pensamentos, não é esse o seu benefício oculto.

Embora o ambiente e relacionamentos exteriores sejam fontes inegáveis que despontam uma experiência de Deus, o seu aprofundamento e a escuta daquilo que Deus nos quer dizer em cada momento acontece no interior de nós mesmos.

“Tu, porém, quando orares, entra no quarto mais secreto e, fechada a porta, reza em segredo a teu Pai, pois Ele, que vê o oculto, há-de recompensar-te.” (Mt 6, 6)

Se quisermos, o tédio pode tornar-se uma possibilidade inesperada de entrar no “quarto mais secreto” da nossa mente e, assim, ser um momento que a vida nos apresenta de rezarmos ao Pai em segredo e aprofundarmos o relacionamento com Ele. Não penses em todos os momentos de tédio que perdeste na tua vida em que podias ter rezado mais, ansia antes pelas oportunidades daqui para a frente que tens diante de ti.

Partilhar:
Share