Nas margens do rio Cávado o mote era o descanso para uma conversa que se adivinhava serena e profunda. As conversas são como as cerejas e o cónego João Aguiar é mestre na acrobacia das palavras. Do descanso ao lazer, da música à literatura, das memórias aos sonhos… Uma entrevista para ler e reler em tempo de férias.

Entrevista conduzida por Luís Filipe Santos

Agência ECCLESIA – O verbo “descansar” tem outro significado nesta época do ano?

Cónego João Aguiar – Tem outro significado, embora não podemos esquecer o verbo descansar ao longo do outro tempo do ano.

Muitas vezes, no verão, aquilo a que chamamos descanso é uma grande canseira. É canseira das malas, da escolha, de quem vai e de quem fica… É canseira do que se leva e do sítio. E depois, a canseira de ter chegado. Aliás, tenho muito medo que as pessoas regressem depois das férias, mais cansadas do que estavam quando partiram. Até porque esquecendo os horários, esquecem que existe uma noite.

 

AE – E uma manhã…

JA – Verdade… E uma manhã durante as férias. Esquecem-se de adormecer e depois, porventura, esquecem-se também de acordar a horas. Mas, de qualquer modo, agora durante o verão é mais oportuno o verbo descansar. Não apenas porque muitas pessoas escolhem esta época do ano para as férias… até porque muitas empresas se organizam para as férias de verão e a própria industria hoteleira está muito mais centrada nesta época, até por causa do nosso próprio clima.

É importante que o verbo descansar seja conjugado em todos os tempos e modos ao longo do ano porque descansar é uma afirmação de soberania. Soberania sobre a criação. Soberania sobre nós e soberania sobre a tentação do ter, possuir, fazer e acumular. É preciso afirmar a soberania do ser para o outro, para mim e para Deus.

 

AE – Essa soberania sobre o ser é ofuscada em relação à soberania sobre o ter.

– Nós vivemos na civilização do possuir, do fazer, do conseguir e do arranjar. O êxito mede-se, muitas vezes, pela marca do automóvel, pela qualidade da casa, pelos sítios onde podemos ir passar férias. Para isso é preciso ter… É verdade que precisamos de ter o mínimo para ser. Para sermos livres e afirmativos. Para não sermos escravos, às vezes até das próprias condições de trabalho ou da forma como nos tratam no trabalho.

Todavia, numa perspetiva crente… O acumular… Acumular é dar muito trabalho à traça.

Um dia encontrei, no Chiado (Lisboa), numas escadas que dão para a Rua do Almada, esta frase: «Passamos o tempo a trabalhar para ter dinheiro, para comprar coisas de que não precisamos». É, realmente, este sentido de tralha de que nos devemos libertar no tempo do descanso.

 

AE – É na infância que vivemos a vida de forma mais honesta?

JA – E mais descansada… Sim. E mais honesta. Exigimos na infância – é pena que, atualmente, a exigência não seja muito correspondida pelos pais e educadores – porque, muitas vezes, os tempos livres das crianças são ocupados com outras atividades. Vejo avôs e netos que não têm tempos livres porque esses tempos passam pela natação, ballet… Com essas atividades pouco tempo existe para o recreio.

 

AE – Para brincar…

JA – Ou seja para serem crianças… Muitas vezes, fazemos do tempo livre, uma jarra bonita que não deixamos estar vazia. Fico sempre com o drama quando compro uma peça – uma jarra de cristal – e alguém acha que esta deve ter umas flores. E a jarra era tão linda sem estar ocupada com as flores…

Ao colocarem as flores… parte da jarra fica escondida. Aparece um e toca nas flores. Outro desvia a flor para outro lado. Até nas próprias tribunas – em Braga existe a santa tradição dos lausperenes diocesanos onde se expõe solenemente o Santíssimo – mas, no meio de tantas jarras, velas e flores, esse arranjo esconde a riqueza artística e o próprio Santíssimo.

 

AE – A chamada poluição visual…

JA – Autenticamente. Este descanso entendido como alguma valorização, também da dita inutilidade (daquilo que parece inútil, mas ao mesmo tempo nos enche). É importante que durante o tempo de descanso aprendamos a divertirmo-nos. A fazer coisas diversas daquilo que fazemos durante o nosso dia-a-dia. Descansar é também ser a jarra vazia onde somos capazes de fechar os olhos e dizer. «Que estás a fazer?».

E quando dizemos «Não estou a fazer nada…», estamos a fazer um conjunto de coisas. Estamos a assistir a uma espécie de degelo no nosso polo norte – que é a cabeça – que escorre de nós. Ali brincam uma série de ideias e pensamentos. Uma série de arrependimentos ou perspetivas. Que estás a fazer? Estou a conversar comigo. Estou a encontrar-me e a reencontrar-me.

 

O significado do verbo descansar com o cónego João Aguiar – Emissão 06-08-2018

AE – Descanso e lazer são sinónimos?

JA – Na minha perspetiva, o lazer é menos rico do que o descanso. O lazer tem esta ideia muito colada ao não fazer nada. Em relação ao descanso, mesmo quando não fazemos nada, a estudar a Teologia da inutilidade, este é ativo. Em relação ao lazer, este, muitas vezes, é um vaguear.

 

AE – Lazer é estar estendido… Descansar é caminhar?

JA – O descanso é um caminho.

 

AE – Com passos longos ou curtos?

JA – Depende porque às vezes temos pressa de chegar. Outras vezes é um passo miudinho – na minha cultura rural diria: É o passo miudinho da folha do codesso / o meu amor é pequenino, eu pelo andar o conheço / Tenho o passo miudinho como a folha do codesso.

 

AE – Isso é poesia…

JA – Poesia popular.

 

AE – Brota e sai da vivência…

JA – Sai da vivência deste olhar tranquilo até porque se o passo for muito rápido, então haveria momentos da vida que eu não podendo andar… Estava dispensado ou proibido de ir. Andar é uma coisa… Ir é outra. Eu vou ou estamos neste mapa interior que não se confunde com o território que calcamos. Muitos entregam o lazer à preguiça. Eu gosto mais do descanso ativo do que o lazer pendurado da preguiça que baloiça num ramo qualquer da árvore.

 

AE – Descansar e lazer são termos parecidos, todavia não podemos considerá-los como sinónimos. Enquanto, que o lazer quase implica passividade… O descanso é algo mais ativo.

JA – Eu quando descanso… Preparo-me. O descanso é uma preparação. O descanso é atividade. Na perspetiva de que estou a fazer uma coisa diferente que me relaxa. Mas não estou ali simplesmente numa atitude de lazer passivo e fechado sobre mim.

O descanso ou o lazer nas férias?, com o cónego João Aguiar – Emissão 07-08-2018

AE – Como são os seus momentos de lazer e de descanso?

JA – O meu momento de lazer é, essencialmente, olhar. Não me apetece… É aquele cansaço absoluto em que quero estar quieto e calado. E se alguém disser o teu nome ou chamar por ti ficas zangado. Apetece-te desligar do mundo.

O problema do descanso é outra coisa…É como uma preparação para logo. É como um limpar. Como engraxo os sapatos com que caminhei….Como revejo o caminho.  O descanso é uma enorme dose de futuro. Eu descanso… Sento-me para retomar a caminhada. Na entrada da gruta do meu descanso, existe alguém que cose uns pães e diz: «Alimenta-te porque o teu caminho vai ser longo». Este ir… Este amanhã… Este outro lado do horizonte ou do sítio onde estou. Sinto que neste silêncio ou momento de paragem me chama ao sítio

 

AE – É como um amassar o pão? E depois coloca-lo no forno?

JA – Também… É um cozinhar o amanhã. Há muitas pessoas que dizem: «Não sou capaz de mais nada e preciso de descansar». Um necessitar de estar quieto. No fundo precisa de recuperar para o caminho. Nesse momento, precisa de sentir não um desistente, mas um peregrino que, momentaneamente, está quieto, mas é insistente. Ele quer é voltar à estrada.

 

AE – No fundo, o descanso também tem momentos de paragem…

JA – Claro… O descanso tem momentos de paragem. Aliás, se não pararmos, o próprio amanhã e o próprio trabalho vão ser desorganizados e muitas vezes inúteis. O descanso permite-nos refazer e confirmar objetivos e, se possível, corrigir esses objetivos.

Basta ver no futebol… Quando existe uma mudança de campo ou no prolongamento – os jogadores deslocam-se à lateral e o árbitro aceita que existam umas garrafas de água e um ou dois minutos – ele percebe que para os jogadores se entregarem ao jogo com o mesmo entusiamo precisam de organismo. Eles necessitam de recuperar…Este descanso. Esta paragem é o momento de dizer: «Ok… Louvado seja Deus, e eu também pelo meu esforço e pelo caminho percorrido». Vamos lá que se faz tarde e voltamos ao caminho…

 

AE – Qual é o seu momento de descanso predileto?

JA – O meu momento de descanso predileto é a aldeia. O meu sítio e o meu momento. Porque foi o sítio dos sonhos. Foi o sítio dos alicerces… Nós temos de fazer uma espécie de peregrinação aos sítios onde sonhamos. Aí revisitamos as raízes… Dizermos: “Ah… Venho dali e vou para acolá». Esse é um sítio, absolutamente, indispensável quando eu visito a minha aldeia e os meus familiares.

 

AE – Rebolar na relva…

JA – Sim. Sujar-me… Sinto necessidade de, pelo menos semanalmente, sujar-me. Se tal não acontecer sinto-me demasiado pasteurizado. Obrigado ao politicamente correto… Não. Vou ali e já venho.

 

AE – E costuma ir ao rio da sua infância…

JA – Todos nós temos um rio da infância. O meu era um ribeirito. O da aldeia… Porque eu também vivi dois anos em Chaves e aí tínhamos o Tâmega…

 

AE – E agora temos o Rio Cávado…

JA – Agora temos o Cávado aqui à porta de casa, em Braga. São dimensões diferentes. Mas o engraçado é que o ribeirito, o Rodas da minha terra… Depois vai mudando de nome pelo caminho… Passa a Rio Homem… Depois a Cávado e quando chega ao mar ainda continua s ser Cávado. E lá no mar… é mar. E só ele sabe que na minha terra era um fio de água.

 

AE – No fundo, o rio também descansa… Depois de fazer aquele trajeto da nascente até à foz.

JA – O rio descansa… Embora não descanse como desejava o estudante de Coimbra que um dia na ponte, olhando o Mondego, dizia: «Ai rio, como eu gostava de ser como tu. Segues o teu curso sem sair do leito». (Risos…). O rio descansa… Mas às vezes empurra as margens na sua impertinência de chegar mais depressa. Outras vezes, sente a fragilidade do caminho. Nós, no rio, encontramos muito a nossa história… Umas vezes encontramos aquele entusiasmo que é capaz de tudo e de todos… Que leva carrascos e salta pedra…

 

AE – O chamado rasgo…

JA – Exato. Mas outras vezes somos aquele fio de água que vai rastejando até encontrar uma corrente maior. A quem pede que lhe dê o braço… E quando chega ao mar é uma gota de azul limpo.

Onde se pode descansar… com o cónego João Aguiar – Emissão 08-08-2018

AE – Prefere a nascente de um rio ou a foz dessa mesma corrente?

JA – As duas coisas têm sentido… Eu prefiro, no seu sonho e na sua esperança, a nascente… A nascente nasce limpa. Ainda não recebeu nenhum contributo que no caminho, eventualmente, a provoque… Que a suje. Ou as próprias árvores que vão caindo para o rio. A nascente é sempre o sítio límpido de um começo.

A foz é a vocação… É para onde caminhamos. Cada rio, na sua nascente mais pequenina sente um grande, um enorme e inabalável chamamento do mar. Como nós, pequenos, diz a Sagrada Escritura: “pequenos pardaizinhos”. Mas sentimos o chamamento do mar que é esta realização da nossa humanidade quando chega ao momento de lavar o espelho das nossas indecisões e encontrarmo-nos com o Deus que se mostra. Temos a vocação deste colo.

 

AE – Nesse caminho também costuma sentar-se e ouvir os passarinhos a cantar…

JA – Tudo. Aliás, é através das Escrituras que chegamos ao Criador. Sentirmos a beleza do mundo… Sentirmo-nos gratos pela herança que recebemos. Sentirmo-nos responsáveis pelo legado que temos pelas novas gerações. É cuidar das águas… Cuidar da qualidade do ar. Cuidar do ambiente… a ponto de podermos dizer: «Louvado sejas meu Senhor».

 

AE – Um espírito um pouco franciscano…

JA – Sim. Espirito franciscano e também é o espírito da «Laudato Si» [NDR: Encíclica do Papa Francisco]

 

AE – Um documento que falta colocar em prática… A questão da cidadania… Do ambiente. Olhar para a natureza e considerá-la nossa irmã.

JA – Falta muito porque nós olhamos para os recursos da natureza, como algo a explorar. Muitas vezes na exploração esquecemos a preservação. Há um abuso… Na vontade do lucro imediato não nos apercebemos da perda futura e, em tantas circunstâncias, absolutamente irreversível. Este abuso é imoral.

 

AE – O descanso é uma forma de obliterar o cansaço acumulado ao longo de meses. O descanso é a construção de uma obra de arte.

JA – Sim. Estamos a construir porque o descanso tem este olhar para trás e este olhar para a frente no presente em que estamos. Há dois tempos que podem fazer-nos muito mal se nos fixarmos neles… Um tempo é o passado. Se nos fixarmos no passado ficamos presos. Mesmo que o nosso passado tenha sido brilhante. Mas se nos prendermos a ele, por mais brilhante que seja não passa de algemas. E algemas são algemas, mesmo que sejam de ouro. Se aparecer um polícia e me algemar com algemas de ouro eu não me sentiria menos preso.

Outro tempo que nos faz muito mal é a impertinência do futuro. Esta, impede-nos a experiência do ontem que se vive hoje para construir o amanhã que se chama presente. Eu gosto muito da palavra presente.

 

AE – Mas o presente não existe… No momento que o pronuncio ele passou a passado…

JA – Isso é muito cómodo, todavia vou responder de outra forma. Tu fazes anos e às vezes damos uma prenda… A prenda parece que prende. Eu prefiro chamar-lhe um presente. Este agora que te homenageia e te agradece agora. Chamar à prenda presente faz do presente… Deste presente cronológico, temporal… Desta circunstância uma prenda.

 

AE – Uma doação…

JA – Uma doação… É isto que eu tenho para te dar agora.

AE – Esse presente que tanto gosta tem de ser em dose qb… Porque temos de olhar para o futuro e recordar a nossa infância.

JA – Claro. Eu digo muitas vezes que as memórias são aquela parte que me empurra para amanhã. Nas memórias eu encontro os sonhos e hoje, no presente, eu digo: “Que parte deste sonho é que abandonaste… que já construíste ou que te falta construir”. O passado que nos empurra para a frente.

É preciso percebermos que aquilo que idealizamos, é fundamental quere-lo muito. Muitas pessoas não chegam ao amanhã porque se auto boicota. Muitas vezes queixamo-nos dos outros e esquecemos o auto boicote. O auto boicote acontece quando eu quero ser algo e não ponho meio nenhum para o ser. Vivem numa situação de queixume permanente. São uns infelizes permanentes e não descobrem que, eles próprios podiam ser fonte de felicidade.

Nunca responderam, fundamentalmente, a esta pergunta: «Quanto é que eu quero, o que quero?». Quando é que queres isso… Se eu quero muito o que quero… a força de vontade, a ajuda, o esforço, o sacrifício, o investimento… Agora se quero pouco, na primeira dificuldade pareço a raposa debaixo da vinha. Ela disse: “Estão verdes”. As uvas até estavam boas… mas ela declarou que estavam verdes para não sentir o fracasso da sua incapacidade de chegar à ramada.

 

AE – Mas a raposa é astuta…

JA – É astuta… Mas, às tantas, vai buscar um coelho e desiste das uvas, portanto muda de objetivo. Este querer hoje e querer chegar… E não ficarmos traumatizados só porque não conseguimos a perfeição da chegada. Muita gente é traumatizada com o evangelho porque este diz: «Sede perfeitos como o Pai do Céu». Isso não possível. Temos de ser, impertinentemente, buscadores da perfeição possível. E depois aceitemos os nossos limites.

Hoje, toda a gente sabe – os que me conhecem – que não posso correr. Voltamos ao passo miudinho. Mas posso andar devagar ou então posso viajar… com o coração, com a imaginação. Posso viajar num livro. Posso viajar num mapa. Há muitas formas de chegar, todavia só há uma de desistir. Dizer: «Não sou capaz».

 

AE – Essa resignação não está no seu coração porque está sempre a viajar…

JA – Não é uma resignação… Há uma questão que é a aceitação e outra coisa que é a resignação. Eu na resignação digo: «Estou tão zangado».

 

AE – Mas o padre João Aguiar não se zanga…

JA – (Risos)… Preciso de preparar o almoço… Fui à praça e nela não havia aquilo que me levou ao sítio. Tem de haver uma alegre aceitação dos momentos.

 

AE – Esses momentos de descanso são propícios para nos abrirmos ao horizonte mais largo

JA – Reorientação…. Andamos neste jogo de orientação e, às vezes, precisamos de olhar para os apontamentos e pousar a bússola. Pousá-la de uma forma que lhe demos sossego. Ela pousada… que nos aponte os pontos cardeais. É como os vinhos… Se abanamos muito a garrafa corremos o risco de não apanhar a limpidez que estava.

 

AE – O odor verdadeiro do vinho.

JA – E vem com muita borra… Nós andamos com muita borra dentro.

 

AE – Qual o evangelista que proporciona mais os momentos de descanso?

JA – Para mim, o Lucas. A misericórdia. As Parábolas da Misericórdia. Recordo a Parábola do Filho Pródigo. Aquele miúdo que levado por um idealismo… E em determinado momento descobre que, em nenhum dos sítios era ele. Ele deixou de ser ele para ser escravo. Naquele momento em que diz: «Entrou em si… Levantou-se e foi ter com o pai».

….

O pai disse-lhe: «Não tens mais fome do pão da casa do que o teu pai de um abraço teu». Isto deixa-me…

 

AE – Como é que o deixa?

JA – Deixa-me quase de lágrimas nos olhos… Perante um Deus a quem nós podemos procurar com grandes discursos… Ele diz: «Vê lá se te calas… Estou cheio de saudade tuas e tu vens fazer-me um discurso». Está lá dentro o banquete a arrefecer…

 

AE – Primeiro o lado afetivo…

JA – Deus é um abraço… E em Lucas, no Evangelho da Misericórdia, encontramos tudo isso… o coração é o sítio onde Deus se encontra.

 

 

AE – Essas palavras que escreve e dá a conhecer aos seus leitores são fruto dos momentos de descanso?

JA – Infelizmente, durmo pouco… E, às vezes, acordo de noite. Como não gosto da inutilidade de estar acordado sou capaz de pensar… Se me surge um pensamento tomo nota dele. Tenho um bloco na mesa-de-cabeceira e também existe as notas do iphone e tomo nota daquele pensamento e depois, eventualmente, vou desenvolvê-lo. Não sou uma pessoa que se sente no parto difícil de escrever. Para mim escrever não é difícil. Porque penso e passo para o papel com o absoluto desprendimento e absoluta tranquilidade. Não sou um elaborado na escrita. Por isso, digo que não é um parto difícil, nasce com espontaneidade.

Tenho uma riqueza interior que trago… Pelo fato de ser um serrano e um aldeão. Esta circunstância ajudou-me e as metáforas nascem com frequência e com razoável naturalidade.

Hoje, tenho mais tempo para esse silêncio construtivo e refletivo. Tenho mais tempo para a leitura. Tenho mais tempo para o tal degelo interior de encontrar uma circunstância…

 

AE – Para que essas metáforas possam nascer com outra fluidez…

JA – Sim. Sejam fluentes. Não estou interessado em fazer poesia, nem fazer prosa. Estou interessado em pensar. Em cima, desta toalha da escrita, do caderno ou do facebook ou, eventualmente, de um livro pousar aquilo que trago para o merendeiro. Pode ser um pastel de bacalhau… Um bocado de chouriço… Pode ser um bocado de presunto. Ou pode ser simplesmente a broa.

 

AE – Essas palavras que nascem do seu coração… brotam com mais frequência nos momentos noturnos ou diurnos?

JA – Nascem muito no momento de espera do pequeno-almoço. Tenho um amigo que, às vezes, vai tomar o que pequeno-almoço ao mesmo café que eu… Quando tenho trabalho na igreja e não o tomo em casa. E, umas vezes, chega lá e encontra-me a escrever no telemóvel e, outras vezes, encontra-me a estragar guardanapos. Ele diz: «O que estás a fazer…». E eu respondo: «Acabei de escrever isto…». Enquanto espero não estou como um boi a olhar para um palácio. Estou com um olhar que quero sensível a ver as coisas.

 

AE – Um olhar estético…

JA – Verdade. Às vezes vemos coisas espantosas… Lembro-me de uma coisa que vi… Estava um bocadinho no Inverno… Olhei para a montra, para os vidros do café, e o embaciado com o frio exterior tinha uma série de desenhos que ninguém pensou, mas estavam lá…Se não olhasse para eles, às tantas não tinham sido fixados numa fotografia ou não tinham sido vistos.

Estou cada vez mais sensível, às tais coisas… às inutilidades. À pequenina flor… Como ela nasceu ali no interstício daquele socalco. Parece que não tem terra. Mas naquele momento está ali um riso tão lindo… Tão lindo que vou guardar.

 

AE – Isso nasceu com a idade?

JA – Eu tive a sorte de um pai – sabendo pouco de agricultura – ensinava a ler. Eu, com cinco… seis anos, tinha de fazer palavras cruzadas do jornal «Primeiro de Janeiro» e ver a banda desenhada «Calisto», «Dona Gira» e o «Príncipe Valente». E ficou-me a ternura do meu pai. É engraçado que lá em casa – a minha mãe era terna, feminina, mas governava o dia-a-dia – mas o pai era capaz de vir do quartel da fronteira e chegava cheio de saudades. Era capaz de estar nas tintas para alguma impertinência… Ele vinha cheio de ternura. Vinha cheio das ausências dos abraços que queria dos filhos. Ele a mim chamava-me Joni… E perguntava se eu já tinha escrito. Eu dizia: «Tenho aqui uma redação».

Eu preciso de escrever, não no sentido de publicar… Mas agarrar uma ideia e fixá-la. Amanhã pode ir para o cesto dos papéis ou não ir…

 

 

 

 

 

AE – Na escrita tira o seu panejamento?

JA – Eu, normalmente, sou sempre eu… Não uso véus…

 

AE – Fica nu. Despe-se através das palavras.

JA – Eu sou assim. Se me querem de outra maneira procurem outro. Não sou insubstituível. Sou único e irrepetível.

 

AE – Voltando à temática da escrita… Qual o escritor que o influenciou mais?

 JA – Gosto imenso de Pessoa. Agora vou escandalizar muita gente… Gosto imenso de Camões e dos Lusíadas. Esta obra, que para muita gente, era uma tortura… Para mim são um espanto de cultura e de estética. De tudo. E depois há Torga… Com as suas montanhas, penedos, desabafos, contos e com o seu diário.

Este homem que vai passando aqui, ali e acolá. Hoje está em Coimbra e amanhã noutro local. E depois lamenta esta pátria que não encontra. E depois vai buscar um bocado de Unamuno e sente todos aqueles dramas de querer crer, mas ainda não ser capaz desse salto. Querer regressar a casa, mas achar que a estatura é muito grande e que Deus fez as portas com uma padieira muito baixa. (Risos)

 

AE – E o lado telúrico de Torga?

JA – O lado telúrico de Torga influenciou-me imenso. Tive a graça de um dia o ter visto lá em casa, a comer presunto com a sua boina quase basca… O Torga puxou-me para o joelho e recordo o meu avô me ter falado… «Sabes filho… este senhor é um escritor. Não acredita em Deus, mas daqui a pouco quer estar a olhar para o pôr-do-sol e a chorar».

Depois quis saber mais sobre este homem e este médico transmontano. Sobre este buscador de essências e de transcendências. Hoje, vou muito a Torga também para descansar. A Câmara Municipal de Terras de Bouro fez uma coisa espantosa. Do Diário de Torga foi buscar os pensamentos dele sobre o Gerês e compilou-os num pequeno livro.

O descanso na literatura, com o cónego João Aguiar – Emissão 09-08-2018

AE – Miguel Torga escreveu esta frase «Escrever para a posteridade não consola nem estimula ninguém». Concorda?

JA – Eu concordo porque é a tal contemplação do presente que eu ofereço, depois não sei o que vai ser feito… não escrevo para deixar nada para amanhã, escrevo agora, este momento, este sonho, este riso, escrevo esta dor ou a vontade de subir ao monte porque tenho a curiosidade de saber o que lá está… Amanhã não sei. Não escrevo numa perspectiva de uma herança mas para dizer estive aqui, tremi de ternura e não tive medo de o dizer. Se te acontecer o mesmo, di-lo por favor.

 

AE – O padre João escreveu o livro “Rio abaixo, memórias de uma aldeia”, Miguel Torga escreveu “pela rua abaixo só falava o vento”. Também costuma falar com o vento?

JA – Falar e ouvir, aliás tenho memórias do vento e do cheiro. Engraçadas estas memórias olfactivas e acústicas. A memória do vento que se anunciava na eira e havia duas ou três folhas em redemoinho era o vento que se anunciava. O mesmo que se infiltrava nas telhas vãs de uma casa pobre, a nossa cozinha não tinha forro e o nosso quarto dos rapazes, que éramos seis, não tinha telhas, o vento assobiava nas janelas e até nos taipais e debaixo da porta. Esta memória do vento, como também fala Fernando Pessoa “só de ter ouvido o vento já valeu a pena ter vivido”. A memória dos cheiros, a porta aberta e o cheiro das panelas chegava cá fora, um chouriço a cozer, por exemplo. O cheiro da rua e das pessoas. O cheiro do sabão rosa, quando a mãe mudava a roupa de cama ou até da sua própria blusa, o cheiro do lavado e que bem que cheira a ternura!

 

AE – Isso são momentos de descanso?

JA – São momentos de descanso e uma saudade que nos levam a outros cheiros, hoje há outros odores e outros abraços. Até outras formas de estar de amigos, amizades virtuais e que virtuosas tem pouco, a não ser que o que temos seja uma forma de prolongar e manifestar a presença. Um pouco como a fotografia: mostra o que foi mas gostávamos que fosse permanente e a fotografia serve para registar. Os outros que por ali andam podem ser interessantes só para quem gosta das estatísticas do “like” não para quem gosta da comunhão, do toque, do cheiro, da afetividade, do olhar e do ombro.

 

AE – A música que lugar tem na sua vida?

JA – Aprecio música, quanto menos barulhenta, melhor. Gosto de música instrumental, não gosto que o ruído se sobreponha à palavra. Admiro-me de quem canta bem, eu sempre cantei mal, a minha mãe mandava-me calar. Vou contar uma coisa: o meu avô materno dizia-me que se se zangasse com um vizinho, colocava-me à porta dele a cantar… (risos) Só para imaginarem como eu canto mal.

 

AE – Qual o músico que lhe enche as medidas?

JA – Gosto do Rui Veloso, por causa do cheiro a rural, por causa do “baile da paróquia”, da “menina do shopping”, aquelas letras do Carlos Tê. Sabemos que era assim, aquilo que está ali na letra, acontecia!

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