D. Manuel Linda

Em 1967, um carniceiro ditador, de triste memória como todos os outros comparsas, de seu nome Enver Hoxha, declarou a Albânia o primeiro Estado ateu do mundo. Para celebrar tal façanha, os seus correligionários, membros das «células» e outros bolcheviques, nos intervalos das torturas e dos fuzilamentos, deram-se a uma de cultura, que esta goza de boa fama: criar o primeiro museu do ateísmo à face da terra.

Mas não consta que o ateísmo algum dia tenha gerado qualquer obra de arte. Sabemos, sim, que foi especialista no espezinhar dos direitos humanos e no massacre da verdadeira cultura. Por isso, os corifeus dessa proeza tiveram de se interrogar sobre o que, afinal, colocar no tal museu. Até que um iluminado se lembrou de ir buscar as poucas imagens religiosas que não tinham sido destruídas e de as pôr a contemplar os «êxitos da revolução», as «luminosas conquistas da classe operária», «os amanhãs que cantam da reforma agrária»: um Cristo crucificado a documentar-se em “O Capital”, de Marx; um S. José doutrinado pelo “Livro Vermelho” de Mao Tsé-tung; Santa Teresinha do Menino Jesus defronte a um cartaz que propalava a união de operários e marinheiros; São Miguel-o-Anjo todo encolhido perante a escultura de uns punhos erguidos na sua direcção; e até o nosso Santo António atordoado com o ribombar que se pressentia na documentação fotográfica da implosão das igrejas dinamitadas. Tudo frente-a-frente. Como quem diz: toma lá que é para aprenderes.

Com toda essa «lavagem cerebral», não sabemos se algum destes santinhos se converteu a esta ideologia sanguinária. Mas é de pressupor que não, pois, a partir de 1995, regressaram todos a suas casas, as igrejas. E nota-se que se sentem lá muito bem, pois estão continuamente a receber visitas de crentes.

Vem-me à memória este facto histórico quando vejo por aí certos comunicadores e fazedores de opinião levantar a voz para indicarem ao Papa, aos bispos e a outras pessoas da Igreja o que esta deve ou não pregar, o que deve ou não ser objecto da sua fé e matéria da sua pastoral, que partes do catecismo podem ou não ser referidas. São os novos curadores do museu do ridículo que nem sequer recorrem à «autoridade» de um Marx ou Mao, de um panfleto arrebatado ou de uma escultura de marceneiro entusiástico: acham que a sua opinião é que comanda o mundo e basta ser deles para poder cilindrar todas as outras. Muito mais a doutrina da fé. E então se forem padres…

Todos eles possuem mais um dado em comum: repetem o que viram em algum dos seus comparsas, mas sem ler as fontes ou, muito menos, sem se darem ao trabalho de procurar o texto e seu contexto. Mas disso também estão dispensados, por uma razão ontológica: são colunistas pagos para o escândalo e, se referissem o veraz e sensato, negavam a razão de existir. E perdiam a profissão. Pessoalmente, só não sabia uma coisa: é que o rebanho ultrapassa as fronteiras e atinge outras latitudes.

Atribui-se ao controverso Noam Chomsky a afirmação de que, há décadas, não lê jornais, não ouve rádio, não vê televisão, apenas para preservar a sua sanidade mental. Será que esta receita funciona mesmo? O que é verdade é que ele tem quase noventa anos e parece que a sua cabecinha não está mal de todo…

 

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