Michel Roy, secretário-geral da Cáritas Internacional, fala campanha global «Partilhar a Viagem», que quer levar uma mensagem de solidariedade aos migrantes e refugiados, promovendo o diálogo

Foto: Ricardo Perna/Família Cristã

Entrevista realizada em parceria para a Agência Ecclesia, Família Cristã, Flor de Lis, Rádio Renascença e Voz da Verdade

Qual é a importância da iniciativa ‘Partilhar a Viagem’, que procura sensibilizar a opinião pública para a realidade vivida por estas pessoas, migrantes e refugiadas?

Vivemos num mundo que está ao contrário. Penso que a globalização criou condições de vida que são muito difíceis, para muitas pessoas. A globalização não teve como objetivo o desenvolvimento humano, o desenvolvimento humano integral que a Igreja deseja. Teve como objetivo, vemo-lo hoje claramente, criar mais riqueza, mas uma riqueza que não é partilhada, que é açambarcada. O número de milionários não deixa de aumentar, ano após ano, por isso as desigualdades crescem.

Além do efeito da globalização, há o descontrolo climático em muitos países, conflitos, violência, porque quando as pessoas estão frustradas, elas revoltam-se. Portanto, as pessoas deslocam-se, cada vez mais, por estas razões.

Deslocam-se, em primeiro lugar, no interior do seu próprio país, depois vão para outros países; a maior parte das migrações no planeta são migrações de proximidade, portanto, o que nós recebemos na Europa é uma pequena parte dos migrantes, no planeta.

Os migrantes são muitas vezes bem acolhidos: na Colômbia, por exemplo, há hoje mais de um milhão de venezuelanos e, mesmo que isso crie tensões, eles foram bem acolhidos, de forma geral.

 

A iniciativa acontece num quadro de populismo crescente na Europa e em várias nações…

Na Europa, depois nos Estados Unidos e num certo número de países, no planeta, em vez de se tomarem em consideração as consequências negativas da globalização – e de se entender que é preciso deixar que todas estas pessoas vivam dignamente -, pelo contrário, voltam a fechar-se as portas.

Eu penso que é uma solução de horizontes curtos, que não vai resolver os problemas, de todo. É preciso que nós, cristãos, consideremos estas pessoas como irmãos e irmãs, que estão em necessidade. Para o Papa Francisco, é provavelmente o arquétipo da pessoa que sofre.

Poder-se-ia pensar que os sem-abrigo, que encontramos na rua, são o arquétipo do pobre, mas para o Papa Francisco os migrantes encarnam as pessoas que sofrem. Portanto, a atitude que tivermos perante quem sofre é um sinal da nossa humanidade, da qualidade da nossa humanidade.

O Papa, já em 2017, lançou um apelo, fundado em quatro palavras: acolher, proteger, promover e integrar os migrantes. Pediu-nos que trabalhássemos sobre a cultura do encontro, isto é, a primeira etapa, o que se faz antes do acolhimento, por assim dizer. O migrante é alguém que chega, que parte, não nos deve meter medo.

Sabemos que na nossa sociedade polarizada, que rejeita os migrantes, que aqueles que estão contra os migrantes são os que nunca se encontraram com eles. Muitas vezes, em contextos onde não há imigrantes, é lá que os partidos extremistas crescem. Sabemos muito bem que, se nos encontramos com a pessoa migrantes, então vai criar-se uma relação, vamos compreender que esta pessoas sofreu, que sofre, e precisa de ser acolhida, de ser compreendida, de ser acompanhada.

 

É possível contrariar esta tendência de crescimento do extremismo?

É esse o objetivo da nossa campanha, é falar cada vez mais com as pessoas. Nós dirigimo-nos às pessoas, não aos Estados, a pessoas concretas, para que elas descubram a migração através do encontro com outros indivíduos, migrantes.

As histórias de vida, muitas vezes, são trágicas. Vemos o migrante, mas temos medo, rejeitamo-lo. Tem de ser ao contrário, é preciso pensar o mundo de amanhã – tudo muda muito depressa – com a humanidade, com os seres humanos. Nós, como crentes, como cristãos, vemos todos como irmãos e irmãs, criados por Deus.

O encontro com os migrantes é provocador, mas é também o barómetro da nossa humanidade. Se rejeitamos os migrantes, eu penso que rejeitamos a humanidade e que rejeitamos Deus, também.

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