José Luís Nunes Martins

Quase todos estamos certos de que nossa vida terminará num momento futuro. Mas como será esse fim? O que o causará? O que implica?

Na verdade, todos os dias morremos um pouco. A cada momento a vida empurra-nos para diante. Já não somos o que fomos e ainda não somos o que seremos. Se acaso o chegarmos a ser. A nossa existência está inscrita num tempo diligente e fugaz. Tudo passa e não deixa nunca de passar. Essa é a maior constância.

Será que temos consciência da morte de ontem? Somos capazes de dar conta das horas que passámos sem arriscarmos ser quem somos ou devemos ser? Ser senhor de si é ser senhor do seu tempo. Muitos são os que têm uma espécie de vida a que podíamos dar o nome de passatempo.

A nossa existência é o resultado do que escolhemos de forma livre na vida que um dia nos foi entregue e numa noite nos será tirada.

Tem importância o fim? Que relevância terá o último capítulo se ele for apenas isso: só mais um episódio de uma longa série? Será que buscamos uma vida teatral onde tudo é permitido desde que o fim redima todo o mal?

Não poderás esperar ter uma vida plena se o fim não estiver presente em cada um dos teus dias.

Que bom que seria se fossemos capazes de viver como se o fim desta nossa vida estivesse tão longe quanto perto. Tomando decisões tão acertadas para o imediato como para o longo prazo.

E depois do fim desta vida? Para que vida vou? Quem me espera? O que posso esperar? Quais as razões da minha esperança?

Pode a morte anular a vida? Não. Se escolhermos nascer todos os dias, ela poderá talvez impor uma interrupção, uma passagem, mas não mais do que isso.

A morte é apenas uma vírgula. Um ponto não final. Um salto por cima de um vazio de vida.

Não sentes em ti a vida como mais forte do que a morte? O que sentes no fundo de ti? Uma escuridão imensa e imortal ou uma luz sublime e eterna?

Tal como a luz ilumina a escuridão, mas as trevas não escurecem a luz. Também a vida é presença face à morte, mas a morte é ausência face à vida.

Tal como a luz não é a ausência de trevas, mas as trevas são ausência da luz. Também a vida não é a ausência da morte, mas a morte é apenas a ausência de vida.

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