Paulo Rocha

O São João é apenas a circunstância, o pretexto para evocar dois entusiastas da sua festa e das gentes que o celebram da Ribeira até à Foz. E a evocação acontece nestes dias porque o do ano passado foi o último São João, para os dois!

Um deles, deixou-nos há um mês… E lembro bem a última vez que estivemos juntos. Não na noite de folia, da Ribeira, Aliados ou Fontainhas, ou ao longo das últimas margens do Douro. Foi na tarde do dia 24, quando muitos bairros acordavam, e, na Foz Velha, se celebrava a liturgia do santo com quem o povo faz festa. Era pároco o padre Rui Osório, falecido no dia 31 de maio deste ano; e a Missa desse dia 24 de junho de 2017 foi presidida por D. António Francisco, bispo do Porto, falecido no dia 11 de setembro seguinte. Infelizmente para nós, esse foi o último São João, para os dois!

O conhecimento de um e de outro foi sempre à distância, em circunstâncias de trabalho, onde a amizade foi ganhando relevância crescente. Evocá-los nestas linhas não tem o objetivo de fazer comparações ou tentativas de assemelhar importâncias de um ao outro, mas de querer recordar quem não pode ser esquecido, cada um por razões que lhes são próprias.

O trabalho do jornalista e padre Rui Osório foi a razão para querer folhear a edição do JN de Domingo regularmente. Gostava de acompanhar o que escrevia, os critérios para escolhas que tinham de caber numa página de jornal e, mais recentemente, em menos ainda. E tentar compreender o que, numa semana, era de facto relevante sobre o tema “religião”, para um jornalista que durante décadas fez reportagem no terreno, liderou editorias e redações, defendeu a classe e lutou pela presença do tema religião nos media, em igual circunstância de qualquer outro, seja de desporto ou política, e sem filtros diante da instituição ou dos seus protagonistas.

A frontalidade com que defendia o tema religião nos jornais e os jornalistas nos ambientes religiosos fez do padre Rui Osório uma referência no jornalismo em Portugal. E a verdade que punha nas suas tomadas de posição, até nos momentos em que assumia que errara, traz à profissão do padre uma frontalidade a reter e a seguir. Mesmo que se discordem de pontos de vista ou afirmações assumidas no decurso das narrativas, a dos jornais e a da vida!

Aconteceu que esse último São João foi celebrado na Paróquia da Foz do Douro, entre cascatas e manjericos, numa celebração presidida pelo bispo do Porto de então. Uma ocasião para D. António Francisco confirmar o que nos foi dizendo com a vida, com os gestos e com as palavras: a proximidade a todos, a amizade para com todos e a disposição de viver em alegria a missão comum.

Guardo gratas memórias de D. António Francisco e dos desafios que deixou aos crentes que querem testemunhar um modo de vida assente no acolhimento, na fraternidade e na alegria de seguir Cristo, incluindo todos. E não esqueço os desafios que ficam da história de vida do padre Rui Osório, que quis afirmar a necessidade de fazer jornalismo também sobre o tema religião em paridade de circunstância com qualquer outro, seja em torno da Igreja Católica ou outra, e foi determinado em dizer que a transparência e a verdade são valores essenciais do jornalismo e da Igreja Católica. Por isso, afirmou-os em alta voz e no seu percurso de vida! Como tinha de ser… O padre e o jornalista!

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