Octávio Carmo

Chegou ao público o documento de trabalho da próxima assembleia geral do Sínodo dos Bispos, dedicado aos jovens. Um texto clássico, escrito mais para a hierarquia do que para as novas gerações e disponível apenas em italiano, para já, o que também indicia uma certa autorreferencialidade que é contrária ao dinamismo que o Papa propõe sistematicamente para o trabalho da Cúria Romana.

Deixando de parte estas considerações sobre alguns sinais menos positivos, a verdade é que o texto traz consigo um conjunto de questões que derivam da auscultação direta dos mais novos. Não se trata só do que a Igreja Católica quer dizer aos jovens, mas de tudo aquilo que estes querem ver esclarecido, a partir da sua realidade diária, abrindo por isso novas portas para um debate que se espera virado para o mundo, aberto, corajoso e não de lamento ou de defesa.

Parece-me cada vez mais claro que propostas repetitivas, estereotipadas, decalcadas do passado não mobilizam nem atraem quem vive em novas buscas. Procuro inspiração num tema do próprio documento de trabalho, cuja inclusão me deixou muito feliz, a música: quantas vezes não ouvimos dizer que “já não se faz música como antigamente?”. Pois, ainda bem. A responsabilidade de um criador é fazer música como ela se faz hoje. A responsabilidade de quem ouve é não ficar parado no tempo.

O tom geral do documento é de valorização da juventude como uma etapa com dinâmicas próprias, não apenas de “passagem”, mas de afirmação e construção. Um tempo de busca de sentido, muitas vezes ameaçada pela velocidade a que se desenrolam os dias, debaixo do bombardeamento de estímulos e exigências que nem sempre são fáceis de cumprir ou satisfazer.

Esta busca pessoal e comunitária precisa de valores que a guiem e enquadrem, para que as respostas façam sentido e o caminho seja identificável e, acima de tudo, percorrível. É aqui que a proposta católica mais pode fazer sentido para os jovens.

Nesse sentido, é lógico pensar que novas buscas precisam de novas propostas, de nova linguagem, de compromisso em campos até agora inexplorados ou julgados indignos por quem tem a responsabilidade, em função da sua fé católica, de atender a qualquer drama que atinja um ser humano que esteja perto de si. Desistir do futuro é anular o presente.

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