Padre António Manuel Martins

Cinco anos passaram desde que o então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio, «vindo do fim do mundo», foi escolhido para bispo de Roma pelos seus irmãos cardeais. Um novo estilo, próximo, afetivo, encarnado, atento à condição de cada pessoa e de cada situação marca o ministério de Pedro na Igreja contemporânea. Começou, então, nesse final de um dia chuvoso, em 13 de março de 2013, a «revolução da ternura» que está em curso.

Desafiando rotinas instaladas, situações acomodadas, inércias e fadigas pastorais, o Papa Francisco introduziu, na vida da Igreja, a dinâmica do êxodo, o deixar de estar centrada em si mesma para arriscar ser «hospital de campanha», cuidando das feridas da humanidade concreta, exposta às tormentas do mundo que avança por entre promessas e crises. Esse propor que a Igreja seja a «casa aberta do Pai» a todos.

O inesperado da surpresa aconteceu. Reafirma-se, sem hesitação, a herança conciliar. Intensifica-se e operacionaliza-se a via de uma autêntica sinodalidade. Convoca-se o sentir do Povo de Deus no seu conjunto como sujeito crente, como aconteceu na preparação dos dois Sínodos sobre a família com uma prévia e ampla consulta aos fiéis. Há uma sensibilidade teológica e uma prática de governo a que não estávamos habituados.

Francisco põe em processo, a nível de toda a Igreja, uma dinâmica sinodal de Povo de Deus a caminho, por entre tensões e consensos, na procura de um sincero discernimento à vontade de Deus no concreto da história que avança.

Outra nota de continuidade com o Concílio é a afirmação de que a Igreja está ao serviço da humanidade, porque está ao serviço do Filho de Deus feito carne. Porque em sua carne o Verbo de Deus encontra-se com a carne de cada pessoa concreta, e não há nada de humano que não seja por Ele assumido para ser redimido, como diziam os Padres da Igreja. A centralidade do humano significa a centralidade e a essencialidade do Evangelho. Como afirma o Papa Francisco, em sua programática exortação A alegria do Evangelho, «o Evangelho convida-nos a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo a seu lado» (EV 88). Porque é na carne de Cristo que começa a «revolução da ternura». A única revolução da qual o Papa quer ser protagonista e que a todos nos convoca.

A grande reforma que o Papa Francisco está a implementar, a nível de toda a Igreja, mais do que a mudança de estruturas (necessária, e para alguns ainda demasiado lenta), é a mudança dos corações e das atitudes. A mudança interior que acontece na abertura pessoal ao Evangelho, numa dinâmica de contínuo discernimento. O próprio Papa Francisco assim o explicita: «Muitos pensam que as mudanças e as reformas podem acontecer em pouco tempo. Eu creio que será sempre necessário tempo para lançar as bases de uma mudança verdadeira e eficaz. E este é o tempo do discernimento»; «O discernimento realiza-se sempre na presença do Senhor, vendo os sinais, escutando as coisas que acontecem, o sentir das pessoas, especialmente dos pobres» (entrevista a Civiltà Cattolica, em 21.09.2013). Não compreenderemos nunca a convocação ao discernimento, caso a caso, tendo em conta o concreto de cada situação pessoal, prescindindo da espiritualidade inaciana do Papa Francisco. Está aí, creio eu, a dimensão mais inovadora deste pontificado, que tem também criado resistências e perplexidades.

Numa leitura simplista, poderá parecer-nos que o Papa Francisco procura os conflitos, senão mesmo os provoca. A tensão faz parte da lógica da própria realidade e da condição humana (e cristã). O modo pragmático, processual, aparentemente ambíguo do seu governo e do seu pensamento, é um modo deliberado de inteligência da fé. A fé está marcada por um espaço de dúvida. O tempo é superior ao espaço. A unidade permanece sobre o conflito. A realidade é mais importante do que a ideia. O todo é superior à parte. «Devemos encaminhar processos, mais do que ocupar espaços», pois é aí que Deus se encontra. Trata-se de um modo de ser fiel, no pensamento e na ação, à própria realidade, marcada pela ambivalência, pela tensão, por situações polares, aparentemente opostas e contraditórias. Uns quererão identificar aí uma leitura dialética de tipo hegeliano; eu prefiro dizer que se trata de uma lógica paradoxal, enraizada no paradoxo dos paradoxos que é o próprio Cristo (S. Máximo o Confessor) e na mais profunda reflexão teológica contemporânea (Erich Przywara, Gaston Fessard, Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar).

Uma palavra final: o pontificado do Papa Francisco está marcado, no presente, por uma densidade dramática. É certo que a seu modo todos os papas do pós-Concílio passaram a sua prova. Mas no atual condensam-se e confrontam-se tendências e polaridades que atravessavam, no subterrâneo, a vida da Igreja contemporânea. Agora, nesta dinâmica processual, o que se dizia nas alcovas é dito nos telhados. Este debate, com rostos, protagonistas, ideias, tem a vantagem de uma clarificação, de um sair do anonimato. Expressão da grandeza humilde do Papa Francisco é a sua capacidade de estar continuamente em processo, de não ter nem um pensamento nem uma ação encerrados. Esse expor-se ao confronto, esse não sair fora da tensão da realidade, o rever as próprias decisões e não dar por encerrado o seu discernimento é a maior prova de autenticidade do seu pontificado. Podemos, eventualmente, lamentar a demora nas reformas da Cúria, aplaudir (ou desconfiar) da sua abertura diplomática à China e à Rússia, reconhecer a ousadia de ter trazido para a agenda política temas incómodos (os refugiados; os efeitos nefastos do liberalismo económico; a crise ecológica), medir os níveis de popularidade, achar até que «bate muito» no clero, mas estaremos ainda no periférico. Na própria carne do Papa, que dá o corpo ao manifesto, encarna-se, em carne viva, a própria tensão evangélica, que é promessa, caminho de esperança, mas também permanente combate.

 

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