D. António Marto analisa a relação dos vários pontificados com Fátima e o momento atual de receção de uma mensagem que tem na misericórdia a “síntese” interpretativa. Em entrevista à Agência ECCLESIA, o bispo de Leira-Fátima diz que tem “muito respeito” por cada peregrino e, no contexto da canonização dos pastorinhos, afirma que “é hora de escutar as crianças

Agência Ecclesia – A celebração do Centenário das Aparições de Fátima e a presença do Papa Francisco para o assinalar marca o início de uma nova era na história do Santuário?

D. António Marto – Fátima está muito ligada à presença dos Papas. É uma mensagem que se dirige à História, acompanha a História da Humanidade e História da Igreja. E cada Papa tem vindo aqui com uma intencionalidade particular: para o Papa Paulo VI, em 1967, o grande tema da sua homilia foi a paz, na altura em perigo por causa da guerra fria.

 

AE – Também a paz na Igreja?

DAM – E a paz na Igreja, sobretudo logo a seguir ao Concílio Vaticano II, que o Papa Paulo VI conduziu com mestria, evitando os cismas (o que pode ter sido uma graça de Nossa Senhora, porque normalmente depois de cada concílio há sempre um cisma, há sempre que gente que não aceita o Concílio).

 

AE – Fátima pode estar ligada, dessa forma, ao Concílio Vaticano II, quando se assinalavam 50 anos das Aparições?

DAM – Foi lá que o Papa Paulo VI anunciou o título de ‘Mãe da Igreja’ atribuído a Nossa Senhora. E, após o Concílio, decidiu sozinho, contra a opinião de toda a Cúria Romana, vir a Fátima.

Depois veio o Papa João Paulo II, tendo por tema central a defesa da dignidade da pessoa humana em ordem à libertação dos povos que estavam subjugados por regimes totalitários e ateístas, ligando-se de uma forma particular e íntima a Fátima, que visitou por três vezes.

 

AE – E aqui continua…

DAM – Continua! E uma grande notoriedade de Fátima deve-se a ele, depois disso!

Veio o Papa Bento XVI, num momento difícil da Igreja, a necessitar de purificação. Ele mesmo atualizou esse aspeto da mensagem, porque a mensagem é dirigida também à Igreja, tanto à Igreja que Sofre como a que passa pela crise e precisa de purificação. O Papa Bento XVI nesse aspeto foi formidável e excecional quando, no avião que o trazia para Portugal, aplicou a Mensagem de Fátima à purificação da Igreja, da sujidade que tinha entrado cá dentro e era necessário limpá-la.

Agora vem este Papa, cujo pontificado é marcado desde o início pela misericórdia, o que já contribuiu para tomarmos mais consciência desse aspeto, porque a Mensagem de Fátima é essencialmente uma mensagem de misericórdia!

A última aparição de Nossa Senhora a Lúcia, em Tui, termina com duas palavras: “Graça e Misericórdia”. Na minha opinião essa é a síntese de toda a mensagem, a cúpula.

A visita do Papa Francisco relança a mensagem no aspeto da misericórdia, de uma Igreja casa materna da misericórdia. Fátima deve ser um lugar materno da misericórdia, onde todos e cada um se sinta acolhido, escutado, compreendido, amado, perdoado e encorajado a viver a boa nova do Evangelho, de um Deus próximo, que oferece a todos um caminho de salvação, sem limites à misericórdia.

Por outro lado, o tema das periferias, no contexto da devoção mariana do Papa que está muito ligada à ternura, levada às periferias geográficas, dos povos que estão mais à margem na miséria ou em guerra, e existenciais, de todas as pessoas que sofrem e precisam da proximidade e do apoio da Igreja.

 

AE – Prevê que esses serão os temas de eleição do Papa Francisco, em Fátima?

DAM – Creio que sim! Mas Francisco é um Papa das surpresas. Era mais fácil prever o que viria dizer Bento XVI, a quem já conhecíamos o pensamento. Este é um Papa das surpresas, quer nos temas que traz quer na maneira de os abordar, de uma maneira muito prática, acessível, tocante, mordente até. Mas penso que não deixará de tocar esse tema da misericórdia e das periferias.

 

AE – O Papa Francisco tem credibilidade junto de públicos menos próximos da Igreja Católica. A sua presença em Fátima será também um fator de credibilização da mensagem junto de quem se distancia deste ambiente?

DAM – Todos os Papas que aqui vieram deram notoriedade e credibilidade a Fátima. Quando o Papa peregrina, o Pastor Universal da Igreja, é toda a Igreja que peregrina com ele! Naturalmente que este Papa entra no coração das pessoas pela sua proximidade, pela sua humanidade, pela misericórdia, que coloca a Igreja no mundo não para condenar, mas para transmitir o amor misericordioso de Deus que é oferecido a todos incondicionalmente. O que dá mais credibilidade do ponto de vista mediático e existencial, porque do ponto de vista objetivo já a tem.

 

Maturidade na receção mensagem

AE – A celebração do centenário é uma ocasião para que a receção da Mensagem de Fátima aconteça de forma nova?

DAM – Este centenário foi uma motivação muito grande para a redescoberta da beleza e da riqueza da Mensagem de Fátima. Muitas vezes foi compreendida de forma redutora e fragmentada: umas vezes porque reduzida a devoções avulsas, desconexas da própria mensagem, sem saber a relação entre a devoção e a mensagem e, por isso, a razão de ser da devoção; outras vezes porque reduzida aos apelos de Nossa Senhora, sem colocar em relevância os dons que ela trazia à humanidade, que vivia horas dramáticas e a quem Deus vinha trazer dons para superar os dramas daquela época.

O centenário foi o motivo e o momento – mesmo para mim mesmo – em ordem a uma visão global, harmónica da Mensagem de Fátima, pondo em relevo em primeiro lugar os dons: é uma mensagem de graça, de misericórdia e de paz, que depois requer o acolhimento e a vivência e o testemunho dessa mensagem, ou seja, a resposta aos apelos de Nossa Senhora, à conversão dos corações – porque o mundo muda na medida em que mudar o interior das pessoas -, à oração, sobretudo a oração pela paz, à adoração, reconhecendo Deus e a sua presença na vida das pessoas e do mundo, e à reparação, hoje a revalorizar porque se trata de reparar o que foi estragado pelo pecado dos homens, de reconstruir o que foi destruído, de refazer o que foi desfeito no mundo e na relação entre os povos. Ligado com estes aspetos estão as devoções típicas de Fátima, por exemplo a adoração eucarística, a devoção ao Imaculado Coração de Maria (a Mãe que fala ao coração dos filhos) e ao Sagrado Coração de Jesus.

 

AE – No livro ‘Fátima, Mensagem de Misericórdia e de esperança para o mundo”, o D. António Marto escreve que Fátima é a voz das vítimas deste mundo…

DAM – É verdade. A Mensagem de Fátima convida-nos a ler a História a partir das vítimas, a partir dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados, dos que não contam, em contraste com os poderosos que têm já a sua geografia do poder.

 

AE – Aí a mensagem não consegue chegar?

DAM – E muito mais difícil, porque normalmente o coração dos poderosos está possuído pelo ídolo do poder.

 

AE – E contra isso reage a Mensagem de Fátima?

DAM – Reage contra isso e, por isso, procura criar um movimento popular, acessível e abrangente de todo o povo, em ordem a uma renovação espiritual e moral dos povos.

 

AE – Incluir o tema da misericórdia, a partir da aparição de Nossa Senhora em Tui, traz novidade à interpretação da mensagem de Fátima?

DAM – Para mim, a misericórdia é a síntese final da Mensagem de Fátima. Começou com as aparições do anjo (como diz a Irmã Lúcia: ‘quis-nos introduzir no mistério de Deus, do amor de Deus e na sua miseridórdia’), os diálogos com Nossa Senhora, que temos de ver no seu conjunto, e depois essa última, que é uma visão deslumbrante, que cada pessoa recebe de acordo com as imagens e conceitos que tem.

 

AE – E não encontra contradições entre elas?

DAM – Não. Para mim, as últimas aparições com Lúcia adulta, em Pontevedra e Tui, são de caráter complementar e interpretativo. Não vejo contradição.

 

A conversão é de todos os tempos

AE – Fátima determina-se pela receção da mensagem, em diferentes épocas como as duas Grandes Guerras ou ocasiões marcadas mais pela dimensão da penitência. Na atualidade, o que define a receção da mensagem? Há uma predominância cultural em torno da mensagem?

DAM – A conversão marca a Mensagem de Fátima.

 

AE – Em todos os tempos?

DAM – Em todos os tempos! Naturalmente que a conversão não é algo de abstrato, mas de um momento histórico, na situação de cada peregrino, de cada família ou sociedade.

Fátima cruza-se depois com cada época: a primeira e segunda Grande Guerra, com milhões de vítimas inocentes, tendo Fátima interpretado o clamor das vítimas quando Nossa Senhora foi porta-voz do clamor das vítimas. Segue também a história do país, com reflexos na renovação espiritual da Igreja nas várias épocas, mas é universal.

Neste centenário, demos um relevo especial a uma abordagem cultural porque, para muita gente, Fátima é uma espécie de subcultura, para os simples, para os pobres, os ignorantes e incultos, o que já significa um desprezo pelo que o povo é, com muitos valores. Procuramos, por isso e porque os desafios dos tempos o exige, transmitir a mensagem em diferentes registos de linguagem, para as crianças, os jovens e os adultos. Tanto através da literatura, como da arte, da música, o teatro e até do cinema, para que Fátima seja expressão e promotora de cultura de valores, que fale às pessoas de hoje.

 

AE – É essa a forma de atualmente Fátima se impor à Igreja e ao mundo (recuperando uma expressão do cardeal Cerejeira)?

DAM – É um aspeto, mesmo não sendo o único! A forma de comunicação e evangelização tem de assumir estas novas linguagens.

 

Canonização dos pastorinhos

AE – O que acrescenta ao que se vive em Fátima a canonização dos pastorinhos?

DAM – A canonização dos pastorinhos é como a cereja em cima do bolo. O centenário não ficaria completo sem este aspeto da canonização dos pastorinhos.

A santidade dos pastorinhos é o fruto mais belo da Mensagem de Fátima. E tem um significado muito relevante: primeiro porque são as primeiras crianças não mártires a serem canonizadas, a serem reconhecidas como santos. A santidade é para todas as idades.

 

AE – A caraterística principal dos pastorinhos é a disponibilidade para receber Deus?

DAM – Há uma pergunta chave que Deus faz aos pastorinhos donde parte todo o caminho que eles fizeram: “Quereis oferecer-vos a Deus para reparar os pecados do mundo?”

Quer dizer: Nossa Senhora vem buscar colaboradores no desígnio da misericórdia de Deus. Começou por estas crianças disponíveis, que depois fizeram o seu caminho na companhia de Maria.

Trata-se de uma santidade do quotidiano, cada um com a sua característica própria: o Francisco é mais meditativo, contemplativo, porque viveu fascinado pela beleza da bondade e do amor do mistério de Deus, de que ele fala. O que corresponde à dimensão mística da fé, muito importante no mundo em que vivemos: sem o suporte cultural, familiar e social da fé, ela não se aguenta sem a experiência amorosa de Deus. O que constitui uma grande interpelação! Depois, como ele gostava de meditar na vida à luz de Deus, é um convite para nós, que vivemos tão distraídos e dispersos, a meditar no essencial da vida.

As crianças também ensinam os adultos! Digo-o porque tenho aprendido muito com as crianças! É a hora de escutar as crianças.

A Jacinta tinha a caraterística da compaixão, que sofria com os que sofrem e era capaz de rezar por eles e até de partilhar a merenda com os que não tinham. Numa sociedade marcada pelo individualismo, cada um no seu mundo, pela indiferença em relação ao outro, chegando mesmo a virar-se o olhar para não ver o outro, a compaixão é a virtude que nos leva a sofrer com os outros, a partilhar o sofrimento dos outros e a sofrer pelos outros. Isso é belo e necessário hoje!

 

Renovação da Igreja no ‘altar do mundo’

AE – O Papa Francisco, em Fátima, traz as preocupações da renovação da Igreja que quer concretizar, colocando-as junto a Maria?

DAM – Há aspetos interessantes da relação do Papa com Fátima. A primeira coisa é que, antes de ir para o conclave, foi de propósito celebrar a última Missa a uma Igreja de Nossa Senhora de Fátima; no primeiro Ângelus, refere Nossa Senhora de Fátima; no Ano da Fé, fez o ato de consagração do mundo a Nossa Senhora de Fátima, tocando-a afetivamente; na mensagem para o Dia Mundial da Juventude, recorda os 300 anos de Aparecida e os 100 anos das Aparições de Fátima; depois de ser eleito, dos cumprimentos que recebeu do então cardeal-patriarca de Lisboa D. José Policarpo, pediu para rezar por ele em Fátima, consagrando o seu pontificado a Nossa Senhora.

Penso que o Papa Francisco vem colocar o seu pontificado diante de Nossa Senhora com todas as preocupações que tem!

 

AE – Um outro aspeto que o D. António Marto valoriza na Mensagem de Fátima diz respeito à infidelidade e a apostasia na Igreja. É um problema também dos dias de hoje?

DAM – O risco da apostasia era muito grande quando a Igreja era perseguida e muitos cristãos tinham as suas fraquezas e abandonavam a fé ou renegavam-na publicamente, mesmo que no íntimo permanecesse.

Hoje o maior risco não é a apostasia declarada, mas a indiferença religiosa de quem prescinde de Deus e o põe de parte, mesmo que o não negue. Hoje prescinde-se, põe-se de parte, voltam-se as costas e vive-se como se Ele não existisse ou não estivesse presente. Esta indiferença religiosa contagia bastante os ambientes religiosos. As pessoas dizem ‘sou católico’, mas depois vivem sem o sentido da presença de Deus, sem a experiência amorosa de Deus de que os pastorinhos deram testemunho.

 

AE – Não é antes uma indiferença à instituição, à Igreja Católica?

DAM – Não é só! Também existe: há uma desafeição por tudo o que são instituições…

 

AE – E uma afeição crescente por líderes, por exemplo pelo Papa e por ambientes como o do Santuário de Fátima…

DAM – É o que chamamos pós-modernidade, onde as pessoas se determinam pela emoção, pelo afeto, pelo que os toca e interessa mais e interpela. Mas o grande problema, hoje, é o da indiferença religiosa em relação ao próprio Deus. Há espiritualidade, nas uma espiritualidade ‘new age’, sem Deus, que parece incómodo.

 

AE –Alfredo Teixeira, professor da Universidade Católica Portuguesa, olha para Fátima como um local onde acontecesse uma reconfiguração da experiência crente, não em torno de comunidades, mas do indivíduo. Identifica-se esse processo aqui em Fátima?

DAM – É verdade, mas não acontece só agora, já vem de longe! Até há gente que não frequenta a missa dominical, mas vem aqui de vez em quando…

 

AE – O que é que isso revela?

DAM – A individualização da religião. Falta a abertura do coração à dimensão comunitária e universal da fé. O que requer comunidades vivas, que não sejam anónimas, onde cada um vive para seu lado.

Aqui, em Fátima, há também uma educação da fé a fazer, porque um dos perigos é as pessoas pensarem que se convertem ao vir a Fátima

 

AE – Mas ajuda…

DAM – Ajuda, sensibiliza, toca, mas não dispensa todo o trabalho que se faz nas comunidades cristãs pelo mundo fora

 

 

Cada peregrino

AE – O que diz ao bispo de Leiria-Fátima o rosto de cada peregrino que está no recinto do Santuário de Fátima?

DAM – Cada peregrino traz uma história consigo, uma história de fé que me deixa maravilhado e me interpela, muitas vezes com os dramas da vida, as esperanças e alegrias, que se notam no canto, na procissão de velas, no adeus, nas lágrimas, que são muitas vezes lágrimas de dor, mas também são lágrimas de alegria…

 

AE – O D. António disse que se converteu a Fátima: pelos estudos intelectuais ou ao ver o seu pai a rezar o terço?

DAM – Pelas duas coisas simultaneamente. O meu pai deu-me uma lição de fé como ninguém, pela simplicidade da fé que vivia, na simplicidade da expressão da piedade popular, mas com uma transferência e uma riqueza de alma que eu não tinha, o que fez com que as escamas com que olhava para a piedade caíssem e me abrisse aos valores da piedade popular que aqui se expressam. Tenho muito respeito pelos peregrinos, mesmo que possa discordar de uma ou outra manifestação mais chocante, mas sempre com muito respeito pela história de cada um. Depois foi o estudo das ‘Memórias da Irmã Lúcia’. Sem esse estudo aprofundado nunca teria captado a originalidade e riqueza desta mensagem.

Por vezes as pessoas pensam que a Mensagem de Fátima se possa substituir aos Evangelhos ou seja uma espécie de Evangelho. Não é. É um eco do Evangelho para um determinado momento da história e que continua sempre a ser atualizado no tempo, nos acontecimentos.

 

O centenário em sete anos

AE – Em 2010, quando o Papa Emérito Bento XVI lançou o centenário e, desde aí, começou a sua preparação. Está a corresponder às expectativas criadas na altura pelo bispo da Diocese de Leiria-Fátima?

DAM – Está. Eu apanhei a interpelação do Papa Bento XVI quando ele terminou a homilia dizendo ‘daqui a sete anos voltareis aqui para celebrar o centenário’. Nessa altura disse ao reitor do Santuário de Fátima ‘vamos fazer um programa já, de sete anos, para comemorar o centenário não apenas num ano, que será muito pouco e muito pobre’. Uma equipa trabalhou os programas para cada ano, o que correspondeu às minhas expectativas e superou-as! Foi muito além do que eu previa.

 

 

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