Responsável pelo organismo católico na Diocese de Setúbal destaca oportunidade para «aprender» e fazer mais pela dignidade destas pessoas

Setúbal, 23 out 2018 (Ecclesia) – As comunidades de migrantes e refugiados em Portugal vão poder dar voz às suas histórias e experiências, através de uma iniciativa de sensibilização inserida na campanha ‘Partilhar a Viagem’, da Cáritas Internacional.

De forma simbólica, estes relatos vão ser recolhidos através de uma “mala de viagem” que estará a percorrer várias dioceses do país, até maio do próximo ano.

O projeto arrancou na Diocese de Setúbal e, segundo o presidente da Cáritas local, tem como objetivo de “agitar consciências” e gerar “atitudes diferentes” na sociedade, perante a situação daqueles que hoje são obrigados a deixar as suas terras em busca de uma vida melhor.

“Pretende-se que estas pessoas partilhem connosco as razões porque saíram ou vieram, que dificuldades encontraram para chegar ao seu destino, que dificuldades encontraram e encontram no país de acolhimento, que coisas boas também aconteceram e quais são as expetativas que têm”, explicou Domingos de Sousa, em declarações hoje à Agência ECCLESIA.

Ao receberem a mala, os migrantes e refugiados são desafiados a escrever uma carta com a sua história de vida.

No final do projeto, esses textos, desde que devidamente autorizados pelos autores, serão selecionados pela Cáritas Portuguesa e mais tarde publicados em livro e disponibilizados ao público.

“Com estas experiências nós vamos aprender muito (…) Temos de estar mais empenhados e mais atentos, porque há realidades que não conhecemos bem, e sensibilidades que temos que desenvolver”, sustentou o presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, que deu como exemplo um caso concreto do território sadino.

De uma comunidade “multicultural” de migrantes provenientes de países como o Nepal, o Paquistão, a Índia e da Guiné, atualmente radicada na zona envolvente de Pegões, em localidades como Poceirão, Canha e Rio Frio.

Pessoas e famílias que segundo Domingos de Sousa enfrentam atualmente um contexto “infrahumano” de precariedade, sobretudo devido à falta de habitação condigna, e algumas mesmo de “exploração” laboral.

Aquele responsável considera “chocante” que em pleno século XXI situações destas ainda aconteçam, ainda para mais a quem “veio para cá porque necessitava de trabalhar e de um país onde pudesse viver em paz”.

“Tratam-se de pessoas como nós! Em primeiro está a dignidade das pessoas, tratá-las com dignidade, e isso não está a ser feito”, aponta o presidente da Cáritas sadina, que deu depois conta de alguns projetos que já estão em marcha para apoiar esta causa.

Algumas comunidade que conhecem o problema estão a disponibilizar bens materiais, como roupas, mobílias e eletrodomésticos para atender às necessidades daquelas pessoas e tê-las instaladas com mais dignidade.

“Uma família que disponibilizou o recheio de uma habitação vai entregá-lo esta quinta-feira”, adiantou Domingos de Sousa.

A par destas iniciativas mais de emergência, está neste momento a ser constituído “um grupo de trabalho”, a partir de várias paróquias, “no sentido de identificar as pessoas das comunidades em causa, saber quem são, de onde vêm e que problemas têm, ao nível laboral, da autorização de residência, da saúde, da educação”.

Outra aposta passa por reforçar o ensino da língua portuguesa, porque “essa é uma carência que estas pessoas têm”.

“Algumas estão cá há anos, outras há meses, mas já compreendem e sabem exprimir-se em português, embora com dificuldade, e têm uma vontade enorme de aprender”, frisou o presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal.

Domingos de Sousa lembrou que existem em Portugal vários casos semelhantes a este, da região de Setúbal, de pessoas migrantes a passarem por dificuldades.

E deste sentido espera que o projeto que está em curso na região, e que vai passar por vários outros pontos do país, ligado à campanha ‘Partilhar a Viagem’, “sensibilize e alerte as pessoas para o respeito pela dignidade de todos”.

“O mundo dá para todos, nós cabemos todos aqui, os recursos são suficientes para todos, têm é que ser devidamente trabalhados e geridos”, completou.

JCP

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