Miguel Oliveira Panão (ProfessorUniversitário), Blog & Autor

Recentemente li um livro de Cal Newport intitulado _“So Good They Can’t Ignore You”_ sobre o desmantelamento da ideia da importância de seguir a nossa paixão quanto à realização profissional. Em vez disso, vale a pena investir na mais exigente opção de adquirir capacidades raras e valiosas, e ser “bons” na área em que desenvolvemos essas capacidades, de tal modo que não nos possam ignorar. Daí a ideia do título desse livro.

Depois de o ler, pensei que o ser humano não se realiza somente ao nível profissional, mas também ao nível espiritual. E fazendo a experiência de como o Evangelho é uma Boa Notícia dirigida a todos, a forma de o transmitir deve ser tão boa que ninguém a possa ignorar.

Porém, em geral, será que as pessoas lêem o Evangelho? Como ouvi recentemente, mais facilmente “lêem” o Evangelho vivo que é a nossa vida, do que Marcos, Mateus, Lucas, João, ou qualquer uma das Cartas de S. Paulo, etc. Por isso, penso que se traduzirmos bem o Evangelho em vida, cria-se uma ponte para o Evangelho propriamente dito.

A questão está em como fazê-lo, de tal modo que os outros não possam ignorar.

Capital espiritual
Cada momento da nossa vida é único. Logo, a vida é feita de momentos raros e valiosos. Se esses momentos traduzirem com intensidade o Evangelho em vida, é como se alguém ao participar deles pudesse escrever uma frase do Evangelho sem nunca o ter lido.

Assim, cada acto de amor, cada escutar, cada dom que colocamos ao serviço dos outros, sobretudo aqueles que vivem com mais dificuldades, são oportunidades de desenvolver o capital espiritual. Porém, esse desenvolvimento implica alguma atenção particular a tudo o que se passa à nossa volta. Um voltar-se para todo aquele que passa ao nosso lado. Actualmente isso é muito difícil quando o nosso olhar está sistematicamente voltado para nós próprios, em particular, para o écran do nosso smartphone.

Num outro dia, quando fui comprar pão à padaria, um senhor à minha frente não tirava os olhos do telemóvel. Nem sequer olhou para a pessoa que o atendeu que teve, inclusive, de dizer várias vezes boa tarde até que ele percebesse. Se queremos desenvolver um capital espiritual que informe a nossa vida à luz do Evangelho precisamos de estar atentos e olhar em frente.
Depois, para aumentar o capital espiritual precisamos de uma prática deliberada.

Prática deliberada
O termo foi introduzido por Anders Ericsson da Universidade Estatal da Flórida nos EUA, e define-se como uma actividade cujo único propósito consiste em melhorar aspectos específicos do desempenho de uma pessoa. A prática deliberada implica ir para além das zonas de conforto e receber retorno da parte de outros sobre o nosso desempenho.

O amor ao outro pode levar-nos facilmente para lá da nossa zona de conforto. E amar com autenticidade, sem nada esperar, e no dom-total-de-si-mesmo, não fácil em certos casos. Mas quando estivermos face-a-face com Deus não é o quanto amámos que importa? A prática deliberada da arte de amar – 1) ama a todos, 2) toma a iniciativa sendo o primeiro a amar, 3) ama o outro como a ti mesmo, 4) ama os inimigos, 5) ama concretamente, 6) e faz-te um com o outro – é a melhor forma de praticar deliberadamente para elevar o nosso capital espiritual. Implica u,a prática diária diante de cada pessoa que se cruza no nosso caminho. Experimenta, não falta ainda uma coisa. O sentido de missão dessa prática deliberada.

Missão
A missão confere uma importante característica ao nosso capital espiritual quando amamos totalmente. Uma missão consiste num propósito unitivo para a nossa vida espiritual.

Se como cristão és chamado a ser Evangelho vivo no quotidiano, de tal modo que leves os que estão à sua volta a lê-lo através da tua vida, onde está o teu propósito unitivo? Eu diria que está na comunidade.

A vocação do cristão não está em sê-lo sozinho, mas em comunidade na paróquia, grupo ou Movimento. Além do convite que fiz a olhar em frente, importa também olhar em redor e não perder qualquer oportunidade para amar.

 

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