José Luís Gonçalves

Cada civilização e cada época histórica interpretam o papel e o significado da sexualidade a partir dos enfoques ideológicos contextualmente vigentes e consoante as tendências sociais, culturais e religiosas hegemonicamente dominantes o determinam. E, se no início do século passado, no Ocidente, a influência Freudiana contribuiu para compreender o caráter psicossocial da sexualidade permitindo, desta forma, uma certa libertação da clausura biológica em que esta se encerrava, pode afirmar-se que o grande impulso da apelidada “revolução sexual” no espaço público teve efetivamente lugar entre os anos 1960 e 1970. Tendo o maio de ’68 adquirido um significado icónico a este respeito, a transgressão dos tradicionais códigos morais, comportamentais e institucionais associados à sexualidade (e.g. monogamia, heterossexualidade, casamento) então experimentada viu-se, simultaneamente, legitimada por uma determinada atmosfera cultural e potenciada por certas ‘seguranças’ que a emergência dos meios de contraceção permitiram (e. g. pílula). Mesmo assim, nas décadas que se seguiram, não foram poucos os que que continuaram a dar voz a um certo mal-estar repressivo que envolvia a sexualidade, como se infere da afirmação de M. Foucault quando constatava que “em torno do sexo se cala e se silencia”.

Nos últimos anos, a mediatização pública de casos de assédio, abuso e violência sexual – casos em que a Igreja também se viu envolvida – veio lançar um conjunto de dúvidas sobre se a assunção da sexualidade humana enquanto processo de maturação da personalidade terá, de facto, ficado completo há 50 anos atrás. A complexa relação entre sexo e poder e as formas de poder que através do sexo se exercem parece reafirmar a convicção de Oscar Wilde de que o sexo é, antes de mais, uma representação de poder nas suas mais diversas facetas: poder biológico (machismo, violações), poder psicológico (assédio), poder sociocultural e económico (prostituição, pornografia), poder simbólico (abusos e pedofilia), entre outros.

É neste contexto que se saúda o número 150 do documento final do Sínodo 2018, apresentado este domingo no Vaticano, quando assinala o papel da sexualidade na formação integral da pessoa. Ao reapresentar a sexualidade integrada numa antropologia da afetividade mais ampla marcada pela tríplice vocação à personalização, comunicação-serviço e à transcendência, o Sínodo sinaliza, ao mesmo tempo, a sua intolerância “contra qualquer discriminação e violência com base sexual”. Outras referências sinodais ligadas aos múltiplos desafios psicossociais, culturais e religiosos da sexualidade completam este número refirmando-se o compromisso eclesial não só com a denúncia e o pedido de perdão às vítimas, mas sobretudo com o anúncio de medidas rigorosas de prevenção, proteção e de formação. E se já existem orientações claras a este respeito no seio eclesial, mormente na Igreja em Portugal, desde 2012, os abusos cometidos sob o “manto do sagrado”, o grau de incidência destes mesmos abusos, o padrão comportamental dos agressores e as estratégias de silenciamento das vítimas levam a opinião pública a suspeitar (injustamente) que não se está diante de casos isolados, mas perante uma marca d´água inscrita na natureza de determinados grupos. Até para dissipar esta suspeita, é de suadar este apontamento sinodal, pois não podemos permitir que se tome a parte pelo todo!

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