Questão vai ser debatida este sábado num encontro nacional em Lisboa

Lisboa, 19 abr 2018 (Ecclesia) – A Associação dos Médicos Católicos Portugueses (AMCP) promove este sábado em Lisboa um encontro nacional com o tema ‘Ser Médico Hoje: Equilíbrios, Desafios e Missões’, e uma das preocupações será a relação “trabalho – família”.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o presidente daquele organismo realça que “é cada vez mais difícil para os profissionais de saúde conciliar” esta duas vertentes.

Pedro Afonso, médico psiquiatra, aponta como principais desafios uma “carga horária desajustada” e o “peso” atualmente colocado nos ombros de médicos, enfermeiros e outros agentes deste setor, muito por causa da “falta de planeamento” que leva por exemplo à realização de um número “excessivo” de “horas extraordinárias”.

Um estudo realizado pela AMCP junto dos seus associados permitiu verificar que quase metade dos inquiridos (40 por cento) fazem mais do que 50 horas semanais.

Um valor que, alerta Pedro Afonso, “vai claramente além do que é desejável”, em primeiro lugar porque coloca em causa a eficácia de todo o serviço, pois “o cansaço aumenta o risco de erro médico”.

E depois porque pode trazer sérios entraves ao próprio equilíbrio emocional e afetivo dos profissionais.

“É legítimo os médicos, tal como outros profissionais de saúde, terem filhos. E numa profissão como esta, nomeadamente com a carga das urgências que é conhecida por todos, torna-se muito difícil”, salienta aquele responsável.

Este debate da relação entre trabalho e família pretende ir ao encontro de uma questão que não afeta apenas o setor da Saúde, mas “que se estende a outras profissões”.

“Trabalham-se cada vez mais horas por semana, e esta dificuldade de conciliar o trabalho e a família, até mesmo de ter tempo para descansar, até mesmo de ter tempo para o lazer, é uma realidade preocupante a nível nacional”, aponta Pedro Afonso.

Com este contexto, aponta ainda o médico psiquiatra, é fácil também perceber porque é que Portugal tem hoje “uma das taxas de natalidade mais baixas do mundo, de 1,3 filhos, o que não garante a renovação das gerações no país”.

Para o presidente da AMCP, é urgente apostar em políticas mais amigas da família, ou que tenham em conta a relação trabalho – família, até porque de acordo com o mesmo estudo, o problema da sobrecarga horária está mais presente no Serviço Nacional de Saúde, no Estado, do que no setor privado.

“73 por cento dos inquiridos deram nota negativa nessa consideração ao Estado, o que não era suposto. O Estado tem que dar o exemplo, o Estado tem um conjunto de normas e de legislação que pode aprovar e não está a dar esse exemplo”, aponta Pedro Afonso.

Uma das medidas que a AMCP propõe a este nível é a recuperação por exemplo do funcionamento das “creches nos hospitais para os funcionários, que deixou de haver não se percebe muito bem porquê” .

Também “uma maior flexibilidade de horário, a possibilidade dos trabalhadores, dos médicos e enfermeiros reduzirem o tempo de horário para o apoio a um familiar que está doente, de um filho ou de um pai idoso”.

“São várias as medidas que nós propomos que sejam aplicadas. O Estado de facto deveria dar o exemplo, e no nosso entender não está a dar o exemplo”, reforça Pedro Afonso.

O encontro nacional da Associação dos Médicos Católicos Portugueses decorre no dia  21 de abril, no Auditório do Colégio de São Tomás, em Lisboa.

Além da temática ‘Equilíbrio Trabalho – Família’, em cima da mesa estarão também outros dois tópicos: o ‘Desafio da Formação, Gestão e Comunicação em Medicina’ e ‘Missão no Santuário, com os Refugiados e na Política’.

JCP

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