Sacerdote italiano coordena a residência universitária «São Carlos Borromeu», nascida dos escombros do terramoto de Áquila

Lisboa, 21 jun 2018 (Ecclesia) – O padre italiano Luigi Maria Epicoco, que viveu o drama do terramoto de Áquila há 9 anos, enquanto trabalhava com jovens universitários, veio a Portugal falar sobre o trabalho que tem procurado fazer com os mais novos.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o sacerdote realça que a relação com os cerca de 140 jovens atualmente a residir na Casa ‘São Carlos Borromeu’, em Áquila, no período a seguir a esta tragédia, tem sido marcada essencialmente por três desafios.

Numa primeira fase passou muito por “ajudar estes jovens a reconciliarem-se com a sua história, com aquilo que viveram”.

Recorde-se que o terramoto que abalou a cidade de Áquila em 2009, um sismo com 6,3 graus na escala de Richter, provocou mais de 300 mortos e cerca de mil feridos.

Um dos pontos mais afetados foi o centro histórico da cidade, mais concretamente a paróquia de San Giuseppe Artigiano, ponto de acolhimento e residência para muitos estudantes universitários, sendo que 54 jovens pereceram debaixo dos escombros.

“Eu penso que na minha vida, mas também na vida de todos quantos viveram o terramoto de Áquila, deu-se uma mudança radical, profunda. Penso que isto acontece na vida de qualquer pessoa quando vive algo de doloroso, de esmagador, qualquer coisa que vai além do racional, vai além das nossas próprias forças”, salienta o padre Luigi Maria Epicoco.

À data do abalo, a região de Áquila albergava mais de 30 mil estudantes, número que hoje está reduzido a cerca de metade.

Devido ao drama que teve lugar, foi necessário construir uma nova residência que fosse ao encontro das necessidades da população estudantil e do projeto pastoral assumido pelo jovem sacerdote italiano, de 37 anos.

Assim, meses mais tarde, nascia a residência ‘São Carlos Borromeu’, com o apoio da Arquidiocese de Áquila.

“Eu sinto-me muito afortunado porque logo que fui ordenado padre, há 14 anos atrás, comecei a trabalhar com estudantes universitários. Isto é estimulante porque normalmente um pároco ocupa-se de várias faixas etárias, e eu tendo só uma é aquela talvez mais problemática, porque é uma idade de crise, mas é também será aquela que mais sonhos tem para a vida, aquela que é mais criativa”, frisa o padre Luigi Maria Epicoco.

Com o sofrimento, a “união” com os jovens ficou ainda “mais forte”.

“A única coisa que restava, não havendo mais cidade, não havendo mais casas, eram as relações, as nossas relações tornaram-se mais profundas, a nossa casa transformou-se mais numa comunidade”.

A residência ‘São Carlos Borromeu’ acolhe hoje jovens de diversos contextos, provenientes de Itália e de vários outros países, cristãos, muçulmanos ou de outras religiões, crentes e não crentes, o que “tem gerado um confronto muito profundo”.

Para o padre italiano, este intercâmbio encerra algo de “muito belo”, numa altura em que a sociedade é caraterizada pelo “medo do encontro”.

“Aquilo que une, aquilo que nos congrega, é descobrir que todos temos algo em comum, todos temos as mesmas perguntas, todos procuramos a felicidade, todos buscamos um sentido para a nossa vida, todos queremos encontrar uma razão para viver. Este é o nosso lado humano, não importa aqui se há ou não fé, mas esta é a base sobre a qual se pode construir um campo comum”, acrescenta o sacerdote.

No que toca aos desafios que têm sido identificados, além de ajudar inicialmente os jovens a ultrapassar a experiência traumática que muitos viveram, está também a procura de ajudar os mais novos a viverem verdadeiramente a sua humanidade.

Isto porque hoje em dia “a maior parte dos jovens desenvolve grandes competências no que toca ao conhecimento, mas por vezes depara-se com uma grande pobreza humana”.

Depois um desafio mais “a nível espiritual, cristão”, para ir ao encontro de jovens que ou “abandonaram a Igreja ou se mantém nela como se ainda tivessem 10 anos”.

“O que é que eu quero dizer com isto? Que eles receberam uma cultura cristã, mas nunca a apropriaram como sua, nunca a encararam como algo de importante a nível pessoal. A nossa proposta não é, entre aspas, obrigar os estudantes a fazerem um percurso de fé, mas propor um percurso de fé que não é bem cultural, mas um encontro real com Cristo”.

Quanto aos frutos que têm sido retirados deste trabalho, o padre Luigi Maria Epicoco considera que “tem havido uma grande resposta da parte dos jovens”, porque mais do que “convencê-los de alguma coisa”, a aposta tem passado por um caminho de liberdade e de verdade.

“Não podemos estar aqui como se estivéssemos a tratar de um produto publicitário, em que queremos convencer os outros a comprar alguma coisa, a fazer alguma coisa. Quando lhes transmitimos algo verdadeiro, algo que dá um novo significado à sua vida, eles não têm medo do que possa vir, imediatamente dão-nos uma resposta”, salienta.

Outros frutos que têm surgido deste trabalho têm sido também o surgimento de novas vocações: pelo menos três estudantes que passaram pela residência ‘São Carlos Borromeu’ seguiram a via do sacerdócio, e brotaram também várias vocações religiosas femininas.

O padre Luigi Maria Epicoco confidenciou também, com um sorriso, a graça de ter casado vários casais de jovens com passagem pela mesma casa.

Olhando para o Sínodo dos Bispos que se aproxima, e que a Igreja Católica vai dedicar aos mais novos, o sacerdote sustenta que é precisamente essa atitude de liberdade e verdade que deve marcar a relação com os jovens.

“Eu penso que o Papa Francisco teve uma intuição extraordinária, porque muitas vezes quando pensamos nos jovens pensamos neles como sujeitos passivos, como se eles fossem um objeto imóvel, à volta do qual todos nós discutimos o que fazer com este objeto. Neste contexto, o Papa avisa que aquilo que a Igreja deve recuperar não é tanto uma atualização em termos de meios, de novas estratégias, mas deve renovar-se na relação, deve recuperar a sua relação com estes jovens”, aponta aquele responsável.

“O Papa através deste Sínodo está a lançar uma mensagem enorme, que não é uma solução para o problema, porque os jovens não são um problema. É uma declaração de fidelidade, está a dizer-lhes ‘vocês existem e nós estamos abertos a escutar o que têm para dizer’.

O sacerdote italiano apresentou em Lisboa o seu livro mais recente, intitulado ‘Somente os doentes se curam’.

Uma interpelação que vai também ao encontro das atuais fragilidades da Igreja Católica que, segundo o autor, podem ser mesmo um dos grandes testemunhos que a própria Igreja pode dar ao mundo.

“O que significa ser testemunho? É alguém que tem problemas como temos todos, que tem fragilidades como todos, mas que procura mostrar através também da sua própria debilidade, como é possível viver. Não escondendo a própria fragilidade, mas mostrando-a e procurando perceber como o amor de Deus pode ajudar-nos a mudar, mesmo no meio da nossa debilidade”, salientou o padre Luigi Maria Epicoco.

Para o sacerdote, a Igreja não pode mais “apresentar-se ao mundo como “um bom exemplo, como um ideal, mas como um testemunho”.

Isso significa “deixar de estar numa cátedra, lá no alto, mas descer ao encontro dos outros e viver o seu testemunho”, concluiu.

JCP

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