Intervenção de D. Manuel Clemente no encerramento das comemorações do centenário da República

1. Foi com algum imediatismo e atrevimento que anuí ao amável convite da Ex.ma Senhora Presidente da Assembleia da República para participar neste encontro.

Li com todo o gosto e proveito o livro Da virtude e fortuna da República ao republicanismo em Portugal, coordenado pelos Professores Gomes Canotilho e Vital Moreira, com quem tive o gosto de integrar – além doutros ilustres membros  e sob a presidência do Dr. Artur Santos Silva – a Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Na referida leitura aprendi o que pude dos excelentes textos, em particular no que à obra de John Pocock e Jürgen Habermas diz respeito. E é sugestionado também por estas leituras que ao mesmo tempo as reduzo e extravaso nalgumas reflexões que se seguem, mais à minha limitada medida pessoal do que àquela que realmente mereciam.

Ambos apelaram ao realismo, quer na verificação do passado quer na assunção do presente. Realismo que inclua a natureza não unívoca das convivências, fossem quais fossem, onde fossem e quando fossem; realismo que analise a realidade presente sem iludir nenhuma das suas componentes, materiais ou espirituais, sem apriorismos que esqueçam umas ou outras.

Constatemos desde já – e facilmente o faremos – que antes e depois de 1910, como antes e depois de 1926, este realismo falhou em demasia. Não faltaram entusiasmos, idealismos ou voluntarismos, mas foi difícil ou impossível conviver com o contraditório e sucederam-se reducionismos epistemológicos de sinal oposto. Facilmente ficaram quase sós alguns atores principais, rapidamente se alhearam maiorias pouco ouvidas. Mesmo quando o não merecessem, uns e outras.

 

2. – De que história falamos ou prevemos na nossa pátria portuguesa, cem anos passados da implantação da República? – De que história “repatriada” pelas intransmissíveis responsabilidades imediatas e simultaneamente “expatriada” pela dimensão internacional do deve e haver que é agora o nosso? – Que nos sobra realmente do passado e assim mesmo o autentica por essa mesma realidade sobrante? – E o que somos diferentemente dele, para nos relançarmos com a novidade que se impõe?

Talvez seja mais fácil começarmos pelo que não fomos nem somos. Não somos um povo imediatamente unânime, fácil e conscientemente unânime, ainda que, por contraste ou última defesa, nos sentíssemos assim.

Antes de nos dividirmos entre decadentistas e neo-sebastianistas, do século XVIII para cá, sempre fomos críticos de nós próprios, mais até do que desconfiados dos outros. Cantigas de amigo ou de amor ouviam-se em contraponto com outras de escárnio e maldizer, com as letras todas e as alusões bem claras. Autos de devoção verdadeira entremearam-se com farsas acerbas, igualmente vicentinas. Estrofes d’ Os Lusíadas tanto cantaram glórias como choraram desenganos…

E tão português era quem zarpava como era o “velho” que permanecia no Restelo. Gestas da expansão tiveram muitos contrapontos em Gaspar do Couto ou Mendes Pinto… E assim até hoje, tirando picos extremos de sobrevivência geral, como seria a revolta antinapoleónica de há duzentos anos ou mesmo a indignação antibritânica de 1890… Pouco mais, realmente pouco mais. E mesmo o ícone tão pátrio dos painéis de Nuno Gonçalves, em dezenas de olhares que conjuntamente nos incitam, contém exceções que, olhando noutros sentidos, confirmam esta regra.

Qualquer um de nós que tenha nascido na primeira metade de novecentos, passou decerto a vida a rever a linearidade patriótica dos antigos livros da instrução primária. E pode ter sucedido agora mesmo que a considerável literatura em torno da República lhe tenha dado uma ideia mais exata e distendida da variedade interna dos acontecimentos de há cem anos.

Confesso-vos que comigo aconteceu assim, especialmente na área que versei das relações do novo regime com a religião tradicional do país: é muito pouco realista e operativo tratar de tal temática a partir de dois sujeitos coletivos e extremados, tantos são os contactos e os circunstancialismos de parte a parte.

– Quem era mais republicano em 1911 e seguintes, Afonso Costa, Manuel de Arriaga ou o Padre Casimiro de Sá, “representando” este no parlamento os sacerdotes, republicanos com provas dadas, que, podendo aceitar a separação Estado-Igreja, discordavam da lei de 20 de abril que, quanto a eles, usurpara esse nome? – Quem defendeu mais consistentemente o regime até bem perto do 28 de maio, António Lino Neto, líder católico no parlamento, ou alguns republicanos de sempre que se aproximaram do movimento militar?

 

3. Aludi acima aos textos de ou sobre Pocock e Habermas, agora felizmente publicados; e dizia que ambos apelavam ao realismo, quer na verificação do passado quer na assunção do presente, realismo que inclua a complexidade não unívoca das convivências pretéritas ou atuais.

Seleciono, a propósito, este trecho de Pocock e a sua referência ao filósofo alemão: “Mal posso exprimir a pena que tenho que ele [Habermas] não tenha conseguido juntar-se a nós, uma vez que ele lidou exaustivamente com a questão do diálogo entre cidadãos cujas culturas são diferentes uma da outra, e apenas coloco uma questão de entre as muitas para as quais ele teria resposta. Qual será o significado do adjetivo ‘pós-nacional’? Uma ‘nação’ pode ser definida como uma etnia comum ou uma outra identidade: mas o que acontecerá se for definida como um sistema político com uma memória ou história comum? A historiografia tem sido maioritariamente o produto dos estados e a maioria dos estados modernos tem uma história narrativa que pode não ser monotemática ou autoritária mas intensamente debatida…” (In Da virtude e fortuna da República, p. 29).

Retomo a grande pertinência destas questões, também agora, para o nosso caso de há cem anos. Uma exemplificação entre tantas, pode ser A Portuguesa, adotada como hino nacional pelo novo regime; como adotada estava pelos muitos que a cantavam há duas décadas já, desde que Alfredo Keil e Henrique Lopes de Mendonça a tinham composto, música e letra respetivamente, na sequência do ultimato inglês.

Das três estrofes de Lopes de Mendonça só é cantada geralmente a primeira. Mas, se as tomarmos todas, ressaltará uma consciência brumosa do passado, que só o tempo definiria por certo. Na verdade, é de “entre as brumas da memória” que finalmente ressoa a voz dos antepassados egrégios (1ª estrofe); e é à própria Europa que se pede que diga ao mundo que afinal ainda existimos, pois “brade a Europa à terra inteira: Portugal não pereceu” (2ª estrofe); dum passado mais oculto do que claro é que se passará por fim à madrugada: “saudai o Sol que desponta sobre um ridente porvir” (3ª estrofe).

Nada de clareza, portanto, de trás para diante. Alma sim, mas à maneira romântica, como impulso, eco ainda de antigas andanças, em que se gritava: “Alma até Almeida e depois de Almeida alma também…”. E só isso permite compreender como 1910 se integrava na aspiração regeneradora, que já fora dos liberais – e se voltou a ouvir em 1974 e seguintes.

Do passado sobravam muitas leituras, da esquerda à direita, com projeções específicas da pátria a refazer. Houve regeneracionismos neomedievos, para recuperar comunas pré-absolutistas; houve regeneracionismos personalizados, reincarnando Joões segundos ou Pombais à escolha, que contrariassem inimigos diversos, aristocratas ou clericais; houve regeneracionismos anticatólicos, para retomar, quando muito, um cristianismo pré-tridentino; houve regeneracionismos religiosos, para dilatar “a fé e o império”; e houve, sempre disponível, um sebastianismo de serviço, mantendo o cavalo branco a sair das brumas – sempre as brumas – para sucessivos cavaleiros…

Houve de tudo um pouco, num passado de pretexto para combates do momento. Mas isto mesmo evidenciava dois pontos, igualmente importantes: primeiro que, mesmo divergente, havia a consciência vaga de que algo fora possível outrora, que permanecia apetecível agora; segundo, que essa consciência – ou quase um inconsciente coletivo – continuava a mobilizar frentes opostas mas igualmente dinâmicas.

A propensão urbana para a República ou a resistência monárquica doutros meios, alimentaram-se de tais impulsos de difícil definição e impossível conjunção; a não ser contra algum terceiro que aparecesse, dentro ou fora, como foi quase o caso da mobilização para a Grande Guerra, que até permitiria a oficialização de capelães militares.

 

4. Fosse como fosse, conseguiram-se algumas plataformas, de 1913 em diante. Refiro, compreensivelmente, a político-religiosa, que se revelou, aliás, mais fácil do que outras, entre os próprios grupos republicanos…

Foi nesse ano que os bispos propuseram militâncias católicas no quadro geral e aceite do regime novo, iguais entre iguais, inspirações entre inspirações. Foi nesse quadro também que o catolicismo oficial e político entrou abertamente no jogo democrático e parlamentar, sobretudo de 1919 em diante, afastando-se doutros crentes que continuavam a ligar a causa religiosa à restauração monárquica.

De 1920 a 1926 sucedem-se as expressões dum republicanismo mais aberto, onde caberiam os que quisessem, crentes de várias crenças ou nenhuma, regeneracionistas mais ou menos todos, menos definidos de passados estreitos para futuros parciais, ideologicamente parciais. E tanto assim é que, nos derradeiros anos do regime, deparamos com republicanos inquestionáveis a defender causas muito caras aos católicos – e não só! – e ouviremos alguns crentes de primeira linha a defender claramente a República.

Como sabemos, a legislação pós 5 de Outubro, não só acabou com a confessionalidade do ensino público como a afastou do particular. Pois bem, alinhando com Leonardo Coimbra, outros não monárquicos pronunciaram-se desta forma em 1923: “Estou absolutamente ao lado de Leonardo [Leonardo Coimbra demitira-se de ministro da Instrução, porque o parlamento rejeitara o seu projeto de liberdade de ensino religioso nas escolas particulares]. Concordo absolutamente com ele. Mais. Vou ainda mais longe. Eu queria ainda uma mais larga liberdade de ensino religioso. Uma liberdade que atingisse todas as escolas” (Raul Brandão, Diário de Notícias, 12 de janeiro de 1923). “O gesto de Leonardo Coimbra é o primeiro de ampla e profunda simpatia humana nesta República. […] O sentimento religioso tem sido sempre a força aperfeiçoadora da alma humana e a prova mais clara da sua realidade” (Teixeira de Pascoaes, A Pátria, 22 de janeiro de 1923). “Portugal é hoje o único país, o único! tome nota, onde há essa disposição bárbara e selvagem de proibir, nas escolas particulares, o ensino religioso. Acabemos com ela. É uma afronta. Uma vergonha” (Guerra Junqueiro, Diário de Notícias, 26 de janeiro de 1923)[1].

Como esclarecedoras são algumas declarações parlamentares do líder do Centro Católico Português, António Lino Neto. Assim a 20 de abril de 1923, definindo a posição católica: “Os católicos não reclamam situações de privilégio. Apenas querem liberdades comuns, para que todos se sintam bem e possam colaborar na obra progressiva que torne Portugal grande, política, moral e economicamente”. Ou ainda, a 9 de janeiro de 1924, defendendo a câmara legislativa que integrava e já era atacada por muitos: “Resulta que o Parlamento deve ser modificado, porque de facto ele tem defeitos. Mas pergunto: – qual é a instituição que não tem defeitos? Sr. Presidente: é pelo Parlamento que o país tem feito o desafogo de todas as dificuldades coletivas”[2].

Finalmente, só isto explica que, pouco antes do 28 de maio, o próprio Presidente da República, Bernardino Machado, tenha proferido as seguintes palavras, a 6 de fevereiro de 1926, numa sessão de homenagem a Pio XI na Sociedade de Geografia: “Graças ao espírito de concórdia com que Sua Santidade tem concorrido para que se estabeleça a paz até entre os portugueses, nunca mais será possível em Portugal um conflito entre o poder religioso e o civil” (Novidades, 7 de fevereiro de 1926)[3]. Permiti-me dizer ainda agora: – Deus o oiça!

E eis como, retomando a lição de Pocock e Habermas, uma leitura menos condicionada do passado nos reserva sempre algumas surpresas para o presente. Também sobre o nosso Portugal e a sua República.

Assembleia da República, 20 de outubro de 2011

D. Manuel Clemente, bispo do Porto

 

NOTAS:

[1] Para estas citações, cf. LOURENÇO, Joaquim Maria – Situação jurídica da Igreja em Portugal. Coimbra Editora, 1943, p. 218-219.

[2] NETO, António Lino – Intervenções parlamentares (1918-1926). Coord. de António Matos Ferreira e João Miguel Almeida. Lisboa: Assembleia da República e Texto Editores, 2009, p. 196 e 249, respetivamente.

[3] Cf. LOURENÇO, Situação jurídica, p. 220-221.

Centenário da República: Sociedade, Cultura e Conflito

Lisboa, 16 Fev (Ecclesia) – A Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa (UCP) promove, dias 16 e 17 de Fevereiro um congresso sobre «Sociedade, Cultura e Conflito – Nos 100 Anos da República Portuguesa»

Num comunicado enviado à Agência ECCLESIA, esta iniciativa será na referida universidade (Sala de Exposições) e abordará várias temáticas relacionadas com esta efeméride: «A filosofia e as ideias da República», «A sociedade e as dinâmicas da República» e «A cultura e os espaços públicos da República»

Programa
DIA 16
09h30 – Abertura
Reitor da Universidade Católica Portuguesa: Manuel Braga da Cruz
Directora da Faculdade de Ciências Humanas: Isabel Capeloa Gil
Coordenador da HUMANITAS: Artur Teodoro de Matos
1. «A filosofia e as ideias da República»
Presidente da mesa: Manuel Cândido Pimentel, coordenador do Centro de Estudos de Filosofia
10h00 – Conferência: «O enraizamento social da ideia da República em Teófilo Braga e Manuel de Arriaga» por José Luís Brandão da Luz
10h45 – Debate
11h15 – Coffee Break
11h30 – Painel
Moderador: José Luís Brandão da Luz
«Os impasses positivistas nas origens da I República Portuguesa: o caso de Teófilo Braga» por Mendo Castro Henriques
«Educação, Utopia e República» por José Manuel de Barros Dias
«Haverá uma ideia filosófica da República portuguesa?» por Manuel Cândido Pimentel
12h30 – Debate
13h00 – 14h 30 – Almoço
2. «A sociedade e as dinâmicas da República»
Presidente da mesa: Francisco Branco, coordenador do Centro de Estudos de Serviço Social e Sociologia
14h30 – Conferência: «1ª República e política social: contexto internacional e motivações internas na introdução dos seguros obrigatórios em Portugal» por Maria Manuela Rocha
15h15 – Debate
15h 30 – Coffee Break
15h45 – Painel
Moderador: Inês Amaro
«O itinerário das profissões sociais em Portugal na I e II República» por Francisco Branco
«A República e a sociologia» por Teresa Líbano Monteiro
«O ambiente republicano e o nascimento do Serviço Social em Portugal» por Maria Isabel Santos
16h45 – Debate

DIA 17
3. «A cultura e os espaços públicos da República»
Presidente da mesa: Jorge Fazenda Lourenço, coordenador do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura
10h00 – Conferência: «A Cultura e os espaços públicos da República» por José Augusto França
10h45 – Debate
11h15 – Coffee Break
11h30 – Painel
Moderador: Jorge Fazenda Lourenço
«Dimensões do espaço público de opinião durante a I República Portuguesa» por José Miguel Sardica
«João de Almeida, arquétipo do herói colonial» por Ana Paula Rias
«Ditadores de bolso» por Inês Espada Vieira
12h30 – Debate
13h00 – 14h 30 – Almoço
4. «A educação, a cidadania e as escolas da República»
Presidente da mesa: Roberto Carneiro, Presidente do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa
14h30 – Conferência: «O catolicismo português de 1910» por D. Manuel Clemente
15h 15 – Debate
15h 30 – Coffee Break
15h 45 – Painel
Moderador: José Manuel Fernandes
«O ideal educativo republicano: a escola laica» por Maria Cândida Proença
«A persistência das ideias republicanas sobre a educação feminina no Coração e Cérebro (1935)» por Ana Costa Lopes
«A Escola e as competências do século XXI» por José Manuel Canavarro
16h45 – Debate

LFS

Igreja Católica em Portugal no ano 2010

Da visita do Papa aos casos de abuso sexual por membros do clero e da crise económica à aprovação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo: o ano 2010, Centenário da República, na análise do Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. (mais…)

Dois bispos e dois padres em publicação algarvia com 100 personalidades do Centenário da República

O Governo Civil de Faro promoveu, dia 15 de Novembro, a apresentação do livro “Algarve – 100 Anos de República, 100 Personalidades (1910-2010)”, uma publicação da autoria conjunta do professor António Rosa Mendes e do jornalista Manuel Neto Gomes, que homenageia também os bispos algarvios D. António Carrilho e D. Marcelino Franco, este fundador da FOLHA DO DOMINGO, para além dos padres Carlos César Chantre e Júlio Tropa Mendes, há muitos anos a trabalhar no Algarve.

A edição, que assinala as comemorações do Centenário da República, foi apresentada no salão nobre do Governo Civil, em Faro, antecedida pela interpretação do Concerto da República pelo Coral Ossónoba.

Durante a cerimónia, que contou com a presença de alguns dos homenageados, bem como de familiares e amigos de algumas das 100 personalidades seleccionadas pelos autores da obra, a governadora civil destacou a “obrigação de deixar este testemunho” na comemoração do Centenário da República. Isilda Gomes lembrou que “uma terra sem história e sem memória é uma terra sem futuro” e que “as pessoas e os cidadãos são aquilo que temos de melhor”.

Referindo-se aos homenageados, a governadora considerou que “são mulheres e homens que lutaram e lutam por um Portugal melhor”. “E isto só nos pode dar ânimo para fazer mais e melhor”, acrescentou, realçando a representatividade de todas as classes e profissões na publicação.

Isilda Gomes exortou ainda à responsabilidade de todos na “construção de um Algarve cada vez maior e melhor”. “Temos de saber honrar a memória. Honrar a memória é dar lugar à história e construir o futuro”, disse, garantindo que a obra que agora saiu à estampa era “obrigação” sua como representante do Governo na região.

Rosa Mendes explicou que a obra “está longe de ser prefeita”. “Outros poderiam ser elencados neste rol”, justificou, atestando que a publicação “ficará a constituir um padrão das nossas celebrações do Centenário da República”. “Se há algo que esta obra demonstra é que, no Algarve, não somos tão pobres como por vezes querem dar a entender. Merecemos um pouco mais de respeito do que por vezes nos querem conceder”, advertiu Rosa Mendes, acrescentando que os homenageados “são pessoas que exerceram activamente a sua cidadania, das quais nos podemos orgulhar porque empunharam esse lema que a República quis arvorar como a sua grande bandeira”.

Neto Gomes, que também reconheceu que “não é fácil escolher 100 personalidades”, apresentou individualmente os homenageados que incluem ainda os três Presidentes da República oriundos do Algarve, para além de nomes como António Aleixo, Emiliano Costa, Bernardo Passos, Caetano Feu, Carlos Brito, Carlos Porfírio, Cavém, Francisco Zambujal, Frederico Ramirez, João Lúcio, Pinheiro e Rosa, Samora Barros, Laura Ayres, Lídia Jorge, Maria Campina, Júlia Barroso ou Rocha Vieira.

D. António Carrilho, natural de Loulé e actual Bispo do Funchal, foi apresentado como “uma das principais figuras da nossa Igreja”, “um homem notável e de valores”.

Do padre César Chantre destacaram-se as suas qualidades como “pároco, professor e oficial do exército”. “Ao longo da sua vida, em todas as actividades, tem manifestado um grande espírito de missão, onde tem entrelaçado a vida pastoral com as funções sociais, militares e de professor que lhe conferem uma qualidade profissional e humana de grande relevo”, afirmou Neto Gomes.

Sobre o padre Júlio Tropa Mendes realçou-se a sua disponibilidade para servir. “O Bispo D. Florentino Andrade ofereceu-lhe uma das cidades algarvias para exercer a sua função de pároco, oferta que rejeitou mostrando que a Igreja é um serviço, uma vida de afectos e um trabalho social impressionante como tem realizado”, sublinhava o texto.

Também sobre D. Marcelino Franco, professor e bispo, valorizou-se o facto de ter servido a Igreja do Algarve durante 35 anos, “fazendo-o por missão, generosidade e afectos, sendo o primeiro bispo da história da Igreja Católica que nasceu no Algarve e foi sagrado na Sé de Faro”.

 Samuel Mendonça

Programa Ecclesia do dia 7 de Outubro de 2010

Notícias: Pastoral Juvenil da Companhia de Jesus organizou “After Ben”; encontro anual da Família Vicentina. “O Passado do Presente”: D. Manuel Clemente, bispo do Porto, inicia série de programas dedicada ao Centenário da República. (mais…)

Programa 70 X 7 do dia 3 de Outubro de 2010

Centenário da República (inclui reportagem sobre as Jornadas Nacionais das Comunicações Sociais, dedicadas ao tema “República-Comunicação-Igreja”). Comentário aos textos bíblicos proclamadas na missa deste Domingo (Pe. José Maia). (mais…)

Centenário da República

Centenário da República: o acontecimento de há 100 anos e as transformações sociais até aos dias de hoje.

Ecos do Centenário da República

Quando o Sumo Pontífice, o Papa Bento XVI, pouco depois de chegar a Lisboa, em Maio último, fez questão de saudar as instituições e referir o facto de decorrer em 2010 o ano das comemorações do primeiro centenário da implantação da República em Portugal quis dar um sinal claro de que a Igreja Católica defende e respeita a concepção segundo a qual as esferas política e religiosa estão separadas e não se confundem, como o Concílio Vaticano II afirmou com muita clareza, na sequência da tradição e do ensino multisseculares da Boa Nova.

De facto, a Igreja Católica não se identifica com regimes políticos e a história revela terem tido tantas vezes os excessos clericais resultados perniciosos, tendo o anticlericalismo de há cem anos sido superado, graças a uma evolução complexa e longa na qual muitos católicos assumiram genuinamente os ideais republicanos. Nesse sentido, o sinal do Papa foi fundamental, em consonância com a atitude da Igreja portuguesa, de acordo com a mais moderna historiografia e segundo uma preocupação fundamentalmente prospectiva, não centrada no reabrir de feridas antigas e de difíceis debates passados, muito marcados pelo drama histórico de uma sociedade que ao longo de todo o século XIX viveu dividida entre o tradicionalismo rural e o cosmopolitismo urbano – desde as guerras civis até às questões religiosas e sociais com que a monarquia constitucional e o republicanismo tiveram de lidar. Aliás, um estudo atento dos acontecimentos que levaram à implantação da República permite compreender que há influentes factores de continuidade e de ruptura, não podendo esquecer-se que há em Portugal um republicanismo intelectual latente desde a Revolução de 1820 e da Constituição de 1822, que se manifesta na Regeneração de 1851 e no compromisso do Acto Adicional à Carta Constitucional (1852).

Com efeito, há um republicanismo no novo partido regenerador, do mesmo modo que no final do século haverá regeneradores a aderirem à causa da República, de que o exemplo mais marcante é o de Bernardino Machado. O Portugal profundo e o Portugal moderno sempre se digladiaram e as feridas de 1820 (depois da saída da corte para o Brasil e da ausência do Rei, dos efeitos das invasões francesas, do peso da influência britânica, da subalternização da Metrópole…) prolongaram-se nas guerras civis, só terminadas no meio do século. A República de 1910 reafirmou, pois, a tendência liberal oitocentista. A divisão do País, desde Pombal, passando por D. Pedro IV, arrastou a sociedade toda e por isso a questão religiosa evidenciou-se, naturalmente – desde as diatribes de José Agostinho de Macedo até à influência política de sinal contrário do Bispo de Viseu, D. António Alves Martins, um liberal dos quatro costados. O Portugal moderno resulta de uma síntese muito complexa e difícil de elementos contraditórios.

Como tem salientado D. Manuel Clemente, em 1910, “no campo católico havia adeptos do regime republicano em abstracto, como o (…) Padre Sena de Freitas e antigos monárquicos que aceitavam bem o novo regime como Abúndio da Silva, julgando-o até preferível ao anterior no tocante à Igreja: e também havia monárquicos que o continuavam a ser, negando a possibilidade de resolver o problema religioso sem voltar ao regime anterior”. Já Luís Salgado de Matos tem chamado a atenção para a evolução sentida depois de 1910 nas relações entre o Estado e a Igreja, no sentido da normalização, em virtude da entrada de Portugal na Grande Guerra, da política colonial da República, especialmente cautelosa quanto ao Padroado e às missões católicas (merecendo atenção a figura do Padre Joaquim Alves Correia e os missionários do Espírito Santo). Refira-se, ainda, o envolvimento da República na beatificação de Nuno Álvares Pereira, num tempo de valorização patriótica em que a assistência religiosa ao Corpo Expedicionário Português foi importante, e o facto de, na homenagem prestada aos heróis desconhecidos da guerra, no Congresso da República (em 7 de Abril de 1921), o Presidente António José de Almeida ter qualificado o Condestável como “companheiro” de Portugal, personificando os ideais cívicos e republicanos, para além dos valores místicos e proféticos.

Cem anos passados, tem sido possível com serenidade e sentido crítico, olhar a história contemporânea a uma outra luz, fora do dramatismo da questão religiosa e dos seus efeitos, que a Democracia e a República Moderna saídas do movimento de 25 de Abril de 1974 e o regime da Constituição de 1976 souberam prevenir e superar positivamente. As iniciativas tomadas no âmbito do centenário, a participação de uma jovem plêiade de investigadores, a preocupação de encarar os valores da República para além das circunstâncias históricas como fundamentos de uma sociedade aberta, pluralista, cosmopolita e democrática constituem factores positivos que nos permitem tirar boas lições da experiência comemorativa.

Guilherme d’Oliveira Martins
Presidente do CNC