Carta Pastoral do bispo de Bragança-Miranda: «O Seminário, um laboratório de esperança para o futuro»

O SEMINÁRIO, UM LABORATÓRIO DE ESPERANÇA PARA O FUTURO

Carta pastoral do Bispo Diocesano
aos Presbíteros, aos Diáconos, às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos da Diocese de Bragança-Miranda

 

O feliz acontecimento da primeira Assembleia do Clero, realizada no dia 17 de outubro no Seminário de S. José, propôs a formação do clero como uma das priorida­des pastorais da Diocese no momento atual.

Aproveitando a ocasião da celebração da semana dos Seminários diocesanos na Igreja presente em Portugal, de 06 a 13 de novembro, sob o tema «formar pastores consagrados totalmente a Deus e ao seu povo», gostaria de propor algumas dimensões essenciais acerca a formação inicial e permanente dos Presbíteros (=Padres). Por isso, pensei escrever esta primeira carta pastoral sobre a forma­ção presbiteral, olhando o Seminário como um laboratório de esperança para o presente do futuro.

Recordo com muita alegria todo o meu processo vocacional e os anos felizes que vivi no Seminário em Vinhais, em Bragança e no Porto. Dou muitas graças a Deus pelos formadores, professores, colegas e amigos des­te tempo importante da minha formação inicial para o sacerdócio. Igualmente agradeço o dom e o mistério vivi­do depois como formador do Seminário até ao momento em que continuei o serviço pastoral e académico em Roma, em nome da Diocese: no Pontifício Colégio Portu­guês, no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo e na Universidade de S. Tomás de Aquino.

A atual comunidade do Seminário Maior é consti­tuída por quatro jovens. Vivem habitualmente no Seminá­rio Maior de Viseu e frequentam aí o Instituto Superior de Teologia juntamente com os seminaristas de Viseu, Guarda e Lamego. No Seminário em Bragança temos dois jovens com a licenciatura em Teologia que se propõem às ordens sacras. Temos ainda 11 seminaristas menores do 7° ao 12° ano. Enorme esperança e confiança depositamos em mui­tos jovens da nossa amada Diocese, especialmente em alguns que, frequentando ou tendo concluído os estudos superiores, colocam agora a questão fundamental da voca­ção sacerdotal.

A nossa Diocese com 136.459 habitantes, com 6.545 Km2 de área geográfica, 326 Paróquias, 100 Presbíteros, dos quais 66 dedicados e sacrificados párocos, 4 Diáconos, 114 Religiosas, 10 Religiosos e muitos, muitos mais ministérios, serviços, famílias, movimentos, Instituições e fiéis leigos – é uma realidade desafiante.

Todavia, o tempo que vivemos não pode deixar de fazer-nos refletir também sobre as nossas responsabilida­des, enquanto crentes e chamados a difundir o dom da fé e a promover, em cada irmão, a disponibilidade ao chama­mento de Deus e da sua Igreja. De modos diferentes, todos nós devemos admitir que não respondemos plenamente a esse chamamento nas nossas famílias, nos ambientes de trabalho, nas paróquias, nos movimentos, nas congrega­ções religiosas e institutos seculares. Por isso, a primeira palavra é um convite à conversão. Só sairemos desta crise vocacional se esse processo de mudança de olhar e de mentalidade for sincero e produzir frutos de novidade de vida.

Faço igualmente um convite à esperança. Temos que abrir toda a nossa pastoral à Esperança. A nossa certe­za é de que o Senhor da messe não deixará faltar à Igreja operários para a sua messe. Se a esperança é fundada não nas nossas previsões e nos nossos cálculos, que muitas vezes a história passada se encarregou de desmentir, mas na Sua Palavra, então podemos e queremos acreditar numa renovada primavera vocacional para a nossa Igreja de Bra­gança-Miranda. Numa Igreja toda vocacional, todos somos responsáveis por todas as vocações ao ministério ordenado (presbíteros e diáconos), à vida religiosa, à vida secular e ao matrimónio cristão.

A todos, em especial a vós jovens e aos jovens seminaristas, reafirmamos que o amor é o sentido pleno da vida. O essencial no ministério é o amor. Jesus não per­guntou a Pedro: «és capaz de administrar os bens da Igre­ja? És capaz de ser responsável das almas? És capaz de antever o futuro para uma comunidade difícil? És capaz de amparar os vacilantes nas perseguições? – “tu amas-­me?”: nisto está o essencial» (1). E o chamamento sempre antigo e sempre novo é «Segue-me». Um homem vale quanto vale o seu coração. Este é o diálogo que sintetiza uma vida!

Recordo-vos as palavras que o Papa Bento XVI dirigiu aos seminaristas na Jornada Mundial da Juventude em Madrid: «queridos amigos, preparais-vos para ser apóstolos com Cristo e como Cristo, para ser companhei­ros de viagem e servidores dos homens. Como haveis de viver estes anos de preparação? Em primeiro lugar, devem ser anos de silêncio interior, de oração permanente, de estudo constante e de progressiva inserção nas atividades e estruturas pastorais da Igreja. Igreja, que é comunidade e instituição, família e missão, criação de Cristo pelo seu Espírito Santo e simultaneamente resultado de quanto a configuramos com a nossa santidade e com os nossos pecados. Assim o quis Deus, que não se incomoda de tomar pobres e pecadores para fazer deles seus amigos e instrumentos para redenção do género humano. A santida­de da Igreja é, antes de mais nada, a santidade objetiva da própria pessoa de Cristo, do seu evangelho e dos seus sacramentos, a santidade daquela força do alto que a ani­ma e impele. Nós devemos ser santos para não gerar uma contradição entre o sinal que somos e a realidade que que­remos significar.

Meditai bem este mistério da Igreja, vivendo os anos da vossa formação com profunda alegria, em atitude de docilidade, de lucidez e de radical fidelidade evangélica, bem como numa amorosa relação com o tempo e as pes­soas no meio de quem viveis. É que ninguém escolhe o contexto nem os destinatários da sua missão. Cada época tem os seus problemas, mas Deus dá em cada tempo a graça oportuna para os assumir e superar com amor e rea­lismo. Por isso, em toda e qualquer circunstância em que se encontre e por mais dura que esta seja, o sacerdote tem de frutificar em toda a espécie de boas obras, conservando sempre vivas no seu íntimo aquelas palavras do dia da sua Ordenação com que se lhe exortava a configurar a sua vida com o mistério da cruz do Senhor».

A formação dos presbíteros (inicial e permanente) deve ser uma prioridade na vida de toda a Diocese e do Bispo em particular: «com tudo o que supõe de oração, dedicação e canseira, a formação dos presbíteros constitui  para o Bispo uma preocupação de primordial importân­cia» (2). O primeiro representante de Cristo na formação presbiteral e o princípio “sacramental” da unidade do pres­bitério é o Bispo.

A partir da articulação da Exortação apostólica pós­sinodal Pastores Dabo Vobis (PDV) apresentamos breve­mente às quatro dimensões da formação (humana, espiri­tual, intelectual e pastoral) e acrescentamos mais uma – a formação comunitária. Estas cinco dimensões antropológi­coteológicas da formação correspondem às exigências da identidade e missão dos presbíteros, tomando-se ainda mais necessárias no momento presente da história.

Além de ser um espaço: «o seminário é tempo desti­nado à formação e ao discernimento» – disse o Papa Bento XVI aos seminaristas e acrescentou: «O seminário é tem­po de caminho, de busca, mas sobretudo de descoberta de Cristo. ( … ) Quanto mais conheceis Jesus tanto mais o seu mistério vos atrai; quanto mais O encontrais tanto mais estais impulsionados a procurá-Lo. É um movimento do espírito que dura toda a vida, e que encontra no seminário uma estação repleta de promessas, a sua “primavera”» (3).

O Seminário representa para a Igreja local um dos bens mais preciosos, a tal ponto de ser chamado “o cora­ção da Diocese”, porque a renovação do presbitério é determinante para a vida de uma Diocese. Todos somos convidados a olhar o seminário como “coração da Dioce­se”, a rezar por todas vocações, a contribuir para a vida quotidiana dos seminaristas e sobretudo para uma forma­ção excelente dos padres.

Nesta perspetiva, o Seminário diocesano, “cor cor­dis” da Igreja particular, poderá ser verdadeiramente um sinal vocacional particularmente incisivo para os jovens, como um laboratório de esperança para o futuro. O Semi­nário é uma experiência original da vida eclesial que per­mite ao jovem saborear a vida presbiteral na comunidade educativa do Seminário e no contacto direto com a Dio­cese.

 

1. Formação humana

Ao tratar das diversas dimensões da formação presbi­teral, a Pastores Dabo Vobis, antes de se voltar para a dimensão espiritual, elemento de máxima importância na educação presbiteral, (4) refere que a dimensão humana é o fundamento de toda a formação. Enumera uma série de virtudes humanas e de capacidades relacionais que se requerem do presbítero, para que a sua personalidade seja uma «ponte e não um obstáculo para os outros no encontro com Jesus Cristo, Redentor do homem» (5). Elas vão desde o equilíbrio geral da personalidade até à capacidade de car­regar o peso das responsabilidades pastorais, desde o conhecimento profundo da alma humana até ao sentido da justiça e da lealdade.

N a verdade, a dimensão humana é fundamental em todo o itinerário educativo para o presbiterado. Algumas características para poder ser um padre ‘suficientemente maduro’ (6) merecem particular atenção: «o sentido positivo e estável da própria identidade viril e a capacidade em relacionar-se de modo amadurecido com outras pessoas ou grupos de pessoas; um sólido sentido de pertença, funda­mento da futura comunhão com o presbitério e de uma responsável colaboração com o ministério do bispo; a liberdade em entusiasmar-se por grandes ideais e a coerên­cia em realizá-los nas ações de cada dia; a coragem em tomar decisões e de permanecer fiel a elas; o conhecimen­to de si, das suas qualidades e limitações, integrando-as num apreço de si diante de Deus; a capacidade de se corri­gir; o gosto pela beleza entendida como “esplendor da ver­dade” e a arte em reconhecê-la; a confiança que nasce da estima pelo outro e que leva ao acolhimento; a capacidade do candidato em integrar, segundo a visão cristã, a sua sexualidade, inclusive na consideração da obrigação do celibato» (7).

Um psiquiatra não crente escreveu um livro’ acerca dos padres. Diz ele, «parece-me poder dizer que se o Bis­po quer que os seus padres sejam santos, eu como psiquia­tra gostaria que fossem serenos e ao menos, algumas vezes, felizes» (9).

 

2. Formação comunitária

(a sacramentalidade do presbitério)

o sentido da vida e da missão do presbítero é deter­minado pela qualidade e profundidade da sua experiência de comunhão. A vida de comunhão experimentada já no Seminário, deve ser aprofundada no presbitério para reani­mar no coração do presbítero a razão da sua consagração e lhe oferecer o necessário suporte afetivo para o árduo serviço pastoral.

As motivações para a vida comunitária têm de ser renovadas constantemente. As suas raízes são:

1) a natureza da vocação da Igreja chamada e cons­tituída por Deus em povo (10);

2) a essência do ministério presbiteral, que só pode ser assumido como uma missão comunitária;

3) a comunhão com Cristo, vivida na intimidade própria dos primeiros discípulos, chamados para que «ficassem com Ele» (11).

Considerando a natureza comunitária do ministério presbiteral, o seminarista, como o presbítero, devem culti­var a capacidade de: conviver e integrar-se em comunida­de; assumir responsabilidades e desenvolver o espírito de iniciativa; trabalhar em equipa sabendo dar e receber aju­da; reconhecer a necessidade do outro e de ser solidário; valorizar o trabalho dos outros; escutar atentamente os outros.

Por outro lado, há que superar entraves graves à experiência fraterna e comunitária, tais como: atitudes individualistas e narcisistas; comportamentos de isolamento; busca de promoção pessoal; competição; tendência pelo luxo, pela mordomia e aburguesamento; crítica nega­tiva “intriga eclesiástica” e a submissão por conveniência.

A vida comunitária coloca-nos diante de duas reali­dades fundamentais na vida do presbítero:

1) a comunhão de fé com o Bispo e com todo o presbitério;

2) a partilha da vida com o Povo de Deus, o qual deve estimar, acolher, amar e servir.

Na continuidade da Tradição, o Magistério, e espe­cialmente na Lumen Gentium e Presbyterorum Ordinis, atribuiu uma importância especial ao Presbitério, afirman­do na Pastores Dabo Vobis: «o presbitério é um mistério: de facto, é uma realidade sobrenatural porque se radica no sacramento da Ordem. Este é a sua fonte, a sua origem. É o “lugar” do seu nascimento e crescimento. Com efeito, “os presbíteros, mediante o sacramento da Ordem, estão ligados a Cristo único Sacerdote por um vínculo pessoal e indissolúvel. A Ordem é-lhes conferida como pessoas sin­gulares, mas são inseridos na comunhão de todo o presbi­tério com o Bispo” » (12). Por isso mesmo, o presbitério da Diocese, com todas as suas reuniões, encontros fraternos ou festivos, celebrações, exercícios espirituais, encontros de estudo e de reflexão é o primeiro ambiente de forma­ção. Também as associações e fraternidades presbiterais são ambientes de formação e exercício comunitário do ministério.

 

3. Formação espiritual

A vida espiritual é o coração que unifica e dá vida a todo o caminho da formação dos futuros presbíteros. O seu conteúdo essencial é a partilha da experiência do mis­tério pascal de Cristo Pastor, sob a ação do Espírito San­to.

Momento essencial do encontro com Cristo é a liturgia, que conduz os seminaristas à experiência da ora­ção de toda a Igreja (Liturgia das Horas), ao ritmo do Ano litúrgico, na celebração sacramental, em especial da Euca­ristia e da Reconciliação. As linhas fundamentais de tal formação são: a união íntima a Cristo, a leitura meditada e orante da Palavra de Deus (lectio divina), a autêntica ora­ção cristã, o sentido profundo do humano e o valor reli­gioso do silêncio, os sacramentos, a liturgia, o procurar Cristo nos homens, o dom generoso e gratuito de si mes­mo (celibato).

Ouso propor a espiritualidade litúrgica como a espi­ritualidade genuinamente cristã. A vida cristã requer sem­pre uma vida espiritual, que não pode existir sem a litur­gia (13), A Igreja, com efeito, salienta claramente esta tese e apresenta a liturgia na vida espiritual cristã como «fonte primeira e indispensável do verdadeiro espírito cristão, que é a participação ativa nos santos mistérios e na oraç­ão pública e solene da Igreja» (14). Podemos afirmar que a liturgia é a teologia celebrada e a Bíblia rezada.

Uma liturgia séria, simples, bela, que seja experiên­cia do mistério, permanecendo ao mesmo tempo inteligível, capaz de narrar a perene aliança de Deus com os homens.

No último Sínodo sobre A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, os Padres sinodais, nas Proposições entregues ao Papa, referiram-se à sacramentalidade da Pa­lavra de Deus e evidenciaram a relação da homilia com a espiritualidade do presbítero: «a homilia faz que a Palavra proclamada se atualize …. ela conduz ao mistério que se celebra, convida à missão e partilha as alegrias e dores, as esperanças e os medos dos fiéis … Deveria haver uma homilia em todas as missas “cum populo”, também duran­te a semana. É preciso que os pregadores (Bispos, Presbí­teros e Diáconos) se preparem na oração, para que pre­guem com convicção e paixão. Devem pôr-se três pergun­tas: o que é que dizem as leituras proclamadas? O que é que me dizem a mim? O que é que devo dizer à comunida­de, tendo em conta a sua situação concreta? O pregador deve ser o primeiro a deixar-se interpelar pela Palavra de Deus que anuncia» (15).

A liturgia está na origem do desenvolvimento e da consumação da própria vida cristã. Esta é a vida segundo o Espírito, coerente com Ele. À liturgia é dado o lugar de «culmen et fons» (16) da ação da Igreja. Da mesma liturgia vem a santificação dos homens em Cristo e a glorificação de Deus, que constituem a estrutura teândrica da liturgia, a atuação objetiva do evento salvífico. A espiritualidade litúrgica é sempre relacional (amor intratrinitário) porque a oração é constantemente dirigida ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo.

 

4. Formação intelectual

«o percurso de estudo que é oferecido pelos Centros académicos eclesiásticos como as Faculdades de Teologia e os Institutos nelas incorporados, agregados e afiliados tem a finalidade de garantir ao estudante um conhecimen­to completo e orgânico de toda a Teologia; isto é exigido de modo particular daqueles que se preparam para o sacer­dócio. Além disso, ele propõe-se aprofundar de modo completo as diversas áreas de especialização da Teologia, adquirir o necessário uso do método científico próprio de tal disciplina e outrossim elaborar uma contribuição cien­tífica original» (17).

O grande teólogo Lonergan (+2004) escreveu que «o método não é um conjunto de regras propostas para que um estúpido as siga meticulosamente. É uma estrutura em vista de uma criatividade em colaboração» (18). É evidente que não basta um método ou querer ou até ser inteligente para acreditar, é preciso fazer a experiência do encontro com Cristo. (Deus não se aprende nos livros).

Aqui os professores do Instituto ou Faculdade de Teologia têm um papel fundamental no seu “ministério teológico”. Neste itinerário é necessário que os professo­res tenham consciência que também são formadores e que não se podem fechar numa mera preocupação académica com a sua própria disciplina, mas devem atuar em espíri­to eclesial, participando do conjunto do processo formati­vo, facilitar a interdisciplinaridade e a transversalidade nas dimensões teológicas.

Atualmente, o paradigma da formação alterou-se e passou a ser encarado como um processo continuado e permanente. Ninguém se pode considerar formado no ter­mo da sua passagem pelo Seminário/Faculdade de Teolo­gia/Instituto Superior de Teologia. Requer-se do teólogo uma capacidade crítica para ler a realidade pessoal e social e a cultura que essa incarna, aquela alegria de procurar a verdade, de descobri-la e comunicá-la (19).

O estudo da teologia busca uma inteligência aprofun­dada dos mistérios da fé cristã que seja capaz de orientar o ser, o saber e o agir do presbítero. A inteligência (no senti­do de intus+legere (20), «aquela inteligência do coração que sabe “ver” primeiro o mistério de Deus e depois é capaz de comunicá-lo aos irmãos» (21). A inteligência da fé em Cristo, que supera a mera ciência conceptual, mas que exi­ge um sólido estudo da filosofia e da teologia para ser luz na hodierna noite cultural.

Com efeito, a qualidade dos futuros presbíteros depende da seriedade da sua formação. Pois, «os sacerdo­tes participarão mais de perto dos empenhos dos seus bis­pos, assumindo tarefas pastorais sempre mais gerais e complexas, juntamente com iniciativas cada vez mais vas­tas dentro e fora da diocese. Esta avultada responsabilida­de pastoral requer, é óbvio, uma competência teológica e segurança doutrinal não comuns» (22),

No estudo teológico há uma dupla direção: o estudo da Palavra de Deus e do homem interlocutor de Deus. Tal estudo é feito à luz da tradição viva da Igreja e do seu Magistério, na escola dos Padres da Igreja, da liturgia e da história da Igreja. O Vaticano II acentua esta linha, ao afir­mar: « … procurem os professores das outras disciplinas, sobretudo de teologia dogmática, Sagrada Escritura, teolo­gia espiritual e pastoral, fazer ressaltar, a partir das exigên­cias intrínsecas de cada disciplina, o mistério de Cristo e a história da salvação, para que se veja claramente a sua conexão com a Liturgia e a unidade da formação sacerdo­tal»(23).

A “unidade e a solidez” da formação intelectual é um cuidado a ter na organização dos estudos, de modo a evitar “a multiplicação de disciplinas e as questões de pouca importância”, como recordou o Concílio”, concentrando-se num conteúdo doutrinal substancioso e orgânico nas ques­tões de real interesse pastoral.

Também faz parte do quotidiano formativo a educa­ção da sensibilidade mediante a experiência do belo. As artes no seu conjunto falam-nos do precioso dom da vida através dos seus contrastes e é a beleza do verdadeiro que brilha. A propósito escreve um filósofo Russo: «Deus criou a beleza para nos ajudar a compreendê-Lo»(25). Nos cami­nhos de Deus a beleza e a verdade andam de mão dadas.

Considerando a prioridade da formação presbiteral, em todas as suas dimensões, a preparação académica qua­lificada dos formadores do Seminário e professores do Ins­tituto/Faculdade de Teologia exige da Diocese constante atenção, sacrificios pastorais e investimento económico.

 

5. Formação pastoral

Toda a formação pastoral orienta-se a dispor o cora­ção dos seminaristas e dos presbíteros para a caridade pas­toral de Cristo cabeça, pastor, servo e esposo da Igreja. O Seminário Maior, como espaço em que todas as dimen­sões devem ser trabalhadas de modo global e integrado, é o primeiro espaço da formação pastoral numa articulação com a família, primeira escola de fé; as paróquias (26), luga­res privilegiados da pastoral; os movimentos e novas comunidades; o Instituto ou Faculdade de Teologia; outros lugares (os pobres, os jovens, a cidade, a educação, a saúde, as prisões, a política, a comunicação social, o turismo, a missão, os católicos afastados … ).

Ao Instituto/Faculdade de Teologia, espaço privile­giado de formação intelectual, a Igreja pede que garanta o eixo da pastoralidade, como costura da matriz curricular e do ensino de todas as disciplinas e que o ensino da Teolo­gia pastoral conheça e respeite o plano de pastoral das Dioceses nas suas diferentes dimensões.

A formação pastoral não é só reservada ao chamado ‘Ano Pastoral’, nem só a aprendizagem de uma qualquer técnica pastoral, mas uma reflexão científica sobre a Igre­ja no seu edificar-se quotidiano, com a força do Espírito, dentro da história sobre a Igreja fundada na caridade pas­toral de Cristo. Ela está orientada à configuração prática do presbítero pastor, discípulo e missionário de Jesus Cristo.

O conceito ‘caridade pastoral’ tem a sua fonte no próprio sacramento da Ordem e constitui a alma de todo o ministério presbiteral. Neste sentido, nunca se pode sepa­rar a ação litúrgica da ação pastoral. Os dois imperati­vos evangélicos, o da missão “Ide e ensinai” (27) e o da Eucaristia (Liturgia) “Fazei isto em memória de Mim”(28), coincidem no mesmo e único fundamento básico do mis­tério e mi(ni)stério do padre diocesano. Por outras pala­vras “viver o que se celebra, para celebrar dignamente o que se vive”.

A Paróquia deveria ser cada vez mais uma “escola vocacional”, onde o pároco ou qualquer ministro «nunca poderá esquecer que uma homilia, a administração de um sacramento (do Batismo à Unção dos enfermos, ao Matrimónio), uma catequese, uma adoração do SS. Sacra­mento, um retiro, uma missa, uma confissão, uma novena, uma iniciativa qualquer, se não é vocacional, se não pro­põe uma pergunta estratégica («e eu que coisa sou chama­do a fazer a partir desta Palavra, deste dom … ?»), não é ação litúrgica ou sacramental cristã, mas outra coisa qualquer, não bem definida, talvez inútil, às vezes contra­ditória (com a essência da mensagem cristã), se não até hipócrita» (29), As paróquias, pela sua própria identidade, são os lugares privilegiados em que se proclama o Evangelho da vocação. Os grupos, os movimentos e associações ecle­siais são especiais lugares pedagógicos da vida de fé para o acolhimento da vocação.

Mas as testemunhas mais eficazes da vocação ao presbiterado são os próprios presbíteros e os seminaristas. Os presbíteros, enquanto sabem oferecer um testemunho de espiritualidade, perspetiva pastoral, alegria, amizade e comunhão presbiteral; os seminaristas, ao viverem com liberdade e alegria a experiência do seu seguimento, serão os primeiros e imediatos apóstolos da vocação no meio dos seus coetâneos.

 

6. Proposta de itinerário

A formação para o presbiterado configura-se como um verdadeiro e próprio itinerário, ritmado por momentos significativos que assimilem as dimensões humana, espiri­tual, intelectual e pastoral. Ao próprio Seminário exige-se um projeto educativo. Assim, propomos um itinerário para os seis anos do Seminário Maior:

1.º ano: Introdução a vida do Seminário Maior
2.º ano: Admissão ao diaconado e ao presbiterado (30)
3.º ano: Instituição no ministério do leitorado
4.º ano: Instituição no ministério do acolitado
5.º ano: Ordenação diaconal
6.º ano: Ordenação presbiteral

A presente proposta tem uma certa analogia com o itinerário para a Iniciação Cristã. Assim como o catecúmeno se prepara para os sacramentos da Iniciação Cristã (sacerdócio comum) mediante a catequese, os escrutínios, as entregas do Pai-Nosso, do Credo e dos Evangelhos, também o seminarista é conduzido pela Igreja ao sacra­mento da Ordem dos Presbíteros (sacerdócio ministerial) mediante uma proposta educativa específica.

As quatro Dioceses que constituem o Instituto Supe­rior de Teologia de Viseu estamos em fase de estruturação em vista da inclusão no processo formativo do chamado Ano Propedêutico.

 

7. Formação permanente

Atendendo ao contexto atual da nossa Diocese, o Seminário será também o centro da formação permanente para os presbíteros. De facto, o curriculum do Seminário ou da Faculdade de Teologia não pode ser entendido como um percurso concluído, mas como uma preparação para um ministério sempre aberto à renovação, à conversão, à atenção às mudanças culturais e sociais. Podemos até afir­mar que se a vida do padre não é formação permanente, toma-se frustração permanente. A formação é um processo global, progressivo e permanente.

Na prática, após uma experiência comunitária no Seminário (ao menos de 4 anos), logo a seguir à ordena­ção presbiteral o padre é enviado, sozinho, para um vasto conjunto de experiências pastorais. Por tal motivo, o acompanhamento aos novos presbíteros exige cada vez mais uma grande atenção do bispo e de todo o presbitério. A solidão, que pode ser experimentada em qualquer idade, nunca seja produzida pelo desleixo da comunhão sacerdotal. Por consequência, o Seminário nunca pode ser alheio em todas as etapas formativas do presbitério diocesano.

Os objetivos (31) desta formação permanente dos pres­bíteros jovens podem ser estes:

* acompanhar a maturidade da personalidade, num contexto de geral prolongamento da adolescência, com a tendência a retardar o assumir de responsabilidades;

* educar para ser pastor de uma comunidade, pondo ao seu serviço as atitudes e qualidades pessoais;

* ajudar a inserção numa pastoral complexa e exi­gente, encontrando também o modo de gerir responsavel­mente o tempo (horário, regra de vida);

* crescer na comunhão e na corresponsabilidade com os presbíteros e os leigos.

Como recordava o Beato João Paulo II – : «o sacer­dócio não é propriedade nossa, para fazermos o que nos agrada; não podemos reinventar o seu significado, segundo o nosso ponto de vista pessoal. O que nos compete é ser fiéis Àquele que nos chamou»>, A fidelidade é um mistério de amor que vence o tempo.

Para mostrar os mistérios de Cristo e viver sempre do mistério ao mi(ni)stério – há que «encontrar paciência bastante para aguentar – aconselhava Rainer Rilke – e ino­cência bastante para acreditar, mais confiança no que é dificil e no estado de solidão entre os outros. E no mais, deixe acontecer a vida. Acredite-me, a vida tem razão em todos os casos» (33).

Que S. José, «Servo fiel, humilde e silencioso»(34), Homem justo e prudente, «Patriarca do silêncio e do trabalho»(35), continue a proteger o nosso Seminário, qual facili­tador da vida em Cristo.

 

A Igreja presente em Bragança-Miranda precisa de novos evangelizadores para a Nova Evangelização. A Deus nada é impossível, mas nós podemos fazer todo o possível. No mistério da Anunciação acontece a possibili­dade do impossível. Aqui a vida aparece como uma fonte inesgotável de surpresa e de fidelidade ao Amor. Como Isaías(36), Maria (37) diz o seu Eis-me aqui. Recordamos as pala­vras do Cardeal Martini: «A verdade da oração pelas voca­ções é alcançada quando ressoa a oração de Isaías:

“Senhor, eis-me aqui. Podeis enviar-me.” Convido-vos a rezar assim» (38).

Caros amigos e amigas em Cristo, também eu con­vido a todos, particularmente aos jovens, a rezar assim:

SENHOR, EIS-ME AQUI. PODEIS ENVIAR-ME.

 

Bragança, 1 de novembro de 2011
Solenidade de todos os Santos

D. José Manuel Garcia Cordeiro
44° Bispo de Bragança-Miranda

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Notas

(1) C.M. MARTINI, Le tenebre e la luce. Il dramma della fede di fronte a Gesú, Piemme, Milano 2009, 64.

(2) JOÃO PAULO II, Pastores Gregis 48.

(3) BENTO XVI, Discurso aos seminaristas em Colónia, 19.08.2005.

(4) Cf. PDV 45.

(5) PDV 43.

(6) O conceito de maturidade aqui subjacente é um conceito dinâmico, isto é, a maturação na docilidade ao Espírito Santo. «Aberto à realidade e disposto a conhecê-la e a aceitá-la; aprender a conhecer, reconhecer e gerir os sentimentos e as emoções; disposto a escutar todas as pessoas; capaz de estar só consigo mesmo; buscador de valores autênticos em confronto com a dominante conceção consu­mista e individualista da vida; alguém que viveu a experiência de ser amado e está pronto a amar generosamente sem barreiras; alguém que assume a responsabilida­de da sua própria vida e aprende a orientá-la para uma autenticidade sempre maior; alguém que manifesta na vida: amor à verdade, lealdade, respeito por cada pessoa, sentido da justiça, fidelidade à palavra dada, coerência, equilíbrio de juí­zos e comportamentos. Cf. L. MONARI, «La vita e il ministero del presbitero per una comunità missionaria in un mondo che cambia: nodi problematici e prospettive», in CONFERENZA EPISCOPALE ITALIANA, Lettera ai sacerdoti italiani, EDB, Bologna 2006, 22-27.

(7) CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Orientações para a utilização das competências psicológicas na admissão e na formação dos candi­datos ao sacerdócio, 2008, 2.

(8) V. ANDREOLI, Preti. Viaggio fra gli uomini del sacro, Piemme, Milano 2009.

(9) V. ANDREOLI, Preti, 8.

(10) Cf. LG 9.

(11) Mc 3,14.

(12) PDV 74.

(13) Cf. A. COELHO, A importância da cultura litúrgica na vida espiritual (Vida litúrgica 3), Braga 1927; Cf. E. BIANCHI, Lessico della vita interiore. Le parole della spiritualità, Milano 2004, 15-18.

(14) PIO X, Motu proprio «Tra le sollecitudini», AAS 36 (1903-1904) 33l.

(15) SÍNODOS DOS BISPOS, Proposições entregues ao Papa 2008,15.

(16) SC 10.

(17) CONGREGAÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CATÓLICA, Instrução sobre os Institutos Superiores de Ciências Religiosas, 2008, 2.

(18) B. LONERGAN, Il metodo in teologia, Città Nuova, Roma 2001, 29.

(19) Cf. S. AGOSTINHO, Confissões 10,33.

(20) Não deixar-se impressionar pelo que parece e arquitetar uma reflexão, mas entrar no mistério mediante uma atitude de participação na vida quotidiana.

(21) PDV 5I.

(22) SAGRADA CONGREGAÇÃO DA EDUCAÇÃO CATÓLICA, Formação Teo­lógica dos Futuros Sacerdotes. Introdução. 22.02.1976.

(23) SC 16.

(24) Cf. OT 17.

(25) P.J. CAADAEU, «Aforismi e note varie», in Russia Cristiana 197 (1984) 18.

(26) A experiência mostra quanto é importante no processo de formação do futuro pastor, o exemplo e testemunho de presbíteros em cujas comunidades o semina­rista realiza o estágio pastoral. Os párocos têm muito a testemunhar: a prática da Liturgia, a vivência fiel do celibato, a relação com a comunidade e a Diocese, o sentido da liberdade conferido ao compromisso da obediência, a integração efec­tiva das atividades pastorais no conjunto da ação evangelizadora da Diocese, a amizade sacerdotal… A norma suprema da educação é o testemunho.

(27) Mt 28, 18-20

(28) Cor 11,24; Lc 22,19.

(29) A. Cencini, Una parrochia vocazionale. Quale pedagogia della vocazione nella comunitá parrocchiale, Paoline Editoriale Libri, Milano 2005, 58-59.

(30) Esta etapa será sempre celebrada no dia da festa anual de S. José, o padroeiro do Seminário diocesano.

(31) Cf. CONFERENZA EPISCOPALE ITALIANA, La formazione dei presbiteri nella Chiesa italiana. Orientamenti e norme per i seminari, terza edizione, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 2007, 115.

(32) J. PAULO II, Aos Sacerdotes e Religiosos da Escócia, 31.05.1982.

(33) R. M. RILKE, Cartas a um jovem poeta, Edições ASA, Porto 2002, 87.

(34) LITURGIA DAS HORAS, Hino de Laudes de 19 de março.

(35) LITURGIA DAS HORAS, Hino de Vésperas de 19 de março.

(36) Is 6, 8

(37) Lc 1,38.

(38) C.M. Martini, Carta aos Pais, 2002