VILA REAL: Santuário de Nossa Senhora de la Sallete

O santuário de Nossa Senhora de La Salette fica situado na encosta da serra do Alvão, a 2 km de Vila Cova, União de Freguesias de Pena, Quintã e Vila Cova, concelho de Vila Real. É constituído por uma capela em honra de Nossa Senhora de La Salette, com instalações anexas, um recinto de grandes dimensões e um parque de merendas.

É uma das vistas panorâmicas mais emblemáticas da região de onde se contempla o vale da Campeã e a Serra do Marão.

Aí afluem numerosos visitantes, sobretudo durante o verão, para contemplar a beleza natural e usufruir do parque de merendas, muito bem cuidado, com as genuínas mesas de lousa. Por ali passa a rota do mineiro, um circuito pedestre que faz memória às minas de ferro que laboraram em Vila Cova até aos anos 80 do século XX.

É um local bem conhecido dos escuteiros dado que ali bem perto se situa o Campo Escola do CNE da Região de Vila Real.

O santuário teve recentemente obras de beneficiação. Um esforço conjunto da Paróquia de Vila Cova e da Assembleia de Compartes possibilitou o restauro da talha do altar de Nossa Senhora de La Salette e a colocação de vitrais da autoria do Mestre Avelino Leite.

É um local de grande devoção.  Aqui, a partir do primeiro domingo de maio até setembro, realizam-se numerosas celebrações religiosas.

Os dias grandes do Santuário são o primeiro e o último domingos de maio. No primeiro, celebra-se o dia da Mãe e no último, faz-se o encerramento do Mês de Maria, concentrando, aí, as paróquias de toda a região oeste do concelho de Vila Real.

 

No dia 15 de agosto é a grande festa em honra de Nossa Senhora de La Salette. Aqui convergem milhares de peregrinos, grande parte emigrantes. Celebra-se a Eucaristia na igreja paroquial  e segue-se uma majestosa procissão até ao Santuário, acompanhada por banda filarmónica. A tarde é preenchida por um genuíno convívio e atividades de cunho estritamente religioso. 

 

No dia 19 de setembro (ou no domingo imediato), festa oficial de Nossa Senhora de La Salette, também é costume celebrar-se a Eucaristia no santuário.

 

Breve história do santuário

A construção da capela de Nossa Senhora de La Salette, em Vila Cova, ter-se-á devido a vários fatores, a que não será alheia a devoção de D. Ana Constança de Jesus Dias Barria, uma figura incontornável de Vila Cova.

Oriunda de uma família abastada e letrada, D. Ana Constança, nasceu a 6 de fevereiro de 1831.

Logo após o falecimento de sua mãe, ocorrido em 1874, decide fundar uma escola na sua própria casa. Era um modesto estabelecimento de ensino para que as crianças e jovens ali pudessem aprender a ler, a escrever, a bordar e a costurar, para além de aprender a Doutrina Cristã. Insatisfeita com os resultados, deslocou-se a Lisboa para falar com a Rainha D. Amélia. Num encontro ocasional com a Fundadora da nova Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras Portuguesas, Madre Maria Clara do Menino Jesus, solicita-lhe que crie um Colégio em Vila Cova.

Tal virá a suceder em 1876, com a vinda de Madre Maria Clara a Vila Cova, sendo este colégio, denominado Colégio de Nossa Senhora de La Salette, a VIª obra da Congregação em todo o país. Este colégio funcionou cerca de vinte anos, grande parte deles, sob a orientação das Irmãs da referida Congregação.

Madre Maria Clara foi beatificada pelo Papa Bento XVI, a 20 de maio de 2011, e tem uma imagem na igreja paroquial de Vila Cova, desde 18 de julho de 2016.

Diz a tradição popular, que D. Ana Constança era "dotada de qualidades excecionais, sobretudo de grande generosidade, tendo feito da sua vida um hino ao amor a Deus, a Nossa Senhora de La Salette e à sua terra.

Nunca se sentiu missionária longínqua; para ela, a primeira terra de missão era a sua aldeia!

A tradição que ainda hoje existe refere-se a um sonho que D. Ana tivera, no qual Nossa Senhora lhe pedira para que construísse um Altar, onde os fiéis aí pudessem rezar, para pedir a cura da alma e do corpo.

No entanto, segundo relatos familiares, a versão dos factos é um pouco diferente, e refere que D. Ana Constança terminara de rezar, voltada para o seu crucifixo, na primitiva Capela de Nossa Senhora de La Salette, quando se levantou para vir embora terá ouvido a voz de Jesus a dizer-lhe: "tu vais embora e deixas-me aqui sozinho?".

De uma maneira ou de outra,  D. Ana Constança decidiu avançar para a construção de uma capela com a invocação de Nossa Senhora de La Salette no Monte da Malhada da Fraga da Pena, conforme prova a ata da reunião da Junta de paroquial, datada de 30 de março de 1898, em que foi apresentada a proposta de aquisição de um terreno de duzentos metros de comprido e sessenta metros de largo, perfazendo dez mil metros quadrados de terreno no sitio da Malhada da Fraga da Pena, com o fim de aí mandar edificar urna capela para colocar a imagem de Nossa Senhora de La Salette, para os devotos venerarem.

A partir dessa altura foi erigido um altar com a invocação de Nossa Senhora de La Salette. Desde então, começaram as festividades, atraindo gradualmente mais e mais crentes. O dia da festa foi durante muitas décadas 19 de Setembro, mas posteriormente seria transferido para o dia 15 de Agosto.

Entre 1920 e 1925, terá sido construída a nave central da capela. D. Ana Constança veio a falecer em 1924.

Nos anos seguintes, sob a orientação do pároco, Padre José Augusto Peixoto Barria, sobrinho de D. Ana Constança,  construiu-se a torre sineira da capela, ampliou-se o santuário e adquiriu-se a imagem de Nª Srª de La Salette, com os pastorinhos.

 Outros melhoramentos ocorreram posteriormente da responsabilidade do Pároco, Américo Pereira Gonçalves (1949-2004): sala de jantar, água canalizada, parque de merendas, wc públicos, zona de estacionamento e uma estrada de acesso com qualidade.

Este santuário maravilhoso de interioridade e encanto paisagístico espera por ti!

 

Padre Manuel Queirós

João Paulo Lopes

 

175 anos do nascimento da Beata Maria Clara do menino Jesus – Emissão 28-06-2017

As Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição estão em festa – até 15 de junho de 2018 a congregação vai celebrar os 175 anos de nascimento da sua fundadora, a beata Maria Clara do Menino Jesus. Conversamos com a assistente geral da Congregação, a Irmã Maria de Lurdes Barbosa, sobre a atualidade de um carisma desenvolvido na realidade própria do século 19 mas que deixa pistas para a congregação e para a socieddae nos dias de hoje.

Vida Consagrada: Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada refletem sobre «revigoramento missionário»

Angra do Heroísmo, Açores, 09 jul 2014 (Ecclesia) – A formação anual da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição tem como tema o “revigoramento missionário”, orador D. António Couto, bispo de Lamego, e realiza-se na ilha Terceira, entre 17 e 20 de julho.

“Trata-se de uma ação de formação contínua que promovemos a vários níveis para nos ajudar e incentivar a viver o carisma desta congregação de uma forma ainda mais intensa” explicou a irmã Noémia Alves, esta terça-feira.

Atualmente a congregação conta com 528 religiosas e a Superiora Provincial das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC) revelou que a formação “Revigoramento Missionário”, orientada pelo bispo biblista, D. António Couto, é exclusiva para as 30 religiosas das comunidades do Faial, Pico, São Jorge, Terceira e São Miguel.

A irmã Noémia Alves, ao Portal da Diocese, considerou que a diminuição de vocações não é exclusiva dos Açores mas transversal à Europa: “É um desafio para toda a Igreja que nos impele a apostar por um lado, numa Pastoral da Família, das escolas e nas igrejas dando a conhecer o essencial da vocação consagrada”.

“É na adolescência que surgem as interrogações e se orientam vocações. Se explicarmos e dermos a conhecer a beleza da vida consagrada provavelmente os jovens sentir-se-ão mais despertos para esta vocação que deve e tem de ser valorizada por todos”, acrescentou a superiora provincial da CONFHIC sobre a importância da pastoral juvenil para inverter o diminuto número das vocações.

O site da congregação informa que a CONFHIC foi fundada em Portugal a 3 de maio de 1871, pelo padre Raimundo dos Anjos Beirão e pela Madre Maria Clara do Menino Jesus, “como resposta evangélica às inúmeras carências com que se debatia o povo português em meados do séc. XIX”.

CB/OC

Lisboa: Franciscanas da Imaculada Conceição debatem «revigoramento missionário»

Lisboa, 01 ago 2012 (Ecclesia) – A Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição (Confhic) promove entre hoje e o próximo dia 8 a iniciativa intitulada ‘Tenda do Revigoramento Missionário’, que congrega 46 religiosas de Portugal e outros 10 países.

A ação de formação visa “oferecer às irmãs oportunidade de recordar e assumir, com entusiasmo renovado a vocação missionária, recebida no batismo e radicalizada pela consagração religiosa”, assinala um comunicado enviado hoje à Agência ECCLESIA.

As atividades de “estudo, reflexão, oração, partilha de experiências e testemunhos” vão decorrer na sede geral da Confhic em Linda-a-Pastora, arredores de Lisboa.

“Desafiada pelos constantes apelos da Igreja a uma nova evangelização, a Confhic sente a urgência de revitalizar a dimensão missionária do seu Carisma”, destacam as responsáveis da congregação, fundada pela beata portuguesa Maria Clara do Menino Jesus (1843-1899).

OC

Programa Ecclesia do dia 25 maio 2011

Celebração da Beatificação de Maria Clara do Menino Jesus; Conversa de Bento XVI com os Astronautas da estação espacial internacional; Congresso «Rumo Solidário para Portugal» promovido pela CNIS; 60 anos da Escola Superior de Enfermagem S. Francisco das Misericórdias

https://www.youtube.com/watch?v=AKM26ry0_iY

Homilia de D. Joaquim Mendes no tríduo de preparação da beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus

VIGILIA DE ORAÇÃO

BEATIFICAÇÃO DA IRMÃ MARIA CLARA DO MENINO JESUS  

Lisboa, Paróquia de Nossa Senhora do Amparo (Lisboa), 19 de maio de 2011

 

1. O chamamento à vida é simultaneamente um chamamento à comunhão com Deus, em Cristo, mediante o dom do seu Espírito.

Esta comunhão tem início no Batismo, quando «tendo-nos tornado participantes da morte e ressurreição de Cristo», iniciou, para a Madre Maria Clara e para nós, a aventura jubilosa e exaltante de discípulos de Cristo Ressuscitado.

Foi aqui, nesta comunidade cristã de Nossa Senhora do Amparo, que há cento e sessenta e sete anos a Irmã Maria Clara iniciou a sua caminhada cristã, pela mão dos seus pais e padrinhos, que a conduziu à elevada meta da santidade.

Nela se foi realizando aquela transformação que a levou ao conhecimento de Cristo e à força da sua Ressurreição, à comunhão com os seus sentimentos e à identificação com a sua compaixão, amor e ternura pelos mais pobres.

Iniciada e apoiada pela Graça de Deus, Madre Maria Clara chegou à estatura adulta de Cristo e alcançou a meta alta da vida cristã, a santidade.

A sua vida é um exemplo e um estímulo para os cristãos, para cada um de nós, e um forte apelo à santidade, que é a vocação de todos os filhos e filhas de Deus.

 

2. A sua experiência pessoal mostra que a santidade é uma meta ao alcance de todos, um dom e um caminho oferecido a todos os batizados.

Naturalmente que nem todos os santos são iguais, cada um tem o seu caminho, o seu dom, a sua resposta. Os santos são «como as cores do espectro em relação com a luz, porque com tonalidades e acentos próprios cada um deles reflete a luz da santidade de Deus» (Jean Guiton).

O caminho de santidade da Madre Maria Clara consistiu no seguimento de Cristo casto, pobre e obediente, servindo os pobres, doentes, órfãos, idosos e crianças, sendo, para todos, portadora do amor e da ternura de Deus, expressão viva da sua compaixão e da sua misericórdia.

O caminho de santidade é sempre um caminho de amor. Madre Clara percorreu este caminho do amor de forma heroica, extraordinária, na docilidade ao Espírito Santo e ao chamamento de Deus.

Por isso a Igreja, reconhecendo a heroicidade da sua vida cristã ao beatificá-la, propõe-na como modelo, estímulo e referência para todos os cristãos, para a Igreja universal e para o mundo.

 

3. O Santo Padre Bento XVI, na recente exortação apostólica Verbum Domini afirma que «cada santo constitui uma espécie de raio de luz que brota da Palavra de Deus» (n.48).

«Os santos constituem o comentário mais importante do Evangelho» (Hans Urs von Balthasar), são o Evangelho vivo e «representam para nós uma via real de acesso a Jesus» (Bento XVI).

Madre Maria Clara foi verdadeiramente «sal da terra» e «luz do mundo». A sua vida deu sabor e sentido a muitas vidas que, através dela, descobriram e experimentaram o amor de Deus e para quem se abriram horizontes de esperança.

A luz divina que dela irradiou não se extingue, e a contemplação da sua vida e da sua imensa caridade levam-nos a glorificar o «Pai, que está nos céus», a louvá-lo e bendizê-lo, porque nela, criatura simples e humilde, o Senhor realizou grandes coisas, e lhe revelou os «mistérios do Reino».

 

3. Os santos são íntimos de Deus. Madre Maria Clara cultivou uma profunda intimidade com o Senhor, donde auria a força para enfrentar as dificuldades, abraçar o mistério da Cruz, irradiando paz e alegria, serenidade, esperança e otimismo, mesmo no meio das imensas dificuldades, perseguições e sofrimentos que atravessaram a sua vida.

Desta intimidade com Deus brotou aquele «ardor» de santidade que a levou a entregar-se sem reservas à «salvação das almas», a trabalhar afincada e generosamente na «vinha do Senhor», com «espírito de fé», procurando corresponder ao imenso amor de Deus que permeava a sua vida.

 

4. Deixemo-nos interpelar pelo seu testemunho de vida cristã e de santidade. Os santos são verdadeiros modelos de vida e excelentes companheiros de viagem. Madre Maria Clara pode sê-lo para cada um de nós. Procuremos conhecer a sua vida. Que ela nos inspire e ajude a fazer da nossa vida um dom ao Senhor, no serviço dos irmãos, particularmente aos mais pobres que, como nosso seu tempo, pululam nas nossas cidades, vilas e aldeias, clamando por um coração que os olhe, uma mão que se lhe estenda, um teto que os acolha.

 

5. Como Madre Maria Clara deixemo-nos atrair pelo amor de Deus que nos envolve, mesmo se não temos muita consciência disso; deixemo-nos atrair pela fascinação sobrenatural da santidade, colaborando com a Graça de Deus, colocando os dons recebidos ao serviço de Deus e dos irmãos, socorrendo-os nas suas necessidades.

Sejamos generosos para com Deus, como a Madre Maria Clara; deixemo-nos conduzir pelo Seu Espírito, para que Ele realiza em nós a obra do Seu amor, como realizou com Madre Maria Clara, a quem pedimos que interceda por nós junto de Deus.

 

Joaquim Mendes
Bispo Auxiliar de Lisboa

Homilia do núncio apostólico na missa de ação de graças pela beatificação de Madre Clara

5º Domingo da Páscoa – A 

Missa de ação de graças pela beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus

Sé Patriarcal de Lisboa, 22 de maio de 2011

 

1. É-me muito grato estar hoje nesta Sé Patriarcal de Lisboa a presidir à celebração desta Santa Missa de ação de graças pela beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus, fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.

Antes de mais nada, agradeço a Sua Eminência o Senhor Patriarca por me conceder este privilégio. Muito obrigado também ao Reverendíssimo Cónego Luís Pereira da Silva, Pároco da Sé, e aos seus colaboradores por me acolherem nesta Igreja Matriz do Patriarcado.

Saúdo a Madre Maria da Conceição Galvão Ribeiro, Superiora Geral das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, as suas Conselheiras e todas as suas Irmãs, agradecendo-lhes este convite que tanto me honra.  

 Saúdo fraternalmente os irmãos sacerdotes, as pessoas consagradas, os caros seminaristas, todos os fiéis leigos – as famílias, as crianças, os doentes e anciãos, de maneira especial os que, nos diferentes lugares, aqui em Portugal e noutros países, são atendidos pelas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras. A todos e a cada um transmito a proximidade, as saudações mais afetuosas e a Bênção Apostólica do Santo Padre o Papa Bento XVI.

Todos nós temos ainda nos olhos e no coração a alegria e a emoção do solene rito de ontem, em que o Santo Padre Bento XVI, com a Carta Apostólica lida pelo Cardeal Prefeito da Congregação das Causas dos Santos, acolhendo o pedido de Sua Eminência Dom José Policarpo, Patriarca de Lisboa, proclamou Beata a Irmã Maria Clara do Menino Jesus. E todos, cheios de júbilo, repetimos cantando: Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Hoje, com o mesmo júbilo, repetimos: Deo Gratias! – Graças a Deus! -, desejando que esta Eucaristia seja a expressão maior do amor que o nosso coração de filhos e filhas quer prestar ao Pai, pela graça que Ele acaba de conceder à Santa Igreja, à Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, a Portugal e ao mundo. Sim, estamos reunidos nesta Igreja Catedral para dar graças ao Pai das misericórdias pela glorificação dessa extraordinária figura de mulher e de cristã.

E, neste momento feliz, queremos fazer-nos eco daquele sentimento de júbilo, gratidão e encantamento que a contemplação da misericórdia divina despertava no coração da Beata Maria Clara e transbordava em suas palavras e gestos: «Como Deus é bom! Deus seja bendito!».

Eis o grito que hoje parte a cada instante dos nossos corações ao Céu!

 

2. A Palavra de Deus proclamada e proposta à nossa reflexão neste 5º Domingo da Páscoa desenha a comunidade cristã como: um corpo vivo que se organiza através do assumir, pelos seus membros, de diversas tarefas, tais como o serviço da caridade, da palavra e do culto (Primeira Leitura); um povo sacerdotal, cujos membros são pedras vivas do edifício eclesial, que tem como pedra angular Cristo ressuscitado (Segunda Leitura); um grupo unido que peregrina para Deus ao ritmo da história e sob a orientação de Cristo que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Evangelho).

A imagem ideal da primeira comunidade que Lucas nos descreve no Livro dos Atos dos Apóstolos é de um otimismo sublime: os crentes viviam unidos e tinham tudo em comum; todos pensavam e sentiam o mesmo; ninguém passava necessidades…

A caridade (caritas/agape), entendida como amor fraterno, dilatação do Amor que move a vida trinitária, é o cimento que une entre si todos os membros. E, para garantir que a expressão concreta desta “caritas” chegue a quem mais precisa da ajuda da comunidade, os Apóstolos instituem o ministério eclesial do diaconado, estreitamente associado ao próprio ministério apostólico.

Desde o início, esta corresponsabilidade no interior da comunidade eclesial tem a raiz na consciência de saber-se povo eleito e chamado por Deus a servi-l’O em santidade, como povo sacerdotal que O adora em espírito e verdade, sendo a oração, o anúncio da Palavra e a caridade expressões essenciais do seu ser. Os membros deste povo sacerdotal são “pedras vivas” do edifício da Igreja, que é o templo do Espírito e cuja pedra angular, de fundação e coesão, é Cristo ressuscitado.

Juntos, todos os batizados, cada um segundo o próprio lugar, a própria vocação e missão específica, participamos da missão profética, sacerdotal e pastoral de Cristo. Todos, sob a chefia de Cristo, que é o Caminho comum para o Pai, a Verdade que O revela e a Vida que nos mantém em comunhão com Ele, somos chamados à santidade. A santidade é a vocação que nos aproxima todos do Deus três vezes Santo e nos une como irmãos, companheiros de viagem encaminhados para a mesma meta: a comunhão no único Deus-Amor.

 

3. A Beata Maria Clara do Menino Jesus, santa da caridade, apresenta-se hoje à nossa veneração e consideração como membro exemplar da Igreja e testemunha luminosa do ideal cristão.

A Beata Maria Clara encontrou o seu lugar na Igreja fazendo da sua existência terrena uma vida apaixonada de amor pelos mais pobres e necessitados, vendo, servindo, amando em cada irmão pobre, doente, desamparado o mesmo Jesus. Assim tornou-se discípula e imitadora perfeita do Senhor que deu a própria vida pela humanidade.

Como Santa Teresa do Menino Jesus, a Beata Maria Clara, tendo compreendido que «a Igreja tem um coração, um coração ardente de amor», quis ser também ela “um coração ardente de amor”, porque também compreendeu que «só o Amor faz atuar os membros da Igreja… e que o Amor encerra em si todas as vocações, porque o Amor é tudo» (cf. João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 42). 

Em Nota Pastoral sobre a Beatificação da Irmã Maria Clara do Menino Jesus, os Bispos portugueses escrevem:

«O espírito que a animava… ficou bem manifesto num episódio da sua vida. Um dia, ao ver grupos de adultos e crianças a mendigar, vestidos de andrajos e sob um frio rigoroso, disse às meninas que a acompanhavam: “Olhem, aquela é que é a minha gente!… Que pena tenho de não os poder socorrer!…”».

Os mesmos Pastores observam: «A intervenção da Irmã Maria Clara em diferentes domínios da área social procedia duma motivação religiosa. O seu coração de mulher franciscana enchia-se de compaixão diante do sofrimento humano e procurava aliviá-lo com o vigor da sua fé. A sua atuação aparecia como “rosto da ternura e da misericórdia de Deus”. Deus ocupava o primeiro lugar na sua vida numa atitude filial de reconhecimento. “Oh! Como Deus é bom! Bendito seja Deus!”, exclamava ela como ressonância da festa que as Irmãs lhe fizeram no seu onomástico a 12 de agosto de 1899».

A Nota dos Bispos conclui: «Na segunda metade do século XIX, apesar das grandes dificuldades que o Catolicismo português enfrentava, a Irmã Maria Clara soube manifestá-lo do modo mais criativo e fecundo, com ardente amor a Jesus e generoso serviço dos pobres. Na segunda década do século XXI, face às dificuldades acrescidas de tantos concidadãos nossos, quanto à sobrevivência condigna e ao sentido mais profundo da vida, o exemplo e a intercessão da nova Beata ser-nos-ão de grande incentivo e apoio, na mesma senda da caridade verdadeira» (CEP, Fátima, 3 de maio de 2011).

 

4. A Beata Maria Clara do Menino Jesus encarnou na sua vida, totalmente entregue ao amor a Deus e ao próximo mais necessitado, o ideal do verdadeiro discípulo de Jesus, adorador do Pai e Bom Samaritano. São inspiradoras as palavras que ela escreveu às suas Irmãs poucos meses antes da morte:

«Que felicidade, minhas caras filhas, termos sido chamadas à sublime vocação de cooperar na salvação das almas, praticando as obras de misericórdia!

Para isto são necessários sacrifícios, é preciso trabalhar. Mas quem não trabalhará de bom grado na vinha do Senhor?».

E foi assim que, na sociedade portuguesa do séc. XIX, entre contrastes e desafios, luzes e sombras, pecado e graça, se agigantou esta figura de mulher que, tendo feito de Jesus o seu “Caminho, Verdade e Vida”, se tornou capaz de acolher o sofrimento com profunda reverência, “como vindo das mãos de Deus”, e de mergulhar, destemidamente, no mundo dos homens, para nele O servir na pessoa dos pobres, dos fracos, dos desvalidos. 

Como o seu Modelo divino, também ela aprendeu a obediência através do sofrimento e se entregou ao amor misericordioso que salva e redime, no perdão e na doação de si própria, ao serviço da humanidade sofredora que quis adotar como “a sua gente”, sua família predileta.

Nesta diaconia da caridade, assumiu a missão de colaborar na restauração da imagem de Deus em cada ser humano, esquecendo-se de si própria, fazendo- -se samaritana nas estradas do mundo, de tal modo e a tal ponto que se converteu no rosto visível da ternura e da misericórdia divinas.

Um tal exemplo tem de ser para nós, hoje, interpelação e provocação.

 

A Beata Maria Clara estimula-nos a “sermos generosos para com um Deus que tão generoso tem sido para connosco”, acolhendo sem temor os inúmeros desafios que o mundo de hoje nos apresenta.

Ela estimula cada um de nós a ver mais longe, a adentrar-se no mar da realidade humana, a ultrapassar-se no jogo do amor e da ternura, neste mundo cada vez mais fechado sobre si mesmo, dominado pelo ódio, pela violência, pela opressão e exploração dos mais fracos.

Ela convida-nos a edificar a nossa casa comum sobre os alicerces dos autênticos valores humanos e cristãos, devolvendo a primazia a Deus, fonte de toda a dignidade humana e da verdadeira fraternidade entre as pessoas, os povos e as nações.

A estrada, que o desafio nos aponta, é longa e muito absorvente, mas não temamos percorrê-la.

 

A intercessão da Beata Maria Clara do Menino Jesus, junto à da Virgem Santíssima, mãe, modelo e exemplo de todo o discípulo, alcançar-nos-á de Deus a graça da mesma fé e otimismo, da mesma perseverança no amor incondicional a Deus e a toda a humanidade.

Cantemos, pois, irmãos e irmãs, as misericórdias infinitas do Senhor!

Cantemo-las, desde já, não apenas com os lábios e com o fervor que esta hora em nós suscita, mas cantemo-las, sobretudo, com a vida, em nossos gestos, palavras e atitudes.

Tornemo-nos também nós, por graça e impulso divinos, sinais visíveis de Cristo misericordioso, realmente vivo e presente no meio do Seu povo. Ámen.

 

+Rino Passigato
Núncio Apostólico

 

Emissão 22-05-2011

Vida e obra de Madre Maria Clara do Menino Jesus. Os espaços da casa mãe da congregação que acolhe todos os que quiserem parar…

A ousadia missionária de Madre Clara

Lisboa, 21 mai 2011 (Ecclesia) – Na homilia da celebração de beatificação de Madre Clara, D. José Policarpo destacou a “ousadia missionária” e a “firmeza” mostrada perante “todas as dificuldades” da nova beata portuguesa.

Hoje, no estádio do Restelo (Lisboa) o álbum dos beatos ficou enriquecido com a inscrição de Madre Clara do Menino Jesus.

Numa celebração presidida por D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa, e que teve como presidente no rito de beatificação o representante de Bento XVI, cardeal Angelo Amato, D. José Policarpo frisou que “não desistir é apanágio dos santos”.

Subordinada ao tema «A Santidade é a identidade do cristão», o Cardeal-Patriarca de Lisboa referiu na homilia que a fundadora da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras do Imaculado Coração (CONFHIC) foi de uma “ousadia notável” e “não copiou nenhuma já existente”, pois “queria responder ao momento que então se vivia”.

Nascida e batizada em Lisboa, Madre Maria Clara do Menino Jesus nasceu num “tempo singular e sentiu os desafios de ser cristã e de ser Igreja, numa sociedade cultural e politicamente a afastar-se do ideal cristão” – proferiu o celebrante.

“As crises sociais e as epidemias da peste indicaram-lhe os pobres como destinatários do seu amor”, no entanto, a beata portuguesa percebeu que “a mulher que quer ser santa é chamada a ser uma explosão do amor de Deus, aquele amor que transforma o mundo”- acrescentou.

A recente beata, Libânia do Carmo Galvão Mexia de Moura Telles e Albuquerque, nasceu na Amadora, em Lisboa, a 15 de junho de 1843, e recebeu o hábito de Capuchinha, em 1869, escolhendo o nome de Irmã Maria Clara do Menino Jesus.

A religiosa foi enviada a Calais, França, a 10 de fevereiro de 1870, para fazer o noviciado, na intenção de fundar, depois, em Portugal, uma nova Congregação, pelo que abriu a primeira comunidade da CONFHIC em S. Patrício – Lisboa, no dia 3 de maio de 1871 e, cinco anos depois, a 27 de março de 1876, a Congregação é aprovada pela Santa Sé.

A «mãe Clara», como é popularmente conhecida, morreu em Lisboa, no dia 1 de dezembro de 1899, e o seu processo de canonização viria a iniciar-se em 1995.

LFS

 

Homilia de D. José Policarpo na beatificação da Madre Maria Clara do Menino Jesus

«A Santidade é a identidade do cristão»

1. Reunimo-nos hoje, aqui, para celebrarmos a proclamação da santidade de uma cristã, nascida e baptizada na nossa cidade de Lisboa, a Madre Maria Clara do Menino Jesus. Esta proclamação, feita com a autoridade apostólica de Sua Santidade Bento XVI, aqui representado por Sua Eminência o Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, lembra a todos os cristãos da Igreja de Lisboa, de modo particular às Irmãs da Congregação que fundou, que a santidade é a meta da vocação cristã; ela exprime a identidade profunda do cristão.

Esta proclamação garante-nos, com a autoridade apostólica da Igreja, que Madre Maria Clara, no termo da sua peregrinação terrena, ouviu de Cristo, a porta de todo o caminho de santidade, aquele convite que o próprio Jesus anunciou: “Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo” (Mt. 25,34).

2. A santidade é uma experiência humana que só Deus conhece. Na oração eucarística, a Igreja repete continuamente: “Vós, Senhor, sois verdadeiramente Santo, sois a fonte de toda a santidade”. Ser Santo é viver a vida numa progressiva identificação com Cristo que nos introduz no mistério do amor trinitário. Só mergulhando nesse mistério insondável do amor divino, se pode viver santamente a vida. Esse mergulhar no mistério de Deus, transforma toda a nossa vida. É por isso que Deus Pai, depois de nos unirmos ao seu Filho Jesus Cristo, no baptismo, nos comunica o dom do Espírito Santo. Receber o Espírito Santo é aceitar e desejar que a voragem do amor divino transforme toda a nossa vida. Se Cristo é a porta da santidade, o Espírito Santo é a força que a realiza. Ser Santo é deixar que toda a nossa vida seja obra do Espírito Santo.

A santidade de um cristão é uma realidade tão densa como o mistério de Deus. Só Deus conhece como ela se exprimiu em cada um. O que foi a vida de santidade desta cristã, só Deus o conhece. Como o amor de Deus a envolveu e se transformou em força para amar. Os momentos mais fortes viveu-os, certamente, no silêncio da sua adoração e é, também, no silêncio adorante, que acolhemos o dom desta vida santa, fecunda para toda a Igreja, porque no amor de um santo exprime-se a fecundidade de amor com que Deus continua a amar o mundo, no seu Filho Jesus Cristo.

3. Mas se a santidade de um cristão é um segredo que só Deus conhece, ela é sempre, na Igreja, um sinal do Reino de Deus, do Povo do Senhor, que Ele santifica com o seu amor. A santidade de cada cristão edifica a Igreja, contribui para que ela seja a “Santa Igreja de Deus”. A maneira como um santo vive é sempre uma interpelação à fidelidade e à santidade. Como Jesus disse aos discípulos, “pelos frutos se conhece a árvore”. Um Santo é, pela sua vida, um testemunho de que o Reino de Deus é possível. A santidade de um cristão chega até nós através do seu testemunho de vida, que nos abre para o mistério da santidade vivida no silêncio de Deus.

Não há dois santos iguais. Sendo uma resposta pessoal a um apelo contínuo do amor, envolve a história pessoal de cada um, os dons pessoais com que foi criado, a sua resposta aos apelos concretos das circunstâncias, do tempo e da história. Um Santo exprime sempre a actualidade do amor de Deus na história dos homens e nas circunstâncias concretas de cada tempo. Como diz São Paulo, são muitos e variados os dons, um só é o Espírito que os unifica a todos na construção do Reino de Deus.

Nesta variedade da santidade pessoal há coordenadas comuns que levam todos os caminhos humanos de fidelidade a cruzarem-se em Cristo, o primeiro Homem a viver plenamente a santidade de Deus. Todos os caminhos de santidade supõem sempre um seguimento de Cristo, a identificação com Ele, a imitação de Cristo. “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus” (Fil. 2,5), foi o desafio de Paulo aos Filipenses. E só na intimidade com Ele, que nos oferece em cada Eucaristia, podemos penetrar no insondável desses sentimentos. Ele que, sendo Deus, se humilhou à condição de servo, para fazer dos escravos, filhos.

A verdade da sua relação filial com o Pai inspira todos os seus sentimentos durante a sua missão humana. A sua fidelidade à missão exige que a sua vontade humana se conforme sempre à vontade do Pai; sem deixarem de ser duas vontades, exprimem-se como se fosse uma só. E essa vontade tem um objectivo, o de que todos os homens se salvem. A vida torna-se, inevitavelmente, um dom pelos outros.

Um outro sentimento de Jesus é a sua predilecção pelos pobres e aflitos, com os quais se identifica. O Santo é chamado a amar os pobres e aflitos como se fossem o próprio Cristo. Essa atitude, vitória sobre todos os egoísmos, triunfo da gratuidade do amor, guardada no silêncio de Deus, tornar-se-á explícita no juízo final: “Em verdade vos digo, o que fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes” (Mt. 25, 45). O Santo torna-se, assim, no concreto da vida das pessoas, “o rosto da ternura e da misericórdia de Deus”.

4. Acabo de usar a expressão com que a actual Superiora Geral das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras, definiu Madre Clara: ela fez sentir a ternura de Deus. Libânia do Carmo, que tomou em religião o nome de Clara do Menino Jesus, nasceu num tempo singular e sentiu os desafios de ser cristã e de ser Igreja, numa sociedade cultural e politicamente a afastar-se do ideal cristão. As crises sociais e as epidemias da peste indicaram-lhe os pobres como destinatários do seu amor. Mas não esqueçamos a sua ousadia missionária e a sua firmeza, mostrada perante todas as dificuldades com que se foi deparando. E as que encontrou no seio da sua própria família religiosa não foram, certamente, as mais fáceis. Mas não desistir é apanágio dos santos.

Fundou uma Congregação Religiosa. Na segunda metade do séc. XIX, em Portugal, foi ousadia notável. Não copiou nenhuma já existente, pois queria responder ao momento que então se vivia. Percebeu que a mulher que quer ser santa é chamada a ser uma explosão do amor de Deus, aquele amor que transforma o mundo.

Às Irmãs da Congregação que fundou, ela lança um desafio: sejam hoje o que a circunstância concreta do sofrimento humano exige de vós. E a todas as nossas jovens, que pertenceis à mesma Igreja de Madre Clara, ela lança um desafio: se quereis ser santas, deixai que a vossa vida seja uma explosão do amor de Deus. Respondei aos desafios do momento presente; transformai as formas antigas, inventai formas novas, se for preciso. Escutai a voz do amor, o que o mesmo é dizer, escutai Jesus Cristo, deixai-vos transformar pelo Espírito Santo e digamos com esperança: bem-aventurada Madre Clara, intercedei por nós.

D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa
Estádio do Restelo, 21 de Maio de 2011

 

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