Paulo Rocha, Agência Ecclesia

Perdão, dignidade e esperança. Três palavras que guiam os passos do Papa Francisco num programa de encontros, celebrações e gestos durante os três dias da visita ao Chile, em três regiões do país. Em qualquer dos momentos, a determinação do Papa foi a mesma: convocar todos, as várias culturas e os diferentes valores de um povo para a construção de um amanhã reconciliado. E sempre nessas três etapas: a partir do perdão, não abdicando da dignidade e num horizonte marcado pela esperança. Assim aconteceu quando se referiu aos casos de abusos sexuais por parte de membros do clero, no encontro com quem está preso, aproximando-se de povos e culturas indígenas, nos protagonismo dado aos jovens do país e sempre que colocou na sua voz os “gritos dos pobres” que esperam justiça. Ontem como hoje!

Os casos de abusos sexuais por parte de membros do clero é uma ferida aberta na Igreja Católica, nomeadamente no Chile. O Papa disse-o. Assumiu-o! E tratou de indicar como ultrapassar um drama pelo qual sente “vergonha”, pede perdão e deseja ver resolvido. Após incluir o tema no primeiro discurso em terra chilena, foi no encontro o clero e consagrados que se deteve no assunto para apontar soluções: “peçamos a Deus que nos dê a lucidez de chamar a realidade pelo seu nome, a valentia de pedir perdão e a capacidade e aprender a escutar o que Ele nos está a dizer e não a permanecer na desolação”.

Perdão, dignidade, esperança…

Vale apena revisitar o discurso a 500 reclusas, os momentos de improviso do Papa, as referências ao tango argentino e a citação bíblica que se transformou em sentença popular, rapidamente dita em coro quando o Francisco começou a enunciar o seu enunciado: “Quem não tem pecado… que atire a primeira pedra!”.

Na prisão de Santiago, o Papa falou também da necessidade de pedir perdão, num primeiro momento. Ma foi aí que elevou mais alto a sua voz contra quem atenta contra a dignidade de mulheres e homens: “Estar privado da liberdade não é o mesmo que estar privado da dignidade. A dignidade não se toca, por nada. Cuida-se, protege-se, acaricia-se”. Depois, indicou a esperança, como nas várias ocasiões e circunstâncias, para insistir na reinserção de todas as mulheres que tinha diante de si. “Exijam isso a vós mesmas e à sociedade”.

Os passos do Papa, na permanente proximidade aos povos e culturas indígenas, mantiveram essa mensagem, num horizonte mais largo: tecer a unidade no país. Não com o acentuar distâncias entre ricos e pobres, povos autóctones e novos senhorios comerciais, culturas nativas e as que chegam de fora, tradições étnicas e instituições globais que se instalam na região. A harmonia acontece quando “cada parte souber partilhar a sua sabedoria com as outras”.

Em cada viagem do Papa, há sempre gestos, palavras, mensagens que a deixam na história. A que realizou ao Chile, a primeira etapa da quarta visita do Papa à América Latina,  tem no casamento que fez abordo do avião um episódio que vai permanecer na memória de todo o mundo; e, para os chilenos e povos da região, não vão desaparecer facilmente da memória as palavras do Papa sobre os casos de abuso sexual no país por parte de membros do clero. Mas a presença de Francisco é muito mais do que isso. E mesmo que as referências imediatas a um programa de três dias no Chile remetam para casos particulares, as três mensagens essenciais – o perdão, a dignidade e a esperança – provocam transformações de fundo, com consequências imediatas e sobretudo com manifestações mais distantes no tempo. E são essas as que vão permanecer na história. Do Papa, dos chilenos e de quem segue os seus passos.

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