A ordenação episcopal de D. António Luciano decorre este domingo, na Sé da Guarda. Em entrevista à Agência ECCLESIA, o novo bispo de Viseu percorre os momentos principais da sua biografia, desde a enfermagem à pastoral paroquial, refere-se ao estado da saúde em Portugal, ao debate político sobre a vida e aos novos desafios como líder de uma Igreja diocesana, que quer viver «acolhendo todos»

(Entrevista conduzida por Paulo Rocha)

Agência Ecclesia (AE) – O que fez um enfermeiro querer ser padre?

D. António Luciano – Fiz o meu percurso normal, como criança, com sonhos e ideais. Cresci numa família cristã, num ambiente cristão. Lembro-me que um dia foi um padre missionário à minha escola primária – e a minha professora primária ainda há dias me dizia isso – os outros afastaram-se do padre, mas eu agarrei-me à batina.

O percurso fez-se, continuei os meus estudos.

AE – Mas a primeira opção foi enfermagem?

DAL – Foi, talvez por influência de uma pessoa amiga da terra que era enfermeira. Fui para Coimbra onde fiz a formação em enfermagem e onde trabalhei nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC).

AE – Pelo meio fez o serviço militar em Moçambique?

DAL – Sim. Depois de ter estado nos HUC a trabalhar, fiz o curso de enfermagem militar. Estive em Leiria, nas Caldas da Rainha, estive em Lisboa, na Estrela, onde fiz o curso militar, e fui para o Hospital Militar de Coimbra. Depois fui mobilizado para Moçambique, já depois da revolução, onde estive de agosto a abril do ano seguinte. Passei por Quelimane e pelo hospital de Nampula.

AE – Era o tempo de pós revolução. Acompanhou o processo de instalação da democracia e da desinstalação das forças portuguesas?

DAL – Quando estava nas Caldas da Rainha começaram a surgir rumores de alguma mudança. Quando se deu o 25 de abril eu estava em Coimbra, no Hospital Militar, no almoço, quando se deu a notícia da evolução. Naquele dia correu tudo normal embora com uma expetativa do que viria a seguir.

AE – Nos tempos da enfermagem, era conhecido pelo enfermeiro Lucianito. Porquê?

DAL – Alguns chamavam-me assim porque eu era o mais novo do meu curso e do grupo. Trabalhei sempre no bloco operatório, com exceção de uns meses depois do serviço militar ajudei a abrir um serviço de neurotraumatologia. Era o mais novo, era um rapazinho elegante. Para eles era o Lucianito.

AE – Que atenção e proximidade colocava nos cuidados de saúde?

DAL – Tive sempre muito contato com as pessoas simples, humildes, pobres, doentes. Gestos que já vinham da família. Em casa dos meus pais e avós, muita gente ia ajudar no serviço. Eles tinham comércio e lavoura, iam pessoas gratuitamente que ajudavam e ali tomavam a refeição. Sempre me habituei a estar com os mais necessitados e pobres. Os meus pais deram-me essa lição.

Quando fui para enfermagem, com o ideal cristão, porque integrei-me como aluno na associação dos enfermeiros católicos, aquele espírito evangélico e cristão que levava procurei transpô-lo, sem falar e dar nas vistas, mas procurei transpô-lo: o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos, é a mim que fazeis.

E isso sempre me orientou. Lembro-me muito de uma frase no encerramento do curso de D. Alberto Cosme do Amaral, na altura era bispo auxiliar de Coimbra, dizia que «quem trabalha no bloco operatório, é como quem trabalha num sacrário». Eu fui, depois, trabalhar para o bloco operatório. Nunca mais me esqueci destas palavras.

AE – Pelo serviço e atenção à pessoa em concreto?

DAL – Pela atenção à pessoa doente e aos médicos. Um bloco operatório é um lugar de muita responsabilidade, onde a vida entra e pode não sair. É preciso tudo estar bem preparado, tanto da parte médica como da enfermagem, técnica e do pessoal de apoio. Houve sempre uma cooperação muito grande, um espirito de família, que eu devo a uma chefe enfermeira que tivemos, que comandava muitos profissionais e era um ambiente muito familiar.

AE – Sentia essa tensão das vidas que entravam no bloco operatório e podiam não sair? Era motivo de preocupação?

DAL – Principalmente quando eram grandes sinistrados, em urgências, sentíamos isso. Ou numa intervenção que sabíamos ser de risco. Os médicos sabiam. Havia ali uma atenção redobrada e, interiormente, penso eu, muitos pediriam a Deus que os ajudasse naquele trabalho tão importante da cirurgia e da medicina.

AE – Foram cinco ou seis anos na cirurgia?

DAL – Foram mais: com um ano que pedi para ter licença sem vencimento, foram quase 10 anos. Mas ainda durante o tempo de seminário, trabalhei em Lisboa, no Hospital de São Francisco, perto da Assembleia da República, também no Hospital da Nazaré, onde estavam as irmãs de São José de Cluny,  onde ia durante as férias de verão, fazer um pouco de praia e ajudava. Também na Clínica de Santa Filomena, em Coimbra. E em outros lugares em África, como militar. Mas essencialmente nos HUC. O resto foi a trabalhar no campo da saúde mas na via do ensino.

 

O estado da saúde em Portugal

AE – E já lá vamos a esse momento da sua vida, até porque tem também o estudo da moral, da ética e bioética. Gostava de lhe pedir um comentário ao momento atual que a área da saúde enfrenta, nomeadamente algumas tensões entre a classe dos enfermeiros e o Ministério da Saúde?

DAL – Eu todos os dias estou no hospital. Apercebo-me dessa tensão. É um momento de reviravolta também histórica na relação Ministério/profissionais. Mas antes de mais tem de se olhar para a pessoa humana e para cuidados que se têm de dar com qualidade. Posso dizer, oxalá que nunca aconteça que nós não demos ao doente o que devemos dar por falta de recursos económicos.

AE – É o que está na causa dos conflitos que existem?

DAL – A reivindicação de alguns quererem um pouco mais do que é o seu vencimento. Penso que a harmonia, e acredito no equilíbrio do Ministério e dos grupos profissionais, hão de encontrar o melhor para a saúde. A saúde é um bem integral, dizia São João Paulo II, temos de a promover mesmo quem não tenha fé. A Organização Mundial de Saúde quer que a saúde seja para todos e é uma conquista que se fez com a nossa revolução de abril.

AE – Como acompanha a discussão, ainda preliminar, da nova Lei de Bases da Saúde?

DAL – Não me tenho debruçado sobre o tema. Estou envolvido noutros assuntos, em vias da ordenação episcopal. Mas procuro auscultar ouvir médicos, enfermeiros e administradores e ver o que se pode fazer. Penso que é preciso muita atenção e prudência. Não podemos queimar etapas, mas saber respeitar para colher bons frutos.

AE – Um dos pontos de partida, da Lei de Bases da saúde, é voltar ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) das origens, ou seja, gratuito, prestado por entidades públicas e assente na carreira dos médicos.

DAL – Isso foi um bem, seria bom se realmente se fizesse isso. Mas eu, desde muito novo, aprendi uma coisa: todos os ministérios podem dar prejuízos mas o da saúde e da educação são sempre ministérios que dão prejuízo porque investem no que é o maior bem das pessoas. Os recursos podem não ser os suficientes mas há que correr riscos! Se tivermos a saúde e as respostas gratuitas para todos, melhor. Mas compreendo que, em nome da justiça, quem possa pagar deverá ajudar os que são os mais necessitados.

Eu próprio gosto de ir ao médico e pagar o que devo pagar. E fico contente. Digo noutras instituições que prefiro pagar toda a vida para esta ou para aquela instituição e nunca vir a precisar dela. Estou a contribuir para os outros. É a justiça social que é importante para além da justiça evangélica que procuro viver.

AE – Acredita num SNS que conte com a iniciativa privada e social?

DAL – Penso que é saudável, ajuda-nos a equilibrar. Desafia-nos e, no confronto, vemos de onde vêm as melhores respostas. Se no SNS vierem as melhores respostas, ótimo. Mas se vierem do privado, temos de as saber aproveitar e valorizar. Quem tiver oportunidade económica, que se sirva delas, porque o bem maior é a saúde.

 

“Devemos mostrar que queremos vida para todos”

AE – Como acompanhou o debate em torno da possível legalização da eutanásia?

DAL – Com muita expetativa. Participei num dos colóquios, o inter-religioso, em que houve representação de um médico judaico, um representante islâmico, também da associação das Igrejas evangélicas. Eu estive em nome da Igreja católica. Foi muito positivo. Acompanhei outros debates, tive pena de não ir a todos, e estive na conclusão, em Lisboa, presidida pelo Presidente da República, que gostei muito das conferências, principalmente dos peritos internacionais nos chamaram a atenção para o facto de que antes de decidir é preciso prudência e cuidado.

Lembro-me de Diego Graz, espanhol, que terminou essa conferência e ele dizia ser necessária muita cautela, estudar, falar e levar o debate às pessoas para que sintam a responsabilidade como sua e depois virá o resto.

AE – Não chegou a temer que algum dos projetos apresentados pudesse passar no Parlamento?

DAL- Para lhe ser franco, tinha uma vaga ideia de que não. Mas houve um período de tempo que temi e as pessoas à minha volta diziam: «O Senhor está a temer, mas olhe que não».

De modo particular, eu via que muitas pessoas não estavam devidamente informadas sobre um tema crucial que é o respeito pela vida humana, desde o momento conceção ou união celular até à morte natural.

Da parte dos políticos houve uma fação que me surpreendeu ao afirmar ser promotor e defensor da vida.

AE – O Partido Comunista?

DAL – Sim. O cardeal D. António Marto, numa das suas entrevistas, já veio referiu isso e eu fiquei muito satisfeito.

No contacto que tenho com muitos enfermeiros que dizem ser comunistas, eu via-os muito nessa linha. Surpreendeu-me, o que se calhar, não acontecerá com muitos que se dizem cristãos.

AE – A tal defesa da vida do início ao fim…

DAL – A saúde e as respostas do Governo deve seguir e linha de prestação de cuidados continuados e paliativos com qualidade. Eu sei que isto gasta dinheiro e envolve mais pessoal, mas isto é dignificante do ser humano, do seu valor e da sua presença no mundo. Se estamos numa sociedade que está a perder natalidade e onde o envelhecimento é global, devemos mostrar que queremos vida para todos. E se queremos, temos de lhe dar qualidade.

AE – Podemos é esbarrar com o problema económico.

DAL – Tive um professor na Faculdade de Medicina, em Lisboa, o professor João Ribeiro Silva que dizia: em nome dos dólares pode-se estragar muita coisa do que é a vida das pessoas e alterar o que são os princípios éticos. E os princípios éticos aqui são fundamentais para uma boa harmonia e respeito pela pessoa, pela dignidade e pelo respeito das diferenças na tolerância. Esse é que é o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Nós temos de saber levar às pessoas de uma outra forma e de uma outra naturalidade.

O Papa Francisco fala na proximidade e ainda há dias comentava que a primeira periferia sou eu, tem de começar por mim. Se não me entender como periferia não vou às dos outros.

AE – Teme que estas questões de início e fim de vida sejam definidas mais por oportunismos políticos do que por aquilo que está em causa, a defesa da vida? Já se diz acerca da eutanásia que voltará o debate… Porque é que a classe política lança estas questões para o debate público?

DAL – São questões complexas. Mas é ir ao terreno, onde estão as pessoas e ver as suas necessidades e melhorá-las. O que exige mais esforço! Por vezes, em nome da ideologia, pegam-se em assuntos que são importantes para o debate, mas outros são mais relevantes para as pessoas viveram com dignidade: Será que o saneamento público existe hoje em todos os lugares? Ou água potável? Isso é fundamental. O resto há de vir, mas preparando as pessoas e educando-as.

Temos um deficit de educação para a cidadania o que traz um deficit de educação para a fé e dificuldades quando temos de decidir. As decisões são, neste caso, de consciência, e hoje falta-nos uma formação séria para a consciência humana e, depois, para uma consciência iluminada pelo Evangelho, pela Boa Nova de Jesus Cristo.

Este sinal hoje de estarmos a trabalhar para destruir a vida é muito negativo e terrível na nossa sociedade quando temos outros sinais positivos que nos devem animar e entusiasmar.

AE – O estudo da ética e bioética foi um grande contributo para dar novos horizontes a esse debate?

DAL – Desde novo, na enfermagem, ainda aluno, onde tive a sorte de me integrar num bom grupo. Na escola tive bons mestres e bons professoras e um bom diretor de escola que nos ensinava, antes de mais, a ser pessoas, homens e mulheres, mas também com postura. Ainda hoje não consigo, já usei a barba grande, mas não consigo… era a barba cortada e as unhas cortadas porque era o cuidado para estarmos juntos dos outros.

Se tivesse de refazer o percurso, fazia o mesmo que fiz, passando pela enfermagem. Foi uma grande escola. Todos os dias rezo por eles que me ensinaram a ser pessoa e a olhar para a pessoa com a dignidade e respeito que ela merece e a entregar-me a ela neste projeto.

Foi isso que fiz ao longo da vida. O estudo da ética e bioética vieram iluminar-me mas foi desde a escola de enfermagem e em Roma, sem dúvida, e sendo professor destas matérias.

AE – Tanto na teologia como na saúde.

DAL – Sim, fui professor da Escola de Enfermagem e Saúde, a partir de outubro de 1989 até 2011, quando começou a crise (era contratado e ficaram os que lá estavam). Mas continuei na Universidade Católica Portuguesa, em Viseu, em cursos de gestão, de serviço social, de arquitetura e medicina dentária e na Universidade da Beira Interior, como capelão. Integrei o grupo de trabalho de Ética e História das Ideias em Medicina, desde a fundação da Faculdade até ao ano passado.

AE – Sempre ligado ao ensino. Será uma paixão a educação?

DAL – Sou um padre diocesano com sapatos franciscanos e com um coração dominicano. Os meus colegas diziam que eu falava demais mas eu respondia que tinha vocação para pregador, não sei se por ser António.

AE – Que espaço é dado à ética nos alunos que procuram o conhecimento técnico para o exercício de uma profissão?

DAL – É uma boa pergunta. Tenho recebido emails e mensagens, telefonemas, de alunos meus, quer de enfermagem ou da medicina, ou outros que acompanhei enquanto capelão da Universidade da Beira Interior, onde contactei com muitos jovens. Aqui no Instituto Politécnico da Guarda, onde fui capelão, fiquei impressionado com uma jovem que aqui tinha feito o curso, pertencia à Associação Académica e enviou-me uma mensagem interessante onde dizia que tinha aprendido comigo, durante as horas que passamos juntos, quando preparavamos a bênção das pastas.

Há dias um jovem engenheiro que fez o curso na Covilhã, procurou-me em Viseu, pensando que eu já lá estava. Queria falar comigo. Acolhi-o no seminário, era quase 23h, a ele e ao pai. No dia seguinte voltou a visitar-me dizendo que eu o tinha marcado desde o início da Universidade. Eu ia a jantares com eles. Dizia-me o antigo reitor: «Ó padre Luciano, o senhor não é muito de beber, mas meta-se no meio deles e, se de vez em quando lhe oferecerem um copo, beba à vontade». E eu lá ia controlando.

Portanto, encontrei sempre a preocupação pela ética. Não é só entre aqueles a quem tinha de se dar, médicos e enfermeiros. Alguns podiam até não ligar e eu dizia, «agora pode ser menos importante mas um dia vão lembrar-se o que disse o padre Luciano porque isto vai aparecer-te na vida e tens de saber responder de imediato».

AE – Na proximidade com alunos e com a comunidade académica, houve o trabalho institucional na criação da capelania na Universidade da Beira Interior?

DAL – A capelania já vinha a germinar desde dois sacerdotes, um era professor de Sociologia de Bragança, professor Videira Pires, muito amigo do reitor de então, o professor Passos Morgado, e o cónego Geraldes, do jornal Notícias da Covilhã. Eles fizeram este trabalho. Mas a nomeação oficial para integrar os estatutos da Universidade foi comigo. Foi muito trabalhada com o professor Passos Morgado, de quem sou muito amigo, mas foi depois com o professor Santos Silva, com quem eu estive e continuei.

Como era capelão, quando a Universidade da Beira Interior teve o mérito de acolher a Faculdade de Ciências da Saúde, como estava integrado, com o padre José Manuel Pereira de Almeida, o Dr. Silvério e Dr. Jorge, médicos no IPO de Lisboa, tinham um trabalho entre Ética e Filosofia, fui convidado para este trabalho e lecionei parte de Ética e Bioética e História das Ideias em Medicina.

Esta Universidade apostou numa metodologia diferente assente numa aprendizagem baseada no aluno.

 

Pároco de oito paróquias até à ordenação episcopal

AE – Do seu trabalho como sacerdote na diocese da Guarda, está essa proximidade ao mundo académico, a diferentes capelanias e a muitas paróquias. Atualmente ainda é pároco de oito.

DAL – Eu dizia que era um saltimbanco.

AE – Como foi arranjando tempo para isso tudo?

DAL – Acredito firmemente que foi a graça de Deus e também a minha disponibilidade. Quando fui ordenado diácono, a 8 de dezembro de 1984, aqui na Sé, escolhi para o lema, era do Papa João Paulo II e fui-lhe buscar um decalcamento do seu “Totus Tuus”, que foi de São Luís Maria Monforte, que era entregar-me todo a Deus pelas mãos de Maria. E procurei viver isto e estou a viver isto.

Quando fui padre escolhi esta frase, que um dia trabalhei, e fui trabalhando e rezando ao longo da vida, que diz: «Quero ser padre como Deus o pensou à maneira de Jesus Cristo e segundo as orientações da Igreja». Isto trouxe-me sempre muitas alegrias, mas também cruzes. Não há vida sem cruz. Muitas vezes tive de morrer para os meus gostos para a Igreja ser Igreja.

AE – Teria feito alguma coisa de diferente? Mesmo alguma decisão de fundo?

DAL – As opções de fundo estão dentro deste contexto, mas às vezes poderíamos ter feito mais desta ou daquela forma para ser mais favorável para as pessoas, mas nada de grave.

Fui sempre muito colaborador senhor D. António dos Santos. Vim para a Guarda quando ele fez um ano de entrada na diocese, no dia 2 de fevereiro. Ele dizia que foi a primeira prenda que recebeu. Já o conhecia.

AE – Veio enquanto seminarista. Estava em Coimbra.

DAL – Fiz em Coimbra, como externo, o primeiro semestre e vim para qui fazer o segundo semestre, onde terminei o curso de Teologia. Integrei a vida da diocese, era a minha diocese de origem, que eu amava muito, com muita facilidade.

Fui ordenado padre, convidou-me para ser diretor espiritual do seminário dos mais novos. Havia um diretor espiritual para os mais novos e outro para os mais velhos. Já pode imaginar o que havia de gente naquela altura. Hoje está vazia. Temos alguns em Braga, mas são poucos.

Havia o reitor do seminário, o vigário geral, que tinha deixado a reitoria. Ele teve um acidente com a mãe, a caminho de Pinhel e morreu, após a Páscoa. Passado uns dias o senhor D. António chamou-me ao Paço para falar-me. Achei que era para me dar mais trabalho, porque me tinha dado as vocações e o pré-seminário. E disse-me: «Ficas a rezar em silêncio, mas tu em setembro, outubro, vais para Roma estudar Teologia Moral». Perguntei porquê eu… As minhas notas eram boas, mas tinha a enfermagem. Acabei por concordar.

Fui com outro colega, o padre Martins. Pediu-me para ir treinando o italiano com ele e fui para Roma.

Cheguei a Roma e fui muito bem acolhido. Era reitor no Colégio Português, o atual bispo de Vila Real, o D. Amândio Tomás. Fiz o biénio em Teologia Moral, na academia Afonsiana, com muita alegria. Aproveitei todos os cursos e conferências que podia fazer porque em Roma havia muita coisa. Frequentei um curso de Mariologia, onde tirei uma das fotos pela qual tenho muita estima, com São João Paulo II, porque ele foi lá no ano mariano e recebeu cada um dos alunos marianos a quem deu uma palavra. A foto está guardada na minha sala de estar.

Aproveitei em Roma tudo o que pude. Recordo do D. António uma coisa: «Quando chegares a Roma, vai junto do túmulo dos apóstolos Pedro e Paulo, para fazer a profissão de fé, e lembra-te de mim». Quando vou a Roma faço isso. Estive lá no ano sacerdotal e no retiro com o Papa e gostei muito. Fomos quatro padres da diocese.. E agora irei proximamente porque assim me é pedido.

Encontrei muitos amigos, não só os portugueses que tenho no coração. Conheci grandes bispos através de colegas na Universidade. Foi para mim um gosto.

AE – Fez a tese com o título «Ser livre em Cristo, Projeto responsável do homem». A dimensão da moral pode ser a mais esquecida no quotidiano da vida da Igreja?

DAL – Neste período dos últimos 20 anos, não digo que se tenha esquecido, mas não se deu o valor que se devia. Ouvi muitas vezes dizer que a pregação não deve ser com moralismos e procuro não o fazer, não concordo.

Não há uma vida séria que seja cristã se não tiver uma boa base moral. Digo isto em duas palavras, Paulo VI disse-o em Fátima, «Homem sede Homens».

AE – Mas tudo assenta na capacidade, nas competências dadas a cada pessoa, de decidir?

DAL – Claro e aí temos um trabalho muito importante a fazer, na formação da consciência. Este ser livre em Cristo… Sou livre na medida em que me sentir Homem livre. Mas criativo, responsável, coerente, transparente, mesmo dentro da Igreja. Dizia isto aos padres: «o que disseres agora ao Sr Bispo, di-lo depois também. Isso facilita-te a vida».

Aprendi duas palavras no serviço militar, na Estrela: «o boateiro é o teu pior inimigo» e «mulher honrada não tem ouvidos».

A vida moral e a vida espiritual devem produzir o fruto da caridade para a vida do mundo.

AE – Colocando em dois pratos da balança a norma e a moral, como vê a relevância que cada uma destas dimensões tem?

DAL – Respondo com uma palavra: amor. São João Paulo II dizia santidade igual a amor. É isto que falta no mundo. Eu respeito o amor que é só humano e o nosso papa emérito Bento XVI fala muito nisso na carta encíclica «Deus é Amor». Mas, para um crente, o amor é isso. A parte moral não se vê mas está lá.

AE – É isso que permite a transparência, coerência, como falou. E nesse caso não precisa de norma?

DAL – A norma é aceitar o projeto de Deus em nós. «Projeto responsável do homem», o título que coloquei na tese de licenciatura.

AE – Essa é a revolução de fundo que o Papa Francisco está a fazer?

DAL – Penso que sim. Que está e quer fazer e nós queremos colaborar para que ele faça. Quando digo queremos, a Igreja, que tem a primeira responsabilidade, mas o mundo, porque o nosso Papa é humanista, fala para todas as pessoas, não faz aceção de pessoas. E nós só teremos o tal mundo novo se vivermos isto. Por isso poderíamos viver mais em paz com alegria, disponibilidade e satisfação interior, sem problemas em chegar ao final do dia para fazer um exame de consciência.

 

Família: amor e tolerância

AE – Essa revolução em curso, digamos assim, tem consequências práticas. Por exemplo, no âmbito da família. Na sua opinião, este processo de receção da exortação apostólica «Amoris Laetitia» está a acontecer da melhor forma, nomeadamente em Portugal, com dioceses a terem de concretizar a sua aplicação e princípios que o Papa apresenta de forma autónoma?

DAL – O Papa apresenta com autoridade e autonomia todos os princípios que são fundamentais e gerais. Para serem melhor percebidos, mesmo por padres, eu acho bem.

Há dias lia o que o senhor bispo D. Antonino, sou muito amigo dele, escreveu. Ele que trabalhou na família e no laicado, e esteve no Sínodo. Estas coisas práticas têm de se fazer. Os bispos da região centro também o fizeram. Agora precisamos de descodificar, mas com muito respeito, com muito amor, com muita humildade e simplicidade, e muita tolerância. A família é a célula base da sociedade.

Estamos numa cidade onde o monsenhor Joaquim Alves Braz tem um processo de beatificação a decorrer. Fundou a obra de Santa Zita, fundou as Cooperadoras da Família, tem um monumento na cidade, uma fonte, onde se diz que a família é a fonte essencial da sociedade.

Temos de respeitar a diversidade, os tempos de pós-modernidade, levam-nos a isso. Mas uma coisa é o respeito e a tolerância, outra é “comermos tudo”…

A grande aposta é na família. A diocese de Viseu trabalha este ano o tema da família, decorrente do sínodo diocesano, e penso que é muito importante.

AE – Ainda sobre este capítulo da exortação apostólica, acredita que de todos os processos de discernimento, do acompanhamento necessário a fazer a cada caso, é a integração até aos sacramentos?

DAL – Acho que isso é um caminho. Há sempre um objetivo, uma meta. E o Papa tem uma palavra a dizer e também os bispos, em comunhão com o Papa. É um caminho. Vejo como um caminho. Não gostaria de dizer nada em concreto, porque é um caminho.

Dou-lhe um exemplo: há um rapaz que se casou em segundas núpcias há pouco tempo. Ele tinha casado muito jovem, não tiveram filhos. Oriundos de famílias muito cristãs, estiveram pouco tempo juntos. Disse-lhes sempre: vede como poderão introduzir o processo no tribunal eclesiástico e ajudei-os.

No domingo de Páscoa, encontrámo-nos e ele disse-me que se ia casar e batizar o filho da segunda união. Fiquei contente e muito feliz. Ele agradeceu a ajuda e a “iluminação no caminho” porque disse que, na altura, não pensava nisso.

A receção aos sacramentos faz-se. Hoje ouvimos casais que não podem ter acesso à comunhão sacramental mas gostam de ir falar com um sacerdote, até se confessam, têm a consciência que não comungam, mas fazem-no espiritualmente.

Para o sacramento da eucaristia, cada um faz o seu caminho.

Vivemos hoje numa Igreja em que muitos podem comungar, não querem e não comungam. Outros querem comungar e há o impedimento por parte da Igreja. Há que acolher, iluminar. A Igreja não está em crise, precisa de ser iluminada para ajudar a resolver as crises que entram no coração humano.

AE – Esse acompanhamento decorre já na diocese da Guarda?

DAL – Sim, decorre no tribunal e tivemos já formação para isso.

AE – Em Viseu, onde será bispo, prepara-se para apresentar um documento.

DAL – Será no dia 1 de julho.

AE – Já o conhece?

DAL – Sim.

AE – Porque o vai aplicar.

DAL – Mas ainda não estou em Viseu…

AE – Mas a linha, pelo que tem dito D. Ilídio Leandro, será a do acolhimento.

DAL – A linha é do acolhimento e de ajudar as famílias. Está-se a pensar, lá e aqui na diocese, até em cada arciprestado, haver uma equipa de casais com um sacerdote, para acompanhar esses casos e ajudar a iluminar.

Penso que é um grande desafio à evangelização atual. São João Paulo II quando falava da nova evangelização, com novo ardor e novos métodos, se calhar nunca ele imaginou que fosse trazer estas coisas que agora temos em mãos. Mas temos de as trabalhar e amar com naturalidade e fazer o evangelho incarnado para nós.

AE – A juventude é outro setor em debate, num Sínodo. O que espera do Sínodo, que vai decorrer em outubro?

DAL – Os jovens são uma grande preocupação. Quando vou, nesta diversidade de trabalho, presidir a funções litúrgica, encontro muitos jovens, fico encantado! A celebração é logo outra. A palavra que se dirige aos jovens e aos pais. É muito bonito.

No dia em que fui nomeado bispo, telefona-me um afilhado, que se chama Luciano, e diz-me «Padrinho, dou-te os meus parabéns, mas dou-te outra notícia: vou ter mais um filho». Foi uma grande alegria, juntamente com a alegria que eu senti, embora a pobreza e a minha limitação para ser escolhido para esta missão nesta fase da vida, esta alegria colmatou o que é a alegria da Igreja, do mundo.

Eu compreendo e eu digo muitas vezes: formamos os jovens – e eu fui um benfeitor da formação dos jovens, sacrificando-me e nunca discuti isso – formamos bons técnicos, bons engenheiros, bons médicos e enfermeiros, bons professores e não lhes damos trabalho, têm de ir para o estrangeiro. E outros é que vão aproveitar. Nós temos de criar condições para eles ficarem, formarem família mais cedo, para termos um Portugal renovado.

Fiquei triste quando noticiaram que daqui a alguns anos seremos menos quatro milhões. Eu fiz logo uma prece. Isto tem de ser alterado!

AE – É um problema mais sentido nas dioceses do interior?

DAL – Sim, nós formamos os jovens que vão depois para outras universidades. Temos tido uma coisa boa: muitos jovens que vêm de outros pontos do país acabam por ficar aqui. E esses são as famílias que hoje têm dois ou três filhos e dão vida às comunidades.

Estou esperançado no novo Sínodo dos jovens e das conclusões que vão sair.

Não temos de ter medo em estar junto da juventude. Tenho 66 anos mas sinto-me jovem de coração porque os jovens com quem vivi ajudaram-me ensinaram-me a ser jovem. E continuam a ajudar-me. Apostar nos jovens é algo muito bonito.

Há duas máximas de São Francisco de Sales, patrono dos jornalistas, que me dizem muito: «Nada pedir, nada recusar». O Senhor deu, aceitamos. Se precisamos, agradecemos e partilhamos com os outros. A outra é «Onde te colocarem, deves florir». Eu aplico isto à juventude. Os jovens, hoje, muitas vezes, são colocados em ambientes difíceis para florir. O adiamento do casamento, ou a experiência matrimonial e depois vem o casamento e o batizado do filho. São situações que nós, sociedade, criámos porque não soubemos estar atentos, discernir os tais sinais dos tempos que o Concilio nos alertava.

AE – Onde estão as causas dessas más decisões?

DAL – Vou novamente à frase: «Onde te colocarem, deves florir». E se é no meio de um silveiredo? Não tens luvas nem material, com as tuas mãos arranca as silvas e as pedras e transforma o silveiredo num jardim.

AE – Assim, a responsabilidade está sempre no próprio…

DAL – E também de quem ajuda a crescer. José Ortega Y Gasset diz que «O homem é ele e as suas circunstâncias».

AE – Mas sobre a não fixação de jovens no interior, há opções políticas que têm de ser tomadas nesse sentido?

DAL – Sim, também. Vemos as autoestradas e outras empresas que se deslocam para o litoral. Isso esvazia-nos. Se vierem outras e se houver um olhar para o interior, pode beneficiar-nos. Guarda é um lugar estratégico. Temos um caminho-de-ferro que nos liga a Lisboa, pela linhada  Beira Alta, que é também linha internacional, temos duas autoestradas. Há que fixar lugares de trabalho.

É certo que o Inverno é um pouco frio. Mas sente-se o calor humano.

Mas deixe-me regressar à imagem das silvas: são muitos os impedimentos que temos na sociedade, não só em Portugal, mas na Europa e na aldeia global. Não dão a todas as pessoas, desde a mais simples até às mais qualificadas, as hipóteses que podiam ter na vida para as ajudar a construir um mundo diferente. Têm as ferramentas, mas onde aplica-las é que é mais difícil.

AE – Dizia há pouco que nunca está zangado com ninguém, nem cria problemas com ninguém. É uma característica pessoal?

DAL – Também é, mas deve-se a um trabalho pessoal. Ainda há dias, em família, estava a jantar com duas irmãs e o meu cunhado, no domingo à noite. A minha irmã dizia-me assim «Tu às vezes engoles e não manifestas». Se calhar. Mas com facilidade faço a gestão desse acontecimento. Não fico a pensar muito. Liberto-me. O trabalho liberta-me, o contacto com as pessoas.

Às vezes disso assim «Tens uma preocupação hoje, tens que tentar resolver». Se posso, vou ao encontro dos doentes, da natureza e isso liberta-me. Depois já venho com uma solução. O Espirito Santo já me diz «Tenta entrar por este caminho, vê se é possível».

 

Bispo para uma Igreja hospital de campanha

AE – Falemos da nomeação episcopal para bispo de Viseu. É um homem dos hospitais, da Igreja. Foi nomeado agora bispo para uma Igreja que o Papa quer de «hospital de campanha». É o perfil ideal para cumprir esse desígnio do Papa Francisco?

DAL – Não sei. Nunca tinha pensado nisso. Eu sou um bispo para a Igreja. Sempre fui um homem eclesial. E um padre eclesial. O Concílio Vaticano II sempre me iluminou muito e como enfermeiro recebi muitos dos seus ensinamentos.

O padre Vitor Feytor Pinto, de quem sou muito amigo, trabalhava muito connosco. O senhor padre Vítor Franco, natural de Peniche, capelão nos Hospitais Civis de Lisboa, que eu visitei dias antes de morrer, estava internado no Hospital de São José. Aprendi muito com esta gente: o que era o Concílio e a sua dinâmica na pastoral da saúde e dos doentes. Acompanhei depois o Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, contactei muita gente nestes meandros, gente com horizontes sobre isto de ser padre e bispo num hospital de campanha.

Fui militar, estive para ir para uma zona de guerra, mas como se tinha dado a revolução já não fui. Mas recebi, tanto em Quelimane como em Nampula, muitos traumatizados de guerra e muitos mutilados.

Ser em Igreja um hospital de campanha é estar sempre disponível, próximo e preparado para acolher as pessoas e para responder às suas necessidades.

AE – Isso implica não ter como primeira prioridade o ambiente episcopal e os paços episcopais?

DAL – Pois, esses são para dormirmos, para estudar, para trabalhar e rezar. Para recebermos os padres e as pessoas que necessitam do nosso conselho e de nos ouvir. Mas depois, é o contacto com as pessoas.

AE – É assim que vai ser bispo em Viseu?

DAL – Mesmo no contacto com as pessoas, temos de aprender, no silêncio, na oração e, também, no recato do Paço. Depois, é que se vem para o mundo, porque pode ser fictício, não verdadeiro.

O hospital de campanha é de improviso. É a resposta imediata: alguém se feriu, temos de ajudar; alguém não tem condições para ir para a escola, temos de o ajudar.

Fiz parte da comissão que fundou o Banco Alimentar Contra a Fome da Beira Interior, que criámos na Covilhã, juntamente com uma equipa de padres, jesuítas, e eu fui membro da comissão fundacional e da assembleia geral. O hospital de campanha nasce da atenção às pessoas, aos ambientes e às necessidades e depois, a resposta que temos de dar de imediato. Na altura, havia muitos cidadãos provenientes do PALOP, muitos timorenses, que procurámos ajudar. Pagamentos de propinas, distribuição todas as semanas ou quinzenalmente, de um saco de alimentos para que não faltasse o essencial.

Este hospital de campanha que o Papa Francisco quer que a Igreja seja é estar atento a todos, em todos os lugares, e não deixar ninguém de fora. E termino com uma palavra dos Atos dos Apóstolos: «Deus não faz aceção de pessoas». É para isso que o Papa Francisco quer este hospital: para que a Igreja seja sinal no mundo do evangelho de Jesus Cristo que veio para servir e dar a vida.

 

Bispo em Viseu

AE – E é assim que quer ser bispo em Viseu?

DAL – É assim que quero ser bispo em Viseu, fazendo a vontade de Deus. Eu escolhi para lema «Seja feita à vossa vontade», decalcado de São Mateus e da oração do Pai-nosso, que é a oração que rezamos todos os dias e às vezes banalizamo-la, podemos rezá-la mal. Eu quero rezá-la bem e ensinar os outros a rezá-la.

AE – E tem conhecimento da diocese, pelo tempo em que foi lá professor, dos sacerdotes, do que vai encontrar?

DAL – Encontrarei surpresas, claro, como encontramos todos os dias. Espero que possa ser uma resposta para os problemas que surjam. Mas, neste momento, rezo por eles, sem os conhecer, e os que conheço rezo ainda mais. Espero ir liberto, em paz.

Termino com uma frase de Santo Inácio de Loyola, que me dá muito prazer repeti-la: «Tudo para maior honra e glória de Deus» e para bem das pessoas, que é, na perspetiva cristã, a salvação. Mas a salvação começa com o maior bem humano. E aí é que se constrói o hospital de campanha, as tendas, com pessoas solidárias, voluntárias, livres, acolhendo todos e, depois, falando-lhes de Jesus Cristo, e levando-lhes ao coração.

AE – Uma diocese que fez um Sínodo, muito recentemente, tem, por certo, desafios e propostas que quer levar ao terreno. Será nesse caminho que se vai integrar?

DAL – O caminho em que me vou integrar é o das conclusões do Sínodo. Com todos os padres, os diáconos, os leigos, responsáveis e com todos os que vivem na Diocese de Viseu, levarmos estes pontos a algo concreto.

Haverá sempre uma marca pessoal que o Evangelho, todos os dias, nos convida a inovar. Aí está a beleza de Deus que é levada às pessoas, em especial aos mais frágeis, aos doentes, aos que vivem abandonados. É aí que o hospital de campanha se constrói. Também dentro das catedrais, mas fora delas, no Paço episcopal. E também em momentos como este!

PR/LS

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